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‘Onda azul’ surpreende nas Midterms e amplia força democrata; entenda os fatores da vitória

Rejeição ao presidente, custo de vida, perda de apoio entre latinos e recorde de votação antecipada ajudam a explicar avanço democrata nas eleições dos EUA

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Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. • Official White House Photo by Molly Riley.

A rejeição às políticas de Donald Trump, o aumento do custo de vida, a perda de apoio entre eleitores latinos e o recorde de votação antecipada contribuíram para o avanço democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.

Assessores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconhecem, em caráter reservado, que o resultado das eleições de terça-feira (3) foi tão favorável aos democratas que não esperam uma tentativa de contestação em larga escala por parte do governo — se é que ela ocorrerá.

“Foi, essencialmente, uma vitória grande demais para ser fraudada”, afirmou um assessor de Trump à CNN, em referência a uma das expressões frequentemente utilizadas pelo presidente para falar sobre sua vitória eleitoral em 2024.

Antes da votação, Trump e aliados já haviam preparado o terreno para uma possível contestação dos resultados. O presidente questionou repetidamente a integridade das eleições americanas e, nos últimos meses, continuou a afirmar, sem apresentar provas, que o sistema eleitoral é marcado por fraudes.

O Departamento de Justiça também havia acionado a Justiça no Alasca para tentar impedir a certificação dos resultados no estado caso o republicano Dan Sullivan não vencesse. A medida foi motivada pela presença de outro candidato com o mesmo nome na cédula de votação.

Na Califórnia, Trump tentou impedir a contabilização de milhares de votos que, segundo o Departamento de Justiça, poderiam ter sido registrados por pessoas que não são cidadãs americanas. A Suprema Corte, no entanto, rejeitou a medida na segunda-feira (2).

A chamada "onda azul", prevista pelas pesquisas anteriores às eleições de meio de mandato, superou as expectativas mais otimistas do Partido Democrata. Candidatos da oposição conseguiram manter o domínio em estados disputados e conquistar mais cadeiras do que o necessário para garantir o controle da Câmara e do Senado.

Apesar dos desafios para unir diferentes alas do partido, a vitória representa uma demonstração de força dos democratas, que, em 2024, enfrentaram dificuldades para conter o retorno de Trump à Casa Branca.

Rejeição às políticas de Trump

As derrotas republicanas podem ser interpretadas, em parte, como uma manifestação de insatisfação dos eleitores com as políticas do presidente americano.

Trump foi eleito em 2024 com promessas de melhorar a economia e reduzir a inflação registrada durante o governo de Joe Biden. Desde então, porém, os Estados Unidos se envolveram em guerras comerciais e conflitos armados que contribuíram para um cenário diferente do prometido.

Embora a economia americana mantenha um ritmo sólido de expansão, com crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 3%, os juros elevados e os preços de produtos essenciais, como alimentos e gasolina, continuam pesando no orçamento das famílias.

As eleições de meio de mandato costumam ser consideradas um termômetro da avaliação popular sobre o presidente após os dois primeiros anos de governo. Durante a campanha, o próprio Trump pediu que os eleitores votassem como se ele estivesse concorrendo, sob o argumento de que isso beneficiaria o Partido Republicano.

O presidente chegou às Midterms com média de 32% de aprovação nas pesquisas. Nesse cenário, o resultado eleitoral também reflete a insatisfação de parte do eleitorado com as promessas não cumpridas pelo republicano.

Guerra e tarifas pressionam custo de vida

A guerra com o Irã e o consequente fechamento do Estreito de Ormuz, somados às tarifas e às disputas comerciais, afetaram especialmente eleitores de áreas rurais em estados tradicionalmente republicanos.

Iowa e Kansas são exemplos de estados em que candidatos democratas conseguiram superar o domínio republicano e conquistar cadeiras no Senado.

Além dos impactos econômicos, os eleitores acompanharam o crescimento da fortuna da família Trump e de aliados do presidente, como o bilionário Elon Musk. O assunto foi explorado pelos democratas durante a campanha.

James Talarico, que será o primeiro senador democrata do Texas desde 1988, concentrou parte de sua campanha na ideia de que a divisão dos Estados Unidos não ocorre entre direita e esquerda, mas entre o topo e a base da pirâmide social.

O democrata também criticou o adversário republicano Ken Paxton por receber financiamento de "megadoadores bilionários", entre eles Musk, que investiu centenas de milhares de dólares na disputa.

Voto latino e imigração

O Texas também demonstra a importância do voto latino no resultado das eleições. Se, em 2024, eleitores latinos e hispânicos contribuíram para a vitória de Trump, a perda de apoio entre esse grupo ajudou a explicar a derrota republicana nas Midterms.

Assim como outros segmentos do eleitorado, essas comunidades sentiram os efeitos econômicos das tarifas e da guerra no Oriente Médio. A população hispânica também tem participação importante na cadeia de produção de carne dos Estados Unidos, setor afetado por subsídios estrangeiros que pressionaram os frigoríficos americanos.

Os latinos também representam uma parcela significativa da mão de obra da agropecuária e da construção civil no país, independentemente da situação migratória.

O receio das operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE, na sigla em inglês) levou parte desses trabalhadores a faltar ao trabalho, provocando impactos nos setores.

Além disso, a maior parte da população considera excessivamente truculentos os métodos utilizados pelo ICE, órgão ligado ao Departamento de Segurança Interna, e avalia que as ações foram longe demais.

Votação antecipada

O recorde de votos antecipados também contribuiu para o resultado favorável aos democratas. Mais de 58 milhões de votos antecipados foram registrados até o dia da eleição, considerando democratas, republicanos e independentes. O número ainda pode aumentar com a chegada de novas cédulas enviadas pelo correio.

Dados da CNN, AP e Catalist mostram que os democratas superaram os republicanos em 13 pontos percentuais entre os eleitores que votaram antecipadamente. A vantagem foi registrada em estados decisivos para a onda azul, como Iowa, Maine, Ohio e Carolina do Norte.

Em muitos estados americanos, os votos antecipados são contabilizados primeiro, alguns até antes do dia oficial da eleição. Esse procedimento também contribuiu para que a vantagem democrata aparecesse logo no início da apuração e da divulgação dos resultados.

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