Atingido pelo rompimento da barragem de Fundão explica o que motivou prisão no último sábado (02)
Prisão de membro da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão gera comoção e solidariedade de deputados do PT

Foi preso na tarde do último sábado (02), um dos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, o senhor Marino D’Angelo, de 54 anos.
Marino é morador de Paracatu de Cima e membro da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF), e segundo ele, a prisão aconteceu após ele não concordar com uma obra que estava sendo realizada em seu terreno, por parte da Fundação Renova.
A prisão de Marino gerou comoção de outros atingidos e membros de movimentos sociais, além de deputados como Beatriz Cerqueira, Leleco Pimentel e Rogério Correa, todos do PT, que se pronunciaram através das redes sociais, prestando solidariedade ao atingido.
A reportagem da Itatiaia conversou com Marino, que relatou o ocorrido no final de semana.
Marino afirmou que sua propriedade foi atingida pela Renova e que a empresa precisou realizar uma obra no local. Inicialmente, a obra começou sem a sua permissão, mas, após um diálogo, ficou combinado que qualquer intervenção seria previamente autorizada. No entanto, em determinado momento, a obra foi retomada sem consulta prévia, o que levou ao embargo da construção.
Ele relatou que, após o embargo, a Fundação Renova o procurou, e um acordo foi alcançado para o uso da sua propriedade. Durante esse período, Marino viveu temporariamente em uma habitação provisória, aguardando a mudança para uma nova propriedade. No entanto, a Fundação Renova decidiu não alugar a nova casa após sua conclusão, o que gerou descontentamento por parte do atingido.
Diante disso, ele restrigiu o acesso à sua propriedade e suspendeu a autorização para a continuação da obra. Houve um incidente envolvendo a Guarda Municipal, que resultou em um confronto e na condução de Marino para prestar esclarecimentos.
"Quando eu cheguei lá na delegacia de Ouro Preto, para ser sincero, eu fiquei feliz. Porque eu percebi que eu importo para muita gente. A quantidade de gente estava lá me esperando. O movimento que foi feito e os atingidos em geral, recebi muito apoio e carinho", disse Marino.
No sábado, membros da Assessoria Técnica Independente da Cáritas prestaram apoio a Marino, acompanhando-o durante as averiguações. Em nota,
“A Assessoria Técnica Independente da Cáritas MG, em Mariana, repudia a condução de Marino D’Angelo, atingido de Paracatu de Cima e membro da Comissão dos Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF) à delegacia da Polícia Civil de Ouro Preto neste sábado (02).
Marino estava em um terreno de sua propriedade, quando funcionários da Fundação Renova chegaram no local para realizar obras em seu imóvel. Considerando que o acordo firmado verbalmente entre ele e a Fundação Renova é de que nada seria executado no terreno até que fossem resolvidas as questões do processo de reparação, no âmbito individual, Marino pediu que se retirassem do local.
A Fundação Renova além de se recusar a deixar a propriedade, acionou as autoridades policiais de Mariana.
Marino sofreu escoriações e foi conduzido como um autor de crime à delegacia local, o que fortalece ainda mais o processo de criminalização dos atingidos e a postura das empresas rés que repetidamente negam e violentam os direitos das pessoas e comunidades atingidas.
Assim como as demais pessoas atingidas pela barragem de Fundão, Marino e sua família buscam há quase 8 anos a reparação pelas violações ocasionadas pelo desastre-crime e ainda enfrentam inúmeros danos gerados pelo rompimento.
Nossa incondicional solidariedade ao Marino, à sua família e a todas as pessoas atingidas, que se veem diariamente criminalizadas por lutarem pela efetivação de seus direitos.
Lutar não é crime! Se posicionar frente a medidas arbitrárias não é crime!”.
A reportagem da Itatiaia também procurou a Fundação Renova que se posicionou sobre a situação através de uma nota enviada à imprensa.
“A Fundação Renova informa que tomou conhecimento da condução do senhor Marino D'Angelo pela Guarda Municipal de Mariana. Ocorreu nas proximidades de uma obra de utilidade pública, solicitada pela Prefeitura de Mariana e executada pela organização. A Renova ressalta que não tem envolvimento com a ocorrência. Sobre a obra, trata-se de melhorias no acesso ao distrito de Águas Claras, necessárias e urgentes pela proximidade do período chuvoso.
A Fundação Renova esclarece que possui uma autorização formal dos moradores e detentores da posse do imóvel para a utilização de uma pequena parcela para a instalação do canteiro das obras referidas. Após 2 meses de execução, o Sr. Marino embargou a obra, alegando que não reconhecia a autorização. Foi feita uma proposta de ressarcimento pelo uso da área, que foi aceita, mas não celebrada devido ao desejo de ser atendido em uma outra moradia temporária, de 50 hectares, o que não condiz com as diretrizes que regem os programas de reassentamento da Fundação. A Fundação Renova reitera que segue aberta ao diálogo.”
Sobre as acusações sobre a atuação da Guarda Civil Municipal (GCM), a Secretaria Municipal de Segurança Pública de Mariana informou que
“A Secretaria Municipal de Segurança Pública desconhece essas atitudes das equipes da GCM em relação à ocorrência atendida envolvendo o Sr Marino D'Angelo.
Com relação ao uso da Pistola de Impulso Elétrico, foi efetuado um disparo somente contra o senhor Marino D'Angelo, uma vez que o mesmo apresentava-se agressivo e ameaçando a todos no local. A Pistola de Impulso Elétrico é um armamento de menor potencial ofensivo apropriado e indicado para o tipo de ocorrência, onde há necessidade de "quebrar" a resistência do autor.
Quanto aos xingamentos e beijos mandados pelos GCM'S ao senhor Marino D'Angelo, citado pelo mesmo, essa não é a postura adotada pelos GCM'S de Mariana e qualquer denúncia pode ser formalizada na Corregedoria da GCM.
Quanto à prisão do Sr Marino D'Angelo a ação foi legítima e proporcional, sendo o mesmo preso por ameaça e desacato aos agentes da GCM e as circunstâncias foram descritas no boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Polícia Civil.”
Isabela Vilela é repórter multimídia na Itatiaia Ouro Preto desde 2022. Jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), é mestranda em Comunicação pela mesma instituição, pesquisando sobre a produção jornalística em plataformas digitais. Antes, passou pela Agência Primaz de Comunicação e atuou como Copywriter e Produtora de Conteúdo em organizações sociais de Minas Gerais e São Paulo.



