Quem é Santiago Peña, presidente do Paraguai que anunciou renúncia ao cargo
Economista de 47 anos foi eleito em 2023 e enfrenta uma crise política após intervenção do Banco Central no Ueno Bank, que levou à abertura de um processo de impeachment no Congresso

Santiago Peña, do Partido Colorado, foi eleito presidente do Paraguai em 2023. Nesta quinta-feira (5), anunciou que renunciará ao cargo em meio a uma crise envolvendo o Ueno Bank, principal instituição financeira privada do país.
A intervenção do Banco Central paraguaio no banco provocou a saída do presidente da autoridade monetária. Ele havia sido sócio do grupo proprietário do Ueno até março de 2025.
A crise também chegou ao Congresso, que iniciou uma sessão para discutir o impeachment de Peña. O pedido de afastamento aponta possíveis conflitos de interesses e cooptação do Estado; manipulação regulatória e desvio de recursos de aposentadorias; concessão de créditos ao Ueno acima dos limites permitidos; e suposto acobertamento institucional pelo Banco Central.
A acusação também menciona indícios de enriquecimento ilícito, além de possíveis impactos sobre a confiança no sistema financeiro nacional e riscos sistêmicos.
Durante a sessão, a deputada da oposição Rocío Vallejo criticou o presidente e afirmou que as decisões relacionadas ao caso prejudicaram milhões de pessoas.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou”, declarou.
Em uma publicação na rede social X, Peña afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão perante a Justiça, sem exceções. Pouco antes, ele havia promulgado uma lei que permitirá aos poupadores do Ueno recuperar o dinheiro em menos tempo.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, escreveu.
Após a intervenção, as contas dos 3 milhões de usuários do Ueno foram bloqueadas, e os ativos e passivos da instituição foram congelados. O número de clientes afetados equivale a quase metade dos 6,1 milhões de habitantes do Paraguai.
Histórico como economista
Aos 47 anos, Santiago Peña é economista e mestre em Administração Pública pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos, segundo seu perfil publicado no site oficial.
Durante anos, integrou o Banco Central do Paraguai e participou de conselhos de liderança da instituição.
Entre 2015 e 2017, ocupou o cargo de ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes.
Em 2017, Peña concorreu nas eleições internas do Partido Colorado, mas não venceu a disputa. No ano seguinte, foi eleito para o conselho do Banco Amambay.
Em 2023, formou uma chapa com Pedro Alliana e venceu a eleição presidencial. Os dois derrotaram Efraín Alegre e Sole Núñez, representantes do bloco oposicionista Concertação Nacional por um Novo Paraguai.
Alinhamento a Trump, Escudo das Américas e Itaipu
A aproximação entre Santiago Peña e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ganhou destaque em outubro, quando Christopher Landau, número dois do Departamento de Estado norte-americano, visitou o Paraguai em uma agenda diplomática.
Durante a passagem pelo país, Landau se reuniu com Peña e com o chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano. O diplomata afirmou que nunca havia existido um nível tão elevado de cooperação entre os dois países.
A aproximação tem origem em um acordo assinado por Trump e Peña no fim de 2025 e ratificado pelo Congresso paraguaio em março de 2026.
O documento autoriza a presença de militares norte-americanos e de integrantes do Departamento de Estado no Paraguai. Também permite o uso de transporte e armas no território paraguaio, com imunidade equivalente à diplomática.
O Paraguai passou a integrar o chamado “Escudo das Américas” e declarou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas.
O país também passou a atuar como destino de imigrantes deportados pelos Estados Unidos, mesmo quando essas pessoas não são originárias do Paraguai.
Em declaração à imprensa, Landau descreveu a visita como uma missão voltada a oportunidades de negócios. Ele destacou a importância do Paraguai nas relações diplomáticas dos Estados Unidos e afirmou que o país está no coração da América do Sul.
O diplomata, no entanto, não mencionou especificamente investimentos norte-americanos, mas ressaltou a possibilidade de atrair recursos de outros países para o território paraguaio.
Dias depois, ainda durante a viagem do representante dos Estados Unidos, o governo norte-americano anunciou um acordo para utilizar energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu em projetos de inteligência artificial.
O entendimento foi firmado entre uma empresa dos Estados Unidos e uma companhia paraguaia.
A administração de Itaipu é dividida entre Brasil e Paraguai, que também recebem partes iguais da energia produzida pela usina. A nota divulgada pelo governo norte-americano, porém, não mencionou o Brasil.
Com informações de Luciana Taddeo, da CNN Brasil, em Buenos Aires, e da Reuters.
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