Coreia do Norte condena adolescentes a 12 anos de trabalho forçado por assistirem K-drama
Imagens raras mostram o momento do julgamento; em 2020, o governo promulgou uma lei que torna o ato de assistir ou distribuir entretenimento sul-coreano passível de pena de morte

Dois adolescentes norte-coreanos foram condenados a 12 anos de trabalho árduo por assistirem e distribuírem séries de televisão sul-coreanas, também chamadas de K-dramas. As imagens foram obtidas pela BBC Koran, com exclusividade, e divulgadas nesta sexta-feira (19). As informações são da BBC Brasil.
A punição ocorreu em um teatro ao ar livre na cidade de Pyongyang, a capital da Coreia do Norte. Centenas de estudantes acompanhavam a condenação. No centro do palco, os dois garotos, ambos com 16 anos, aparecem com as cabeças raspadas e vestindo uniformes cinzas, da prisão. Eles estavam algemados e com as cabeças baixas à espera do julgamento.
O vídeo teria sido distribuído pelo país "para educação ideológica e para alertar os cidadãos a não assistirem a vídeos decadentes". As imagens foram fornecidas à BBC pelo Instituto de Desenvolvimento Sul e Norte (Sand), uma instituição de pesquisa que trabalha com desertores do Norte. Segundo os pesquisadores, o vídeo teria sido gravado em 2022, ano em que a pandemia da Covid-19 estava forte no país. No vídeo, é possível ver que as pessoas usam máscaras cirúrgicas.
Um desertor do país revelou que testemunhou a execução de um jovem de 22 anos a tiros, acusado de ouvir músicas sul-coreanas e de ter compartilhado um filme do país vizinho com um amigo. Segundo a CEO da Sand, Choi Kyong-hui, Pyongyang vê os K-dramas e o K-pop como uma ameaça à sua ideologia. "A admiração pela sociedade sul-coreana pode levar rapidamente ao enfraquecimento do sistema. Isso vai contra a ideologia monolítica que faz os norte-coreanos reverenciarem a família Kim", disse à BBC.
Número de desertores norte-coreanos triplicou em 2023
Em meio ao endurecimento das regras do regime, a Coreia do Norte viu o número de desertores - pessoas que abandonam o país -, crescer em 2023. No ano passado, o número de desertores triplicou em relação a 2022. Ao todo, foram 196 pessoas, entre eles diplomatas e estudantes.
Desde que a península foi dividida pela guerra, na década de 1950 dezenas de milhares de norte-coreanos já fugiram em direção à Coreia Do Sul. A maioria passa primeiro pela China e depois por um terceiro país, como a Tailândia, antes de chegar ao Sul. Mas o número de desertores caiu significativamente desde 2020, quando Pyongyang fechou as suas fronteiras para prevenir infecções por Covid-19.
Em 2021, apenas 63 pessoas chegaram na Coreia do Sul, uma redução de mais de 90% em relação a 2019, quando 1.047 desertores foram registrados. Em 2022, apenas 67 cidadãos fugiram do país.
Entre os 196 desertores que deixaram a Coreia do Norte em 2023, mais de 80% eram mulheres, segundo o Ministério da Unificação, na Coreia do Sul. Também houve uma tendência crescente de deserções entre as elites norte-coreanas, como diplomatas e estudantes no exterior.
*Com informações da AFP
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Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.


