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Padre Samuel Fidelis | Ano Novo: nosso jardim

Que o trabalho não seja apenas para pagar ‘boletos’ ou ‘bater metas’, mas esteja cheio de propósito, de sentido divino

É nosso dever, diante de Deus, guardar e cultivar jardins (Gn 2,15)

É bem bacana o paradoxo do Ano Novo! A gente se permite estar entregue à incerteza do futuro. Aliás, mais do que entregue, deslumbrado. E é bom que seja assim, pois não é possível existir sem fantasiar a vida. É bom começar um ano com bastante lucidez diante do fato de que aquilo que a gente julga realmente querer, muitas vezes, se ausenta. E como as ausências nos atormentam...

Por isso é que a virada do ano se brinda com champanhe, fogos! Tentamos inebriar as mágoas que sabem nadar… Só se afogam por hora.

Quem sabe, se ao invés de grandes projetos, tivermos um compromisso com coisas simples, neste ano de 2026? Rituais de conexão, neste casamento que se tornou um filme em cartaz. Habituar-se aos bons afetos? Deixar fluir bons sentimentos, não entendendo o cuidado nas relações como um “jogo ganho”.

Seria bom também, neste ano que entra, apreciar a beleza! A dos ventos, do tempo, das flores, do envelhecer… Já reparou que nossas cidades estão cada vez mais quentes, cinzas e sem esquinas? Nada pensado para a apreciação do belo, para traduzir a alma, seduzir a memória...

Oxalá estejamos atentos aos detalhes do afeto, ao autocuidado, à atenção genuína ao outro, ao Totalmente Outro (Deus!), mesmo que custe. Na atenção aos detalhes tecemos declarações silenciosas de amor à vida.

Que não nos faltem amores, mais que inevitáveis, para além da “filosofia” de Pabllo Vitar: “amores que matam, que ferem, doem, amargam...”, mas os amores de indígena...

Fará bem lembrar que o sono é sagrado. É ele que alimenta de horizontes o tempo acordado. Que o trabalho não seja apenas para pagar “boletos” ou “bater metas”, mas esteja cheio de propósito, de sentido divino... É nosso dever, diante de Deus, guardar e cultivar jardins (Gn 2,15).

Recordemo-nos da fala de Iago, vilão de Otelo. Não há desculpa para abandonar bandeiras certas por estarem em mãos erradas:

“Está em nós mesmos sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, e nossas vontades são os jardineiros; de modo que, se quisermos plantar urtigas ou semear alface, cultivar hissopo ou arrancar o tomilho, suprir o jardim com um único tipo de erva ou misturá-lo com muitas, torná-lo estéril pela ociosidade ou fértil pelo trabalho. O poder e a autoridade de corrigir tudo isso estão em nossa vontade...”

Feliz 2026! Bons cultivos…

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

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