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Ex-professor de Cambridge é encontrado morto após acusações de plágio e assédio

Morte de Arday provocou comoção entre políticos e integrantes da comunidade acadêmica britânica

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Ex-professor de Cambridge que se demitiu após acusação de plágio é encontrado morto
Ex-professor de Cambridge que se demitiu após acusação de plágio é encontrado morto • Universidade de Cambridge/ Reprodução

O ex-professor da Universidade de Cambridge Jason Arday, de 41 anos, foi encontrado morto nesta sexta-feira (14), em meio a uma onda de acusações de plágio e relatos de assédio que, segundo a família, se estendia há anos. O acadêmico era considerado uma das principais figuras negras da universidade e, até o mês passado, tinha uma trajetória pública marcada por reconhecimento acadêmico e trabalhos na área social.

A morte de Arday provocou comoção entre políticos e integrantes da comunidade acadêmica britânica. Pessoas próximas ao professor afirmaram que ele foi alvo de uma campanha de perseguição pública considerada desproporcional e, em alguns casos, apontada como racista.

Em comunicado divulgado neste sábado (15) pela editora Simon & Schuster UK, a família afirmou que Arday enfrentava uma campanha de abuso havia mais de três anos, desde que assumiu o cargo em Cambridge.

“Jason foi submetido a uma campanha de abuso continuado por mais de três anos desde que aceitou o cargo de professor na Universidade de Cambridge por aqueles que não mediram esforços em sua busca para miná-lo”, afirmou a família.

Segundo os familiares, a exposição e as críticas tiveram um impacto profundo sobre o acadêmico. “A campanha de desinformação foi demais para Jason, que era um homem gentil e que sempre queria ver o melhor em todos”, acrescentaram.

A família também lamentou a perda do professor, descrito como “pai, companheiro, irmão, tio e filho incrível”, e pediu que a imprensa respeite a privacidade dos parentes e interrompa o que classificou como uma campanha de assédio contra Arday e seus familiares.

Acusações e renúncia

Arday passou a ser alvo de intenso escrutínio no mês passado, após questionamentos sobre sua produção acadêmica, suas conquistas profissionais e seu trabalho de caridade. As acusações deram origem a centenas de reportagens na imprensa britânica e internacional, que colocaram em dúvida sua credibilidade e trajetória.

A Universidade de Cambridge havia aberto uma investigação interna no início deste mês para apurar as denúncias. Na ocasião, a instituição informou que Arday permaneceria no cargo. Após a repercussão do caso, porém, o professor renunciou.

Em uma carta aberta publicada no início de agosto pelo Good Law Project, organização britânica sem fins lucrativos, Arday reconheceu a pressão que vinha enfrentando.

“Infelizmente, os anos desde a minha nomeação também foram marcados por um nível implacável de escrutínio público e ataque pessoal”, escreveu. “Embora a crítica seja uma parte inevitável da vida acadêmica, o que vivenciei foi muito além de discordâncias acadêmicas. As acusações implacáveis, especulações e comentários públicos cobraram um preço profundo de mim e daqueles que amo.”

Repercussão

O psicólogo clínico Sir Simon Baron-Cohen, diretor do Autism Research Centre, em Cambridge, afirmou que a saúde mental de Arday havia se deteriorado após o início das acusações. Em entrevista ao programa “Today”, da BBC Radio 4, neste sábado, ele disse que o professor vinha enfrentando dificuldades para lidar com a exposição.

“Ele estava sendo submetido a um escrutínio implacável, incluindo ridicularização, descredibilizando absolutamente cada detalhe de sua vida”, afirmou Baron-Cohen.

Segundo o psicólogo, Arday era uma pessoa “bondosa, gentil, atenciosa e generosa”, mas passou a ser retratado publicamente como “plagiador, mentiroso e fraude”.

Baron-Cohen afirmou ainda que manteve contato com Arday após a renúncia e recebeu uma mensagem dele na manhã de sexta-feira. “Sua última mensagem de voz foi que ele não conseguia continuar”, relatou.

O psicólogo defendeu que as circunstâncias da morte sejam investigadas e que haja responsabilização. “Precisamos deixar as investigações prosseguirem, precisamos entender como essa tragédia aconteceu, mas precisa haver responsabilidade em muitos níveis”, disse.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, também lamentou a morte do acadêmico e afirmou que Arday foi vítima de uma “humilhação pública”.

“Estou devastado pela família e amigos de Jason Arday. Ele enfrentou uma perseguição pública e uma campanha de abuso inaceitáveis. Sei que muitos londrinos estarão com raiva e chateados esta noite”, declarou.

Khan acrescentou que Arday teria sido submetido a um tratamento que, segundo ele, outras pessoas em posição semelhante não enfrentariam.

Daniel Kebede, secretário-geral do National Education Union, classificou o episódio como uma “desconstrução pública e brutal” e afirmou que o caso desencadeou manifestações racistas por parte de setores da imprensa britânica e de comentaristas de extrema-direita.

Após a morte de Arday, também cresceram as críticas à cobertura da imprensa sobre as acusações. Alguns comentaristas questionaram por que o caso recebeu atenção tão intensa em comparação com outras denúncias de plágio envolvendo acadêmicos.

“Jason Arday não foi o primeiro acadêmico a ser acusado de plágio em Cambridge. Ele não foi a primeira pessoa a fazer alegações não plausíveis sobre sua vida em uma autobiografia”, escreveu a jornalista e autora britânica Ash Sarkar no X. “Mas ele foi o primeiro em que essas coisas se tornaram matéria de primeira página, em vários jornais, por dias e dias.”

*Com CNN Brasil.

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