Animais em Chernobyl: espécies ainda carregam os efeitos da radiação
Cães, lobos, sapos e outras espécies da região são estudados por cientistas que investigam alterações genéticas e possíveis adaptações após décadas de exposição

Quarenta anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, a vida selvagem que ocupa a região continua sendo acompanhada de perto pela ciência. A área, contaminada após a explosão do reator número 4, no dia 26 de abril de 1986, se transformou em um dos principais locais do mundo para estudar os efeitos de longo prazo da radiação sobre animais e plantas.
Apesar da imagem popular de animais com mutações visíveis e características incomuns, a realidade é mais complexa. Pesquisas mostram que algumas espécies apresentam alterações genéticas ou biológicas associadas à exposição à radiação, mas também existem muitos animais que vivem e se reproduzem normalmente na região.
Um dos grupos que mais chama a atenção dos pesquisadores é o dos cães que vivem na Zona de Exclusão de Chernobyl. Um estudo publicado na revista científica 'Science Advances' identificou diferenças genéticas importantes entre cães que vivem próximos à usina e aqueles encontrados na cidade de Chernobyl, a cerca de 16 quilômetros de distância. A pesquisa encontrou centenas de regiões do genoma que podem ter sofrido influência da seleção natural.
Isso, porém, não significa que a radiação tenha necessariamente provocado todas essas mudanças. Outro estudo, publicado em 2024 na 'PLOS One', investigou especificamente se uma taxa maior de mutações poderia explicar as diferenças genéticas entre os grupos de cães. Os pesquisadores não encontraram evidências de que um aumento na taxa de mutação estivesse por trás dessa diferenciação.
A distinção é importante porque alterações genéticas podem surgir por diferentes motivos. Além da radiação, fatores como isolamento das populações, mudanças ambientais e seleção natural também podem influenciar a evolução de uma espécie.
A própria Comissão Científica das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR) aponta que estudos realizados após o acidente registraram efeitos biológicos em organismos expostos a níveis elevados de radiação. Ao mesmo tempo, a organização destaca que as consequências dessas alterações para a sobrevivência e reprodução das populações nem sempre são conhecidas.
A radiação também não está distribuída de maneira uniforme pela região. Existem áreas com diferentes níveis de contaminação, o que significa que os animais podem estar submetidos a condições bastante distintas dependendo de onde vivem e do que consomem. Estudos ambientais já analisaram a transferência de radionuclídeos para diferentes espécies, incluindo plantas, anfíbios, pequenos mamíferos e invertebrados.
Ao mesmo tempo, a retirada de grande parte da população humana alterou profundamente o ecossistema. Com menos agricultura, construções e circulação de pessoas, diversas espécies passaram a ocupar espaços que antes eram dominados pelas atividades humanas. Lobos, aves, castores e outros animais podem ser encontrados na região, mostrando que a ausência de pessoas também desempenhou um papel importante na transformação do ambiente.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



