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França: ataque hacker estraga comida em supermercados e causa incêndios; entenda

Autoridades investigam o caso que gerou milhões em prejuízos e levantou um alerta sobre segurança cibernética

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Freezer de mercado (imagem meramente ilustrativo) • Freepik

Hackers atacaram sistemas de refrigeração em cerca de 700 estabelecimentos de venda de alimentos na França, causando a perda de grandes quantidades de produtos frescos e congelados. O ataque cibernético, que em alguns casos provocou incêndios, gerou prejuízos milionários e alertou autoridades sobre a segurança digital no país.

Os invasores acessaram remotamente os sistemas de refrigeração e ativaram ciclos de degelo, fazendo com que as temperaturas dos equipamentos subissem drasticamente. Este incidente resultou na destruição de produtos frescos e congelados, além de provocar alguns incêndios em certos locais.

De acordo com a emissora francesa BFMTV, o ataque cibernético atingiu supermercados de diversas redes por todo o país. Funcionários relataram ter encontrado poças de água sob os freezers e alimentos completamente estragados no início desta semana.

As autoridades francesas abriram uma investigação para apurar o caso. Na terça-feira (13), o ministro da economia da França, Roland Lescure, descreveu o ocorrido como um “alerta para todos” e solicitou o fortalecimento das medidas de segurança cibernética.

A autoria do ataque permanece desconhecida. Especialistas consultados pela CNN sugerem que os responsáveis poderiam ter como objetivo principal causar transtornos ou desestabilizar atividades econômicas. Até agora, nenhum grupo assumiu publicamente a autoria da ação, e não houve qualquer exigência de resgate.

Os sistemas que controlam geladeiras e freezers em supermercados são projetados para acesso via internet, o que permite que empresas de manutenção ajustem remotamente a temperatura dos equipamentos.

Conforme a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação da França (ANSSI), os hackers invadiram controladores operados por, no mínimo, três empresas: a dinamarquesa Danfoss e as americanas Copeland e Dixell.

Após o incidente, a Danfoss admitiu que grande parte dos equipamentos atingidos não recebia mais atualizações de software ou de segurança, ou operava com programas desatualizados. A companhia aconselhou seus clientes a manterem os sistemas compatíveis sempre atualizados com as versões mais recentes do firmware.

A Copeland, empresa proprietária da Dixell, identificou uma vulnerabilidade em uma geração descontinuada de seus controladores. A companhia informou à CNN que está colaborando com os clientes afetados para minimizar os riscos.

De acordo com especialistas, os equipamentos possivelmente estavam conectados à internet pública sem as devidas proteções. Antes do ataque, mais de 1.700 sistemas que utilizavam o software afetado da Danfoss estavam expostos à internet na França, segundo o pesquisador de segurança Félix Aimé.

Um relatório divulgado em agosto pela empresa de cibersegurança Claroty já havia evidenciado vulnerabilidades nos controladores Danfoss AK-SM 800A. Uma dessas falhas permitiria que invasores contornassem os mecanismos de autenticação usuais e alterassem remotamente as temperaturas das geladeiras.

Conforme a empresa britânica UK Cyber Defence, os invasores exploraram a função de degelo dos equipamentos e eliminaram os limites que, em condições normais, impediriam o aumento excessivo da temperatura. Em alguns expositores, a temperatura atingiu 50°C e permaneceu assim por aproximadamente seis horas durante a noite de segunda-feira (12). Em certos casos, equipamentos chegaram a pegar fogo.

O especialista em segurança cibernética Ken Munro declarou que assumir o controle dos equipamentos não representou uma tarefa complicada. Ele indicou que a gestão dos sistemas, provavelmente, foi terceirizada sem a devida atenção à segurança digital.

Grandes redes de supermercados francesas foram alvo do ataque. Executivos do setor alertaram que os prejuízos financeiros podem alcançar a casa dos milhões de euros.

Para Munro, o risco direto aos consumidores é limitado. Contudo, a preocupação central reside nos prejuízos resultantes da perda de alimentos e na potencial ocorrência de falhas similares em outros sistemas conectados.

O especialista defendeu que os controladores das geladeiras devem ser mantidos fora da internet pública e protegidos por mecanismos de segurança apropriados. Ele também aconselhou que as empresas solicitem de seus fornecedores esclarecimentos sobre a administração dos equipamentos e a responsabilidade pela segurança dos sistemas.

O ataque gerou críticas de autoridades europeias, ocorrendo poucas semanas após o presidente francês, Emmanuel Macron, solicitar a elaboração de um novo plano de proteção contra a crescente ameaça de ataques cibernéticos.

Em setembro, Macron havia mencionado a ameaça híbrida russa contra a França e outras nações europeias, afirmando que o risco se intensificara nas semanas anteriores, de acordo com a Reuters.

O comissário europeu para agricultura e alimentação, Christophe Hansen, também defendeu uma maior atenção à segurança alimentar. “A instrumentalização dos alimentos se tornou uma realidade”, escreveu ele na rede social X na segunda-feira.

Lescure, ministro da economia francês, tranquilizou a população quanto a uma possível escassez de alimentos no país, mas reiterou que o episódio exige medidas mais rigorosas de proteção digital.

“Quando descobrimos esse ataque cibernético, ficamos preocupados com a capacidade de nossas cadeias de distribuição de fornecer alimentos adequadamente a todos os cidadãos”, afirmou o ministro na terça-feira. “Isso é um alerta para todos.”

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