Comerciantes de Ubá relatam perdas e processo de reconstrução após tragédia
A reportagem da Itatiaia esteve na cidade e conversou com comerciantes que atuavam no Calçadão de uma das cidades mais afetadas nas chuvas de fevereiro

Pouco mais de um mês após as chuvas que afetaram a Zona da Mata, a situação em Ubá ainda é de reconstrução. Com uma chuva que elevou o Rio Ubá em cerca de oito metros, as enchentes chegaram ao segundo andar das edificações, deixando rastros de destruição por toda a cidade.
Uma das poucas lojas abertas, a Paraibana Calçados ainda tinha rastros de lama por toda a extensão da loja. Nas prateleiras, sapatos lavados pelas funcionárias, no segundo andar da loja, eram vendidos a preços promocionais, a fim de tentar recuperar parte do prejuízo, que chegou a R$ 1,5 milhão.
“Ninguém estava esperando essa enchente. Subiu cinco metros de água dentro da loja. Chegamos e vimos uma cena de terror. Só quem viveu, sabe”, afirma Silvana Nogueira Sales, gerente da loja.
Enquanto as vendedoras da Paraibana atuavam na loja, seja na lavagem dos sapatos, no segundo andar, ou na tentativa de venda, na loja ao lado, o empresário Cleverson Almeida contabilizava os prejuízos do negócio que comercializa materiais eletrônicos. Ao relembrar da tragédia, ele relembra a sorte de estar vivo.
“Peguei o carro e vim pra cá, quando cheguei aqui já não tinha como entrar”, relembra ele, que perdeu o carro e a casa na enchente. Só na loja, o prejuízo foi de R$ 250 mil. Ao falar da reconstrução, ele lamenta “hoje a gente vive de doação, estou nesse negócio há 10 anos e essa era minha única fonte de renda. Por sorte, não morri”.
“Eu vi a morte de perto”
Quando a chuva começou, o empresário Wellington Silva, conhecido como Biscoito, correu até à loja Mundo Festas, no Calçadão de Ubá, para tentar salvar parte das mercadorias. O que ele não esperava é que a água superasse o até então recorde de um metro.
Com quase oito metros de altitude, a água já chegava ao segundo andar da loja, onde o empresário estava com um dos colaboradores. De frente para a morte, ele encaminhou áudios para a família, informando que estava em risco. Foram momentos de desespero, que ele e familiares nos relataram com emoção.
“Deus estava ali comigo. Eu arranquei uma madeira com a mão, quebrei um basculhante. Duas pessoas, em outra sobreloja, tentaram nos ajudar, mas estavam sem ferramentas. Um botijão, que veio na enchente, foi o que possibilitou que eles pudessem quebrassem o vidro. Foi como um filme, aqueles que você vê que a pessoa vai morrer e sobrevive nos momentos finais”, relata.
Após ter uma segunda chance, ele mudou para uma loja em outra rua para recomeçar o negócio. Nesse momento, ele conta a ajuda como doações e melhores prazos de fornecedores.
Rio elevou cerca de oito metros do nível normal
O coordenador de Defesa Civil de Ubá, Anderson Almeida, explica que o volume de chuvas recebido por Ubá foi atípico na madrugada do dia 24 de fevereiro. Segundo ele, foram cerca de 173 milímetros de chuva em um período de três horas.
A água se concentrou nas cabeceiras dos afluentes que abastecem o ribeirão Ubá. A força da água desceu para a área urbana e causou o cenário de destruição. Segundo ele, o fluviômetro chegou a marcar 7,89 metros de elevação acima do nível normal do Rio Ubá. Essa foi a última marcação, depois disso, o equipamento foi levado pelas águas.
Segundo ele, o grande desafio no momento é a reconstrução das pontes. “Nosso desafio é tirar a estrutura das pontes de dentro do leito do Ribeirão Ubá. Temos equipamento cedido para fazer o trabalho, mas precisamos ter cuidado para que edificações próximas não entrem em colapso”, explica.
Prefeitura anuncia auxílios
Na última semana, a Prefeitura de Ubá sancionou a Lei nº 5.365/2026 e publicou o Decreto nº 7.701/2026, que regulamenta o Fundo de Amparo aos Empresários, Comerciantes e Profissionais Liberais (FAECLU). A medida cria um mecanismo emergencial de apoio financeiro para empreendedores que sofreram prejuízos durante as fortes chuvas de fevereiro deste ano.
De acordo com a legislação, o benefício será concedido em parcela única no valor de R$ 10 mil por estabelecimento atingido. O recurso é não reembolsável e deve ser utilizado exclusivamente para a recuperação da atividade econômica, incluindo reforma do espaço físico, reposição de equipamentos, recomposição de estoque e capital de giro.
Também foi sancionada a Lei nº 5.373, de 19 de março de 2026, que autoriza a concessão de isenção ou remissão do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e da Taxa de Manejo de Lixo ou Resíduo para imóveis atingidos por enchentes e alagamentos no município.
Désia Souza é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também cursou pós graduação em “Mídia e Cidadania” e mestrado em “Comunicação e Poder”. É coordenadora de jornalismo na Itatiaia Juiz de fora, onde também atua como âncora e repórter.
Graduando em jornalismo pela UFJF, Michel Santos é estagiário da Itatiaia em Juiz de Fora. Apaixonado por esportes, videogames e fã aficcionado de automobilismo.




