Dor e solidariedade: os relatos dos servidores do Demlurb sobre a tragédia das chuvas
No aniversário de 176 anos de Juiz de Fora, a Itatiaia homenageia as pessoas que estiveram na linha de frente no desastre climático de fevereiro.

Neilaine chegou à sede de pijamas e pediu um uniforme novo. Brenda precisou encontrar um caminho alternativo para sair da enchente. Nelson nem sabia por onde começar quando se deparou com a precariedade dos locais após o caos.
Os três servidores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb) contaram à Itatiaia o que eles viram, viveram e como enfrentaram o período de linha de frente na recuperação de Juiz de Fora após a trágica semana de 23 de fevereiro.
E nem eles estavam imunes ao sofrimento: além das perdas materiais, eles perderam uma colega de trabalho: Deogracia, de 57 anos, foi uma das 66 mortes em Juiz de Fora.
Ouça a íntegra da matéria.
‘Eu sou uma das vítimas dessa catástrofe’
Neilaine Diógenes, do setor de varrição, deixou os dois filhos com a mãe e o padrasto, e foi para a sede administrativa do Demlurb, de pijama e aos prantos. Assim como várias outras pessoas, não tinha mais casa: o imóvel do vizinho atingiu o lar dela, na Vila Ideal. Desorientada, apenas com a roupa do corpo, teve uma reação: ajudar outros como ela.
“Eu sou uma das vítimas dessa catástrofe. Fui para a casa da minha mãe, mas no dia seguinte eu estava aqui na garagem chorando, só de pijama. Mas eu vim me apresentar porque eu queria um uniforme novo, porque eu precisava ajudar quem precisava. No meu primeiro momento, eu vim, fui sem condições emocionais, mas com a minha força de dar força para quem precisava muito mais que eu. Eu fiquei umas duas semanas trabalhando desorientada. Eu chegava chorando e saía chorando. Depois, eu agradeci a Deus, porque eu estou com vida, meus filhos estão com vida, bens materiais a gente conquista novamente”.

“Dessa vez foi bem pior”
Brenda Couto, do setor de Capina, e o marido, não conseguiram sair de casa por causa da enchente que, em Matias Barbosa, município vizinho à Juiz de Fora.
Para chegar ao trabalho, saíram de casa de madrugada, percorreram um caminho no meio das montanhas que levou para um condomínio, que saiu na BR e só assim conseguiram chegar à sede do Demlurb. O serviço a levou novamente à região Leste onde se deparou com o tamanho da tragédia
“Eu atuei no bairro Vitorino Braga. Quando a gente chegou, eu fiquei um pouco assustada porque em dezembro aconteceu uma enchente lá. Para mim, marcou muito, porque era a segunda vez que eu estava indo lá, pelo mesmo motivo. Dessa vez foi bem pior”.

“Ele não queria sair de dentro da casa”
Nelson Otta atuou no caminhão pipa para a lavagem dos locais. No Bairro Linhares, encontrou tamanho caos que confessa, nem sabia por onde começar. E testemunhou algo que não esqueceria.
“O que marcou muito mesmo foi um senhorzinho dentro da casa, que a casa estava cheia e a água já estava para cima do peito, e ele não queria sair dentro de casa. Situação muito triste, muito triste. Era muito barro, a gente via a situação das casas. Nossa, só Jesus na causa. Fomos à luta para poder manter a cidade do jeito que ela está hoje”.

Deogracia: a perda da alegria em pessoa
Além do cotidiano de dor nos locais onde trabalhavam, das próprias dificuldades e angústia, os servidores enfrentaram uma perda: Deográcia Aurélia Fernandes, de 57 anos, foi uma das vítimas da tragédia.
Um cenário impensável uma semana antes.
Ela e as amigas - entre eles Neilaine - estavam na Avenida Francisco Bernardino prontas para desfilar em uma das alas da Rivais da Primavera, onde ela falou à Itatiaia sobre o amor pelo Demlurb e pelo carnaval.
“A Deográcia era alegria em pessoa. Por onde ela estava, ela levava alegria, deixava as pessoas contagiantes. Quando entrei, ela estava no final do contrato. Eu tive o prazer de conhecê-la, a alegria dela, o viver dela. E ainda ter mais contato no nosso bloco, foi um dos projetos dela. Quem diria bloco de garis? Nossa profissão, que é tão julgada, tão menosprezada, saiu enfeitando o Parque Halfeld”
Ainda em depoimento à Itatiaia, Neilaine destacou que Deogracia estava feliz porque foi chamada para assinar um novo contrato. E agora, os amigos seguem pelas ruas de Juiz de Fora fazendo o que ela tanto amava.
“Hoje, em muitos momentos, falta a alegria dela, falta a brincadeira dela, falta o sorriso dela, falta o toque dela, que era aquele toque de sempre carnaval, natal, tudo enfeitava o carrinho. Ela amava esse departamento”.
Joubertt Telles é graduado em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, em 2010, e possui curso de Processo de Comunicação e Comunicação Institucional pela Fundação Getúlio Vargas. Trabalha na Itatiaia Juiz de Fora desde 2016, como repórter e apresentação. Prêmio Sindicomércio de Jornalismo 2017, na categoria rádio. Prêmios do Instituto Cultura do Samba como destaque do jornalismo local, em 2016 e 2017. Já atuou na Rádio Globo Juiz de Fora, TVE e Diário Regional, além de ter desempenhado função de assessor parlamentar na Câmara Municipal de Juiz de Fora.
Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.
Graduando em jornalismo pela UFJF, Michel Santos é estagiário da Itatiaia em Juiz de Fora. Apaixonado por esportes, videogames e fã aficcionado de automobilismo.





