Abdul El-Sayed será o primeiro senador muçulmano dos EUA
Democrata foi eleito pelo Michigan e defende a regulamentação do capitalismo, a taxação de grandes fortunas e a oferta de saúde pública gratuita para a população

O democrata Abdul El-Sayed derrotou o republicano Mike Rogers na disputa por uma vaga no Senado dos Estados Unidos pelo estado de Michigan, segundo projeções da CNN. Com o resultado, ele será o primeiro senador muçulmano de origem árabe da história do país. A posse está prevista para janeiro.
A eleição ocorreu durante as eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3), nos Estados Unidos. Na ocasião, um avanço democrata levou o partido ao controle do Congresso.
A vitória no Michigan, considerado um estado-pêndulo, representa uma conquista para a ala progressista do Partido Democrata. Com a eleição de El-Sayed, os democratas também mantêm a cadeira do senador Gary Peters, que está se aposentando.
Aos 42 anos, El-Sayed tem um perfil diferente do de políticos tradicionais. Médico, costuma aparecer em público com camisetas justas com decote em V, relógio de mergulho com pulseira de borracha, jeans e tênis escuros.
O resultado veio após uma disputa interna acirrada no Partido Democrata. Em agosto, El-Sayed venceu as primárias contra a deputada moderada Haley Stevens por uma diferença inferior a um ponto percentual.
Nos últimos dias da campanha, Stevens surpreendeu ao anunciar apoio ao republicano Mike Rogers. No domingo, ela chegou a aparecer ao lado do adversário em uma igreja de Detroit.
A decisão provocou a reação de lideranças democratas em Michigan e em âmbito nacional, além de fortalecer a união do partido em torno de El-Sayed. Durante a campanha, o candidato também buscou conquistar eleitores negros e judeus que haviam apoiado Stevens nas primárias.
O que ele defende?
Com o slogan "Dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, Medicare para todos", El-Sayed apresentou propostas voltadas à ampliação dos serviços públicos e à redução da influência do dinheiro na política.
Entre as principais bandeiras estão o acesso gratuito à saúde pública, o fim do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira), a interrupção do apoio dos Estados Unidos a Israel e a taxação de grandes fortunas.
Apesar das propostas, o democrata se distancia da ala socialista do partido. Em entrevista à CNN, afirmou que defende o capitalismo, mas considera necessária a regulamentação do sistema econômico.
"Eu não sou socialista. Eu acredito no capitalismo, mas acredito que o capitalismo tem que ser regulado. [...] Eu acredito que os bilionários deveriam pagar sua parte para que nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é tão radical", declarou.
El-Sayed recebeu o apoio do chamado "Squad", grupo informal de congressistas progressistas da Câmara dos Representantes que inclui a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.
Em contrapartida, foi chamado de "socialista radical de esquerda" e de "ameaça direta à América" pelo presidente Donald Trump e aliados.
O democrata também ganhou visibilidade pela presença nas redes sociais e pelo discurso direto. Ele costuma publicar vídeos de treinos na academia e afirma que esse tipo de conteúdo ajuda a estabelecer uma conexão com homens jovens que não se identificam com o Partido Democrata.
"Parte do problema que enfrentamos é que as pessoas não se veem representadas na nossa política", disse à CNN. "Quero derrubar essa barreira artificial: trazer a política para dentro da academia e levar a academia para dentro da política."
Algumas declarações antigas do candidato também provocaram debates. Em entrevistas anteriores, ele defendeu, por exemplo, o redirecionamento de recursos destinados à polícia para iniciativas de saúde mental e combate à pobreza.
Uma investigação da CNN identificou mais de 100 vídeos publicados no canal de El-Sayed no YouTube que foram tornados privados antes do início da campanha.
Em uma das gravações, ele sugeriu substituir a Segunda Emenda da Constituição americana, que garante o direito de portar armas, por um direito constitucional ao sistema de saúde pública. Em outro vídeo, criticou os fogos de artifício utilizados nas comemorações de 4 de Julho.
A campanha do democrata respondeu que as gravações antigas "não refletem seus valores de hoje".
Posição sobre Israel
A posição de Abdul El-Sayed sobre Israel foi um dos principais pontos de divergência entre os democratas durante as primárias.
O candidato afirma que Israel cometeu genocídio durante a guerra na Faixa de Gaza e se posiciona contra o envio de ajuda militar dos Estados Unidos ao país.
Em entrevista à CNN na semana passada, ele defendeu que os recursos dos impostos arrecadados no Michigan sejam destinados a serviços públicos, em vez de enviados ao exterior.
"Eu acredito em direitos iguais à paz, dignidade e autodeterminação tanto para judeus israelenses quanto para palestinos. Mas acho que a nossa responsabilidade, acima de tudo, é de usar o dinheiro dos nossos impostos aqui no Michigan, para proporcionar saúde, escolas e estradas, ao invés de enviá-lo a um governo estrangeiro que pode usá-lo em forma de bombas e tanques para destruir infraestrutura, escolas e hospitais lá", afirmou.
Em outra entrevista à apresentadora da CNN Kasie Hunt, El-Sayed declarou que considera incompatível a existência de um Estado judeu com determinados valores liberais.
"Toda definição de um Estado judaico acaba resultando em alguma articulação de valores antiliberais, absolutamente todas", disse.
Questionado se acredita que Israel tem o direito de existir, respondeu que não entraria no que classificou como uma armadilha sobre a existência do país. Segundo ele, a discussão deveria estar concentrada na igualdade de direitos.
O democrata também criticou a adversária Haley Stevens, cuja campanha recebeu forte apoio do AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense), grupo de lobby pró-Israel. A organização gastou mais de US$ 30 milhões na campanha contra El-Sayed.
Outro episódio que gerou críticas foi a participação do candidato em eventos ao lado do streamer Hasan Piker. Em 2019, Piker provocou repercussão negativa ao afirmar que a "América mereceu o 11 de setembro".
Ao responder às críticas, El-Sayed classificou a declaração como "idiota", mas argumentou que o comentário foi feito anos atrás e retirado de contexto pela chamada "cultura do cancelamento".
Quem é Abdul El-Sayed?
Filho de um imigrante egípcio, Abdulrahman Mohamed El-Sayed nasceu em 1984, em Rochester Hills, no Michigan. Ele se define como um "legítimo cidadão nascido e criado no Michigan".
Alfabetizado em árabe e inglês, formou-se em medicina pela Universidade Columbia e passou a atuar em políticas públicas voltadas à saúde. Ele também ocupou o cargo de diretor executivo do Departamento de Saúde de Detroit.
Em 2018, tentou disputar o governo do Michigan, mas foi derrotado nas primárias democratas por Gretchen Whitmer. Ela venceu a eleição geral e atualmente cumpre seu segundo mandato à frente do estado.
Com informações de Eric Bradner, da CNN, e Mariana Catacci, da CNN Brasil.
Acompanhe as últimas notícias produzidas pela CNN Brasil, publicadas na Itatiaia.



