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Emissões de combustíveis fósseis podem influenciar desastres climáticos por décadas, diz estudo

Estudo da Universidade de Washington simulou o clima até 2500 e avaliou o impacto das emissões das 178 maiores empresas de petróleo, gás, carvão e cimento

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Pedestre usa máscara em meio a poluição em Nova York; qualidade do ar está baixa na cidade devido à fumaça de incêndios florestais no Canadá
Pedestre usa máscara em meio a poluição em Nova York • Angela Weiss/AFP

As emissões de gases de efeito estufa produzidas pelas maiores empresas de combustíveis fósseis do mundo continuarão afetando o clima por décadas, mesmo diante de uma redução significativa das emissões no futuro. A conclusão é de um estudo da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, publicado nesta quarta-feira (23) na revista científica PLOS Climate.

A pesquisa analisou as emissões das chamadas “carbon majors”, grupo formado pelas 178 maiores produtoras de petróleo, gás, carvão e cimento. Os pesquisadores avaliaram como o dióxido de carbono liberado por essas empresas continuará contribuindo para o aquecimento global ao longo dos próximos séculos.

Segundo o estudo, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa caíssem drasticamente de um momento para outro, o planeta não retornaria imediatamente às condições climáticas anteriores. Uma parcela significativa do dióxido de carbono já liberado permanecerá na atmosfera por muito tempo, mantendo o calor retido.

Os pesquisadores estimam que, mesmo com a interrupção das emissões, a temperatura média global permaneceria aproximadamente 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Emissões do passado continuarão afetando o clima

O estudo parte de um avanço observado nos últimos anos na chamada ciência da atribuição climática. Essa área busca determinar em que medida as mudanças provocadas pela atividade humana aumentam a probabilidade ou a intensidade de determinados eventos meteorológicos extremos.

Com métodos mais precisos, cientistas passaram a conseguir relacionar o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis a eventos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e outros fenômenos associados às mudanças climáticas.

Essa evolução também passou a ser utilizada em processos judiciais que tentam responsabilizar empresas emissoras pelos danos provocados por eventos climáticos.

“Sabemos que as emissões de combustíveis fósseis provocaram um grande aquecimento, e estamos vendo suas consequências, mas a questão é por quanto tempo esse aquecimento vai durar no futuro”, afirmou Dargan Frierson, professor associado de ciências atmosféricas e climáticas da Universidade de Washington.

O que aconteceria se as emissões parassem?

Para responder à questão, os pesquisadores fizeram projeções do clima global até o ano 2500.

O estudo utilizou o modelo FaIR, sigla em inglês para Finite Amplitude Impulse Response. Foram considerados cenários de emissões baixas e elevadas, além de simulações com e sem as emissões das principais empresas produtoras de combustíveis fósseis até 2024.

A comparação permitiu aos cientistas estimar quanto do aquecimento futuro pode ser associado às emissões acumuladas pelas principais empresas do setor.

Em um cenário no qual as emissões globais de gases de efeito estufa são limitadas, a participação das chamadas “carbon majors” no aquecimento acima dos níveis pré-industriais se torna proporcionalmente maior.

Já nos cenários de emissões mais elevadas, nos quais a utilização de combustíveis fósseis continua aumentando, a temperatura global sobe de forma mais acentuada.

Mesmo assim, os pesquisadores observaram que a quantidade total de aquecimento atribuída às emissões das grandes empresas analisadas permanece relativamente semelhante entre os diferentes cenários.

Mais de 1 trilhão de toneladas de CO₂

As empresas analisadas já foram responsáveis pela emissão de mais de 1 trilhão de toneladas de dióxido de carbono, de acordo com o estudo.

Uma parte desse carbono permanece na atmosfera e contribui para a retenção de calor. Por isso, os efeitos climáticos das emissões não desaparecem imediatamente quando a quantidade de novos gases liberados diminui.

“Nós prevemos que o aquecimento global continuará até que paremos as emissões de combustíveis fósseis”, disse Frierson. Segundo o pesquisador, um futuro climático estável dependeria da interrupção da queima desses combustíveis.

Estudo pode ter impacto em disputas judiciais

A pesquisa também aborda uma questão que vem ganhando espaço em ações judiciais relacionadas às mudanças climáticas: a possibilidade de atribuir a empresas uma parcela dos impactos provocados pelo aquecimento global.

A discussão não é nova. Cientistas já demonstram há décadas a relação entre a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e o aumento da temperatura média do planeta.

O que o novo estudo acrescenta é uma estimativa sobre a persistência dos efeitos das emissões das principais empresas do setor.

De acordo com os pesquisadores, emissões que já ocorreram podem continuar aumentando a probabilidade de determinados eventos climáticos no futuro, justamente porque o aquecimento provocado por esses gases não desaparece imediatamente.

“Se forem tomadas decisões legais sobre responsabilidade, ela não se limita ao presente, mas continuará por muitos anos no futuro”, afirmou Frierson.

O que o estudo diz sobre novas emissões?

Os pesquisadores também avaliaram o impacto de uma continuidade da produção e do consumo de combustíveis fósseis.

A conclusão apresentada é que novas emissões agravariam o aquecimento e, consequentemente, os riscos associados às mudanças climáticas nas próximas décadas.

Isso significa que, para os autores, a discussão sobre os efeitos das emissões não está restrita ao que já aconteceu. A quantidade de combustíveis fósseis utilizada no futuro também terá influência sobre a trajetória do aquecimento global.

“O futuro da produção de combustíveis fósseis agravará os desastres climáticos por muitas décadas”, afirmou Frierson.

O estudo, portanto, reforça a diferença entre reduzir as emissões e eliminar os efeitos das emissões que já ocorreram. Mesmo uma queda significativa na liberação de gases de efeito estufa não faria com que o sistema climático retornasse imediatamente às condições anteriores ao aquecimento global provocado pela atividade humana.

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