Ondas 'Kelvin' no Pacífico acendem alerta para possível El Niño neste ano; entenda
Movimento de águas quentes abaixo da superfície já é visto como um dos primeiros sinais do fenômeno climático, mas especialistas dizem que ainda é cedo para confirmação

Uma movimentação silenciosa nas águas do Oceano Pacífico tem chamado a atenção de cientistas e pode indicar a aproximação de um novo episódio de El Niño. Trata-se de uma grande faixa de água mais quente que o normal avançando ao longo da região equatorial em direção à América do Sul.
Esse tipo de deslocamento é conhecido como ondas Kelvin, um fenômeno oceânico de grande escala que atua como um dos primeiros sinais do possível desenvolvimento do El Niño. Embora invisíveis a olho nu, essas estruturas transportam calor de oeste para leste ao longo do Pacífico, alterando gradualmente a dinâmica do oceano.
Diferente das ondas comuns do mar, as ondas Kelvin não quebram na praia. Elas se movem abaixo da superfície e podem se estender por centenas de quilômetros. Na superfície, causam apenas pequenas variações no nível do mar, geralmente entre 5 e 10 centímetros, sendo detectadas principalmente por satélites.
O nome vem do físico britânico Lord Kelvin, que descreveu esse comportamento no século 19 ao estudar como a rotação da Terra influencia o movimento das águas.
O que está acontecendo?
Dados recentes de monitoramento indicam a presença de uma onda Kelvin significativa no Pacífico equatorial. Esse padrão, segundo especialistas, lembra eventos de El Niño de intensidade moderada registrados nas últimas décadas.
O oceanógrafo Josh Willis, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, afirma, ao site de notícias g1, que o cenário atual sugere um possível evento de porte médio. Episódios mais intensos, como os de 1997 e 2015, apresentavam ondas Kelvin mais fortes já neste período do ano.
Apesar disso, a comunidade científica mantém cautela. A presença dessas ondas é um indicativo importante, mas não garante, por si só, que o El Niño irá se consolidar.
Como as ondas influenciam o clima
À medida que avançam pelo Pacífico, as ondas Kelvin empurram águas quentes para mais perto da superfície, dificultando a subida de águas frias vindas das profundezas, especialmente na costa da América do Sul.
Esse aquecimento é chamado de El Niño e altera o equilíbrio do oceano e impacta diretamente a circulação atmosférica. Como consequência, o padrão de chuvas tropicais tende a se deslocar, provocando mudanças climáticas em diversas regiões do planeta.
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais. Historicamente, o Sul registra aumento de chuvas, enquanto áreas do Norte e do Nordeste enfrentam maior risco de períodos secos. Já o Sudeste e o Centro-Oeste podem ter chuvas mais irregulares e ondas de calor mais frequentes.
Expectativa para os próximos meses
A Organização Meteorológica Mundial já indicou que há alta probabilidade de o El Niño se formar ainda em 2026. A avaliação leva em conta o aquecimento das águas superficiais, o acúmulo de calor no oceano e a convergência dos modelos climáticos globais.
Mesmo assim, os especialistas destacam que este é um período de transição, em que as previsões ainda carregam incertezas. A tendência é que o cenário fique mais claro entre maio e junho, quando os dados se tornam mais consistentes.
Por que ainda não há confirmação do El Niño
Para que o El Niño se estabeleça de fato, é necessário que oceano e atmosfera entrem em um ciclo de reforço mútuo. O aquecimento das águas precisa enfraquecer os ventos alísios, que normalmente sopram de leste para oeste no Pacífico.
Quando esses ventos perdem força, a água quente retorna para a região leste do oceano, intensificando ainda mais o aquecimento. Esse processo contínuo é o que caracteriza o fenômeno. Se esse ciclo não se firmar, o calor pode se dissipar antes de evoluir para um evento completo.
Impactos
O El Niño faz parte de um ciclo natural do clima, alternando com fases frias e neutras. No entanto, seu impacto pode ser significativo, especialmente em um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas.
Mesmo eventos considerados moderados hoje podem gerar efeitos mais intensos do que no passado, incluindo temperaturas globais mais elevadas e eventos extremos.
A expectativa, segundo cientistas, é de que os próximos meses continuem registrando calor acima da média em várias regiões do mundo, independentemente da confirmação oficial do fenômeno.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



