Força e impotência: os relatos dos integrantes do Samu que atuaram na tragédia das chuvas
Integrantes de uma equipe que atuou pela primeira vez junta na resposta imediata contam à Itatiaia como foi trabalhar neste momento tão caótico.
O plantão de Ana Luisa não terminou. Adilson conseguiu chegar à sede. Eles buscaram Fábio e partiram para atender a uma emergência de proporções jamais vistas na história de Juiz de Fora.
O dia 23 de fevereiro uniu estes três profissionais pela primeira vez: uma equipe montada às pressas diante da necessidade: ocorrências e mais ocorrências que entravam no sistema do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Três meses depois, eles se reencontraram especialmente para contar à Itatiaia sobre a noite que exigiu uma força sem precedentes de todos que estavam na linha de frente na tragédia das chuvas, na segunda matéria da série Relatos.
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“Doutora, a minha filha ficou para trás”
A médica intervencionista e reguladora do Samu, Ana Luísa Fonseca, teve uma segunda-feira difícil, uma ocorrência pesada quase ao fim do plantão. Cansada, esperou por uma pausa na chuva para ir embora.
A pausa não veio. Surgiu a necessidade de permanecer, diante da gravidade dos chamados. Uma ambulância montada, uma equipe improvisada, partiu para atendimento sem o tablet – a comunicação com a base era por whatsapp.
A ambulância cortou a rua, em meio aos transtornos da chuva, entre a Zona Norte até a Zona Sudeste para o Parque Burnier, que se tornaria um dos locais mais afetados na tragédia no município. Ela contou que a equipe foi a primeira a chegar no local, os moradores tentavam ajudar os vizinhos. Em condições completamente adversas, o trio entrou em ação.
“A gente estava num lugar que não tinha total segurança, não sabia sobre o risco ainda de desmoronamento e a gente estava sem luz. Mas quando a gente vê que outras pessoas populares estão ajudando, não tem a mínima condição de você ficar parado, inerte, frente a isso. Então, acho que foi garra, foi a gente ter subido aquela ladeira cheia de barro, sem luz, no escuro, e ter feito por eles o que populares já estavam fazendo. Não tem como ficar de braço cruzado”.
Os envolvidos conseguiram resgatar pai, mãe e um garotinho, que foram encaminhados para atendimento hospitalar.
“E aí eu fui dar uma palavra de consolo, eu falei ‘fiquem calmos, porque a casa de vocês a gente perdeu, mas a gente corre atrás, dinheiro a gente consegue’. E o pai olhou bem para mim e falou ‘doutora, a minha filha ficou para trás’. E eu não sabia, eu achei que era só um menininho. Então, assim, foi um momento que mexeu muito comigo, porque eu achei que eu estava fazendo um grande serviço. E, na verdade, uma criança de 5 anos não pôde ser salva, ficou para trás. E no dia seguinte veio a notícia que realmente a criança havia falecido”, disse Ana Luisa.

O caminho alternativo, o socorro improvisado, o risco constante
Não houve pausa para descanso. A equipe foi encaminhada para atender no Bairro Três Moinhos, na Zona Leste. E o primeiro desafio era conseguir chegar ao local, como explicou o supervisor de enfermagem, Fábio Rabelo.
“A gente conseguiu um motoboy que mostrou um caminho alternativo, que nem é um caminho de ambulância. A gente conseguiu acessar e tinha barro. Aí conseguimos passar pelo barro, mas onde estavam as vítimas, a gente não conseguia. Então a gente teve que acessar uma casa, passar para outra, para acessar a rua de cima, para conseguir onde as vítimas estavam”.
Adilson do Santos Cruz, coordenador do Núcleo de Atenção Permanente. Destacou a solidariedade dos moradores para viabilizar o atendimento em um cenário instável, como eles descobriram horas depois
“A família cedeu a residência para que a gente pudesse passar pelo quintal deles, porque não tínhamos acesso à rua de cima, lá Três Moinhos. Foram vários socorros que nós fizemos, inclusive de um bebezinho, de uma criança. No dia seguinte, o Fábio me mandou um vídeo. A casa, que nós estávamos utilizando para poder fazer a passagem, desabou”.
“As ocorrências, elas foram se multiplicando, e quando nós chegamos em casa, a sensação era que a gente tinha que tomar banho e voltar. Mas o corpo já estava cansado e a família perguntando. Então, por mais que você deitasse e dormisse, você não queria, porque você achava que estava sempre podendo fazer algo a mais”, resumiu Adilson do Santos Cruz.
Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.
Joubertt Telles é graduado em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, em 2010, e possui curso de Processo de Comunicação e Comunicação Institucional pela Fundação Getúlio Vargas. Trabalha na Itatiaia Juiz de Fora desde 2016, como repórter e apresentação. Prêmio Sindicomércio de Jornalismo 2017, na categoria rádio. Prêmios do Instituto Cultura do Samba como destaque do jornalismo local, em 2016 e 2017. Já atuou na Rádio Globo Juiz de Fora, TVE e Diário Regional, além de ter desempenhado função de assessor parlamentar na Câmara Municipal de Juiz de Fora.
Graduando em jornalismo pela UFJF, Michel Santos é estagiário da Itatiaia em Juiz de Fora. Apaixonado por esportes, videogames e fã aficcionado de automobilismo.




