Ladrões levam 30 mil garrafas em vinícola italiana estimadas em R$ 45 milhões
Criminosos roubaram remessas de Tignanello, Solaia e Guado al Tasso após desativarem os alarmes de um galpão da Antinori na Toscana

Ladrões esvaziaram, nesse sábado (10), um depósito da Marchesi Antinori, em Cortona, na Toscana, e levaram cerca de 30 mil garrafas de alguns dos vinhos mais cobiçados da Itália. O roubo foi estimado em R$ 45 milhões. A operação durou aproximadamente três horas e nenhum alarme foi acionado. Segundo Lorenzo Vivoli, do departamento de comunicação da Antinori, eles haviam sido desativados de dentro do prédio no dia anterior.
“Foi como se eles já soubessem de tudo”, afirmou Vivoli.
Os assaltantes chegaram ao local utilizando dois caminhões, e as garrafas encontravam-se prontas para o transporte, devidamente acondicionadas e aguardando o envio aos mercados internacionais da Antinori.
Vivoli afirma ter sido o maior furto da história do vinho, nada desta dimensão jamais ocorreu. O diretor-executivo da Antinori, Renzo Cotarella, concorda com a afirmação e diz ser “um crime sem precedentes para o mercado vinícola na Itália, executado por um grupo visivelmente hiper organizado e extremamente bem preparado”
De acordo com Vivoli, os suspeitos levaram cerca de 10 mil garrafas de cada um dos rótulos Tignanello, Solaia e Guado al Tasso, todos pertencentes à safra de 2023. Tomando como base as cotações médias no comércio varejista dos Estados Unidos, de cerca de US$ 430 por garrafa de Solaia, US$ 200 de Tignanello e US$ 190 de Guado al Tasso, o lote roubado vale aproximadamente US$ 8,2 milhões (cerca de R$ 45 milhões). Para o mercado europeu, a Antinori calculou o prejuízo em torno de € 5 milhões (cerca de R$ 32 milhões).
Qualquer uma das estimativas posiciona este episódio como o maior roubo individual de vinhos ou bebidas destiladas já registrado no planeta. O recorde anterior na Itália, conforme apurado pelo jornal Corriere della Sera, havia sido um roubo em Cervia, uma comuna da Itália, em 2017, estimado em € 750 mil (cerca de R$ 4,8 milhões). Já o incidente mais caro já computado pela publicação Drinks Business envolveu um golpe de US$ 2,7 milhões (aproximadamente R$ 14,9 milhões) nas instalações da Legend Cellars, em Irvine, Califórnia, no ano de 2015.
A Antinori ainda desconhece a forma como os alarmes foram inativados, informou Vivoli, ressaltando que as apurações policiais prosseguem. Nenhum suspeito foi localizado ou detido até o momento. A companhia dispõe de gravações do circuito interno de monitoramento, contudo as autoridades policiais solicitaram a não divulgação das imagens enquanto as investigações estiverem em andamento.
Alvo frequente de falsificadores
As mesmas marcas são visadas por falsificadores há vários anos. Em 2019, as autoridades policiais italianas efetuaram a prisão de três indivíduos envolvidos em uma fraude que comercializou ao menos 11 mil garrafas adulteradas de Tignanello na Itália, Alemanha e Bélgica. Os recipientes exibiam rótulos indicando as safras de 2009, 2010 e 2011, porém continham bebida de qualidade inferior.
A investigação teve início quando uma gráfica em Pistoia aceitou uma encomenda de mais de 4 mil rótulos de Tignanello realizada por um suposto “Sr. Rossi”, que afirmava representar a vinícola. Nos rótulos falsos, o termo em italiano “altitudine” foi impresso erroneamente como “altidudine”.
Em outra ocorrência, uma organização criminosa negociou mais de 54 mil garrafas falsificadas com compradores da Suíça entre 2016 e 2018, utilizando o nome de grandes produtores italianos, incluindo a Marchesi Antinori.
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Para combater a pirataria, a Antinori aplica elementos de identificação em suas garrafas há anos. A partir da safra de 2013, a empresa adotou um logotipo em relevo; em seguida, adicionou o nome Tignanello também em alto-relevo; e, desde 2016, passou a aplicar um lacre especial nos recipientes. Qualquer consumidor pode realizar a leitura do selo por meio do celular para checar a autenticidade do produto. No entanto, a tecnologia não rastreia o destino final dos itens.
“Eles não nos ajudam a localizar as garrafas roubadas”, disse Vivoli à revista Fortune, quando indagado sobre a eficácia dos selos.
Os desafios para comercializar a carga roubada
A Antinori aposta exatamente na complexidade de comercializar um volume tão expressivo no mercado.
“Uma quantidade de cerca de 30 mil garrafas é difícil de movimentar e recolocar no mercado sem deixar rastros”, afirmou Cotarella.
Segundo Vivoli, devido às três marcas possuírem produção limitada, o aparecimento repentino de um lote tão vasto despertará suspeitas. “Essas 30 mil garrafas não vão desaparecer no ar”, disse. “Será muito difícil para eles.”
A empresa está notificando distribuidores e clientes nos 170 países para os quais exporta sobre eventuais ofertas feitas fora dos canais oficiais.
Os Estados Unidos representam o principal comprador externo da Antinori, em um momento em que a comercialização de vinhos italianos no país já atravessava dificuldades. Conforme a associação Unione Italiana Vini, o volume exportado para o mercado norte-americano recuou 17% em faturamento no primeiro ano após a implementação de barreiras tarifárias, gerando uma retração superior a € 340 milhões (aproximadamente R$ 1,9 bilhões).
Na Itália, comprar mercadorias roubadas também é crime. Ademais, segundo o Corriere della Sera, o seguro da Antinori não cobria um prejuízo desse tamanho.
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Bebidas sofisticadas roubadas também enfrentam grandes obstáculos para comercialização pelo valor de tabela, uma vez que colecionadores exigem No ano passado, duas pessoas que se passaram por organizadores de eventos levaram seis garrafas de Domaine de la Romanée-Conti, avaliadas em US$ 38 mil (aproximadamente R$ 189 mil), de um restaurante na Virgínia. Meses depois, duas das garrafas reapareceram, incluindo uma Romanée-Conti avaliada em US$ 24 mil (aproximadamente R$ 119 mil).
“Ninguém vai pagar US$ 24 mil sem saber como o vinho foi armazenado”, disse à época o coproprietário Alain Borel.
O roubo ocorre em um momento em que os produtores de vinho enfrentam uma queda na demanda entre consumidores mais jovens. Para a Antinori, porém, o dano emocional supera a perda financeira, disse Vivoli, observando que algumas famílias trabalham na empresa há cinco gerações: “É um golpe no coração”.
Mariane Castro é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Tem interesse nas áreas de cultura e pesquisa em jogos digitais e já atuou na Assessoria de Imprensa da UFMG. Atualmente, é estagiária de Minas, Brasil e Mundo na Rádio Itatiaia.



