'Caça abusadores': polícia prende cinco membros de quadrilha de justiceiros na Argentina
Grupo se passava por adolescentes nas redes sociais e aplicativos de namoro para tentar atrair “abusadores”, que eram torturados e humilhados em frente às câmeras

Autoridades argentinas desarticularam e prenderam, no início de abril, cinco membros de uma organização criminosa conhecida como “los caza violines”, ou “os caça abusadores”, em tradução livre. O grupo atraía homens pelas redes sociais com promessa de encontro com menores de idade e cometia atos de tortura física e psicológica, tudo transmitido ao vivo em plataformas digitais. As informações foram publicadas pelo jornal “La Nación”.
Os suspeitos alegam agir somente contra abusadores sexuais, apesar de a polícia argentina ter verificado que havia manipulação de informações contra as vítimas para que elas aparentassem estar em busca de cometer crimes contra menores de idade. Os membros do grupo ainda usavam as redes para divulgar os episódios de violência como conteúdo viral. Eles foram acusados de sequestro, extorsão e agressão.
A quadrilha começava sua estratégia com a criação de perfis falsos em redes sociais e aplicativos de namoro. Então, uma jovem de 21 anos, que era conhecida como “a isca”, se apresentava como maior de idade e começava conversas com homens adultos nas plataformas. Durante o processo, a garota sugere, na verdade, ser menor de idade, o que era usado pelos suspeitos como uma estratégia para acusar os homens de assédio online contra menores.
Depois de algum tempo, já com a confiança das vítimas, o grupo marcava encontros presenciais em apartamentos alugados. Nos espaços havia câmeras, luzes e equipamentos de transmissão ao vivo. Quando a vítima chegava ao local, era surpreendida pelos integrantes do grupo, que imobilizavam, espancavam e filmavam os homens.
Em um dos casos investigados pela polícia argentina, um homem, de 40 anos, foi convidado por uma jovem para um apartamento na Avenida Corrientes. Imagens de um circuito de segurança mostram os dois chegando juntos ao prédio onde fica o apartamento. Depois de entrar no imóvel, a vítima ficou, por cerca de duas horas, sofrendo agressões enquanto as cenas eram transmitidas ao vivo na plataforma de streaming Kick.
Ainda durante a sessão de tortura, dados pessoais da vítima como número de telefone de familiares e amigos e até de empregadores eram compartilhados na internet.
De acordo com a polícia da Argentina, as conversas com as vítimas em aplicativos de mensagens e de namoro eram manipuladas e divulgadas de forma dúbia na internet. O grupo escondia parte dos diálogos e tirava outros de contexto para apresentar, nas redes, apenas trechos que justificassem os ataques contra as vítimas.
O objetivo do grupo não era denunciar crimes sexuais reais, segundo os investigadores, mas produzir conteúdo sensacionalista nas redes sociais com potencial de serem viralizados.
Os “caça abusadores” eram liderados por Brandon Joaquín Maldonado, de 29 anos, conhecido nas redes sociais, onde tinha mais de 80 mil seguidores, como “Brandon Lee” ou “El Quechuga”.
O caso foi investigado pelo Juizado Nacional de Menores Nº1, com apoio da brigada de investigações da Comuna 5 da Argentina. A participação de uma adolescente de 17 anos nos crimes levou a ocorrência para o foro da infância e juventude.
Em 2 de abril, enquanto uma transmissão ao vivo era realizada pelo grupo, os investigadores conseguiram identificar o local onde estavam os suspeitos e, horas depois, cinco integrantes da quadrilha foram presos.
Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.



