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Luto, trauma e memória: a vida após chuvas de fevereiro na Zona da Mata

Itatiaia conversa com sobreviventes e parentes de vítimas da tragédia climática que causou mais de 70 mortes e danos generalizados em Juiz de Fora e Ubá.

Por e , Juiz de Fora
Vitor Montinotti

Algumas horas mudaram para sempre a história da Zona da Mata. Entre a noite de 23 e a madrugada de 24 de fevereiro, choveu como nunca antes. A destruição não escolheu local: da periferia, aos bairros centrais, mansões, barracos, cartões-postais. No total, 72 mortes em Juiz de Fora e em Ubá.

Um mês depois do desastre que deixou 65 mortes em Juiz de Fora. Mais de 8.500 desabrigados, vias importantes e vitais para a cidade continuam fechadas. A região do Morro do Cristo está evacuada e a população busca por respostas, definições. Parque Burnier, Três Moinhos, Linhares, Jardim Natal e outros bairros afetados pelas chuvas também seguem interditados. Mil e oito moradias foram completamente destruídas, 456 famílias foram realocadas para hotéis e até o final da última semana,cerca de 140 ainda permaneciam nos hotéis.

Em Ubá, a destruição ainda é visível com muita lama, muitas lojas fechadas e ainda tomadas pelo barro. Uma agência bancária funciona em um conteiner. Segundo a Defesa Civil, a última marcação do fluviômetro, na madrugada do dia 24 de fevereiro, marcou que o nível do Rio Ubá chegou a 7,82 metros de altura. O equipamento foi levado pelas águas, assim como todos os sinais de trânsito.

Parece que foi ontem, parece que foi há muito mais tempo. Uma espécie de limbo onde não há certezas, mas uma caminhada ainda a ser feita e uma dor que ainda não chegou totalmente.

A Itatiaia reencontrou algumas pessoas que tiveram a vida drasticamente afetada nesta tragédia, em Juiz de Fora e em Ubá.

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Aprendendo a sobreviver

Eu sou uma sobrevivente que eu falo que eu não queria nem sobreviver, por tudo que eu enterrei, por todos que perdi

Renata Garcia Silva conseguiu ser salva junto com seus três filhos, mas ainda busca entender como vai viver sem a mãe, a irmã, primos, sobrinhos e amigos de uma vida. Ela enterrou 17 pessoas da mesma família e 22 que viviam em comunidade em um conglomerado de casas no Parque Burnier. A situação ainda é de anestesia. O sentimento de luto dá lugar à incredulidade.

A família de Ricardo e o local onde moravam no Parque Burnier em Juiz de Fora • Arquivo Pessoal e Désia Souza Itatiaia
A família de Ricardo e o local onde moravam no Parque Burnier em Juiz de Fora • Arquivo Pessoal e Désia Souza Itatiaia

O irmão de Renata, Ricardo Ricardo Dutra de Moraes Filho estava desempregado para acompanhar o filho Bernardo, uma promessa no futebol profissional. A chuva impediu que o garoto de 11 anos tivesse treino na noite de segunda, mas Ricardo foi atrás de uma oportunidade de emprego. Quando ele chegou, a lama já havia tomado conta de tudo: casa, bens e da família dele.

“Cheguei, já tinha uns 7 minutos do acontecimento. Minha esposa já tinha sido socorrida e minha filha também, mas eu fiquei preocupado que eu não vi o Bernardo com eles. Então, eu fui buscar, subi nos escombros para poder procurar ele e fiquei soterrado também. Aí o Bombeiros e os amigos que estavam aqui conseguiram me tirar. Aí eu não lembro mais nada”.

A morte de Bernardo foi lamentada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), porque o garoto era estudante do 7º ano do Colégio de Aplicação João XXIII. Ele foi sepultado no dia 25 de fevereiro.

“Não tem como falar dele com tristeza. Onde ele chegava, ele arrancava um sorriso fácil e era feliz com o simples. Então assim, para mim, eu também vou me conter de ser feliz no simples”.

Rogério e o irmão Cristiano, vítima da tragédia • Arquivo Pessoal
Rogério e o irmão Cristiano, vítima da tragédia • Arquivo Pessoal

Desespero e promessa

Rogério José da Costa estava no bairro Amazônia, na Zona Norte, quando foi avisado de que a lama soterrou a casa do irmão, Cristiano José da Costa, de 48 anos, no Linhares, na Zona Leste.

Sem medo de enfrentar a força da água, que impedia a mobilidade no município, atravessou 10 quilômetros de carro, para procurar o irmão.

“Eu não sabia aonde que eu tava indo, eu sei que eu queria chegar aonde estava o meu irmão, minha sobrinha e minha cunhada. O Bombeiro tentando me segurar na Avenida Brasil não conseguiu, me jogaram no chão tentando me segurar pra mim não continuar. Segui em frente, não sei como cheguei lá. No desespero, eu caçando meu irmão lá a noite inteira, lá com os moradores. Ficamos lá seis dias procurando ele e eu fui e falei assim, eu só saio daqui, eu só como quando eu achar meu irmão”.

O corpo de Cristiano foi encontrado no dia 28 de fevereiro. Horas depois, foi encontrado o corpo de Pietro, de 9 anos, no Paineiras, encerrando as buscas em Juiz de Fora.

Cristiano e a filha Tayane (à esq) - local da tragédia e Rogério com a sobrinha, que morreu na tragédia - • Arquivo Pessoal e Ruyara Pianta/Itatiaia

“Eu não aguento mais meia hora aqui não.”

Quando a chuva começou, o empresário Wellington Silva, conhecido como Biscoito, foi tentar salvar mercadorias na loja de artigos para festas no calçadão de Ubá. Mas todo o primeiro andar da loja e a sobreloja foram tomados pela água.

“Quando a água já estava ao meu joelho, eu e meu colaborador Alex Petuchinha lembrou que havia um vasculhante atrás de uma madeira. Deus estava ali comigo e me ajudou a sair daquele momento. Eu ranquei uma madeira com a mão, veio dois anjos na sobreloja, ao lado do prédio. Aquilo que eu vivi ali realmente foi um filme, aqueles que você vê que a pessoa vai morrer e sobrevive ali nos minutos finais.”

Wellington retornou a loja em uma outra rua, interrompida por uma das pontes destruídas em Ubá.

Sete pessoas morreram na enchente. As buscas terminaram 22 dias após a chuva, com a localização do corpo de Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, pelas equipes dos Bombeiros.

• Arquivo Pessoal
• Arquivo Pessoal

 

Por

Désia Souza é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também cursou pós graduação em “Mídia e Cidadania” e mestrado em “Comunicação e Poder”. É coordenadora de jornalismo na Itatiaia Juiz de fora, onde também atua como âncora e repórter.

Por

Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.