Review - Aviãozinho do Tráfico Pré 4 'abraça' caos brasileiro, mas não é para todo mundo
Novo jogo do YouTuber e desenvolvedor Joeveno amplia a fórmula do antecessor com mais armas, movimentação aérea e referências nacionais; o excesso de informações na tela, contudo, pode atrapalhar os combates

Existem jogos que tentam impressionar pela qualidade gráfica, outros apostam em histórias elaboradas e alguns preferem aperfeiçoar fórmulas consagradas. Aviãozinho do Tráfico Pré 4: Sobraram Demônios do Portal pro Inferno na Favela que Abri e Agora Tenho que Salvar os Mamadas do Ronaldo escolhe um caminho próprio: transformar o absurdo brasileiro em combustível para um jogo de tiro em primeira pessoa que não parece interessado em estabelecer limites para as próprias ideias.
Desenvolvido por Joeveno, o game retoma a mistura de humor escrachado, referências à internet brasileira e ação inspirada nos shooters clássicos. A sequência amplia o arsenal, introduz novas possibilidades de movimentação e leva a aventura por diferentes cenários. Ao mesmo tempo, preserva características que podem afastar parte do público, como a apresentação visual propositalmente rudimentar e uma quantidade de estímulos que nem sempre facilita a leitura dos confrontos.
A Itatiaia recebeu uma versão de Aviãozinho do Tráfico Pré 4 para PC, via Steam, para esta análise. O resultado é um jogo independente com personalidade própria, que encontra seus melhores momentos quando combina a velocidade dos combates à criatividade de suas referências, mas nem sempre consegue controlar o próprio caos.
Uma história absurda que não precisa fazer sentido
A trama continua os acontecimentos de Aviãozinho do Tráfico 3: Abri um Portal pro Inferno na Favela Tentando Ressuscitar Mit Aia e Preciso Fechar. Mesmo depois dos eventos anteriores, ainda restam demônios espalhados pelo mundo após a abertura do portal para o inferno.
Dessa vez, Da Silva precisa enfrentar as consequências do desastre e resgatar os Mamadas, sequestrados por Ronaldo McDaleste, empresário que comanda uma gigantesca rede de fast-food e pretende aproveitar a invasão demoníaca para ampliar seu domínio. A aventura envolve ainda o carro abridor de portais Globeceta e ameaças a cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, além de passagens pelo inferno e pelo paraíso.
A narrativa funciona menos como uma história convencional e mais como uma sucessão de situações absurdas. Personagens, marcas, personalidades e referências brasileiras aparecem sem a preocupação de construir um universo coerente nos moldes de uma produção tradicional.
Não é para todo mundo
Essa escolha pode ser um problema para quem não se identifica com o humor de internet ou com a sátira brasileira. Para quem entra na brincadeira, porém, a imprevisibilidade ajuda a sustentar a experiência. A curiosidade deixa de ser apenas descobrir o que existe na próxima fase e passa a incluir a expectativa pela próxima ideia sem sentido que o jogo vai apresentar.
O roteiro não é o principal motivo para jogar, mas cumpre sua função: criar um contexto para que o combate aconteça enquanto a comédia surge nos cenários, nas armas, nos inimigos e nos diálogos.

Um pouco de Quake, um pouco de Mullet MadJack
A principal base de Aviãozinho do Tráfico Pré 4 está nos boomer shooters, jogos de tiro que recuperam características dos FPS dos anos 1990, como combates velozes, movimentação constante e mapas com segredos. A inspiração em Quake aparece na estrutura das fases e na maneira como o jogador precisa avançar enquanto enfrenta grupos de inimigos.
Não há uma grande árvore de habilidades ou uma quantidade excessiva de sistemas para administrar. O foco está em escolher armas, movimentar-se, encontrar recursos e eliminar as ameaças. Essa simplicidade favorece o ritmo, embora também limite a profundidade da progressão. Lembra bem outro jogo brasileiro: Mullet MadJack.

A novidade mais relevante está nas opções de movimentação. Além de correr e saltar, o jogador pode realizar avanços no ar e executar pulos duplos. As habilidades tornam os confrontos mais dinâmicos e acrescentam possibilidades de exploração aos mapas. As fases continuam relativamente lineares, mas a movimentação aérea permite alcançar plataformas e áreas que parecem inacessíveis à primeira vista.
Alguns segredos exigem saltos pouco intuitivos, e descobrir que determinado ponto do cenário pode ser alcançado é uma recompensa por si só, mesmo quando o prêmio encontrado não é especialmente importante.
Arsenal criativo é um dos destaques
O armamento acompanha a proposta de transformar elementos da cultura brasileira em ferramentas de combate. Entre as opções estão rojões, o Chimarrão Flamejante, um orelhão que dispara projéteis, uma feijoada estilingue e armas inspiradas em produtos e referências populares, como o Dollynho e uma ducha elétrica.
O arsenal mantém funções reconhecíveis dentro de um jogo de tiro, mas a apresentação dos equipamentos impede que a experiência se resuma a uma imitação de Quake. A criatividade está justamente em imaginar como objetos cotidianos podem ser adaptados ao combate de um FPS.

Os inimigos seguem a mesma lógica. Demônios, criaturas inspiradas em personagens conhecidos e figuras que remetem ao futebol, à televisão e à cultura da internet brasileira compõem um conjunto visual que busca surpreender a cada nova área. Essa variedade ajuda a manter a identidade do projeto, sobretudo porque as referências não aparecem apenas em diálogos ou menções ocasionais. Elas fazem parte da estrutura visual e da própria ação.
Ainda assim, a quantidade de novidades nem sempre se traduz em maior variedade estratégica. A lógica central continua sendo avançar e atirar, com a movimentação como principal recurso para sobreviver. Para quem procura sistemas de combate mais elaborados, a simplicidade pode se tornar repetitiva ao longo da campanha.
Direção de arte: feio de propósito, mas nem sempre legível
A apresentação visual é parte essencial da personalidade de Aviãozinho do Tráfico Pré 4. Texturas simples, imagens de baixa resolução, modelos rudimentares e elementos que parecem retirados de mods antigos de PC ajudam a estabelecer uma estética próxima dos FPS clássicos.
A diferença está na maneira como esse visual se mistura à cultura brasileira. Os locais não procuram necessariamente reproduzir os espaços com fidelidade: funcionam como referências visuais que ajudam a situar a sátira. A interface também segue essa proposta. A barra de vida também utiliza emojis com aparência de figurinhas de aplicativos de mensagens.
O humor depende bastante do reconhecimento dessas referências. Marcas, personalidades e personagens são transformados em parte do cenário, do arsenal ou dos confrontos. Algumas piadas funcionam pela própria imagem; outras dependem do repertório do jogador e da familiaridade com a linguagem da internet brasileira.

Algumas dificuldades
O problema aparece quando a identidade visual prejudica a compreensão da ação. Em momentos com muitos inimigos, disparos, efeitos e objetos na tela, fica difícil identificar rapidamente o que representa uma ameaça e para onde é melhor se movimentar.
O caos que diverte também atrapalha. Em um FPS no qual a reação rápida é fundamental, a legibilidade não é um detalhe secundário. A direção de arte pode ser deliberadamente rudimentar, mas o excesso de informações acaba comprometendo um dos aspectos mais importantes da jogabilidade.
Isso não significa que o jogo precise abandonar sua estética para funcionar melhor. O desafio seria preservar a personalidade visual e, ao mesmo tempo, permitir que o jogador identifique inimigos e projéteis com mais facilidade durante os confrontos.
Trilha sonora reforça a sensação de descontrole
O áudio acompanha o restante da experiência. A trilha tem misturas que parecem deliberadamente desorganizadas. O resultado contribui para a atmosfera de exagero e combina com a proposta de transformar a partida em uma sequência de acontecimentos imprevisíveis.
Os efeitos sonoros também exploram o humor. Gritos, vozes e sons associados às criaturas ajudam a anunciar a presença dos inimigos, muitas vezes de maneira tão caricata quanto o restante da apresentação.
A criatividade é evidente, mas existe um limite para a saturação. A combinação de música, efeitos, disparos e gritos pode se tornar cansativa durante sessões mais longas. Assim como acontece com a direção de arte, a trilha funciona melhor quando o exagero diverte do que quando a quantidade de estímulos começa a desgastar a experiência.
Aviãozinho do Tráfico Pré 4 vale a pena?
Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é uma continuação que compreende bem o que pretende ser. Em vez de tentar transformar a série em uma produção mais convencional, Joeveno amplia seus elementos característicos: mais referências, mais armas, mais inimigos e mais possibilidades de explorar os cenários.
A jogabilidade sustenta o projeto e impede que ele dependa exclusivamente do impacto das piadas. A movimentação aérea acrescenta possibilidades reais à exploração, enquanto o arsenal reforça a identidade brasileira da aventura. O problema é que a mesma disposição para exagerar aparece na quantidade de informações exibidas simultaneamente, o que pode tornar alguns confrontos confusos e cansativos.
O jogo não precisa ter gráficos realistas ou uma história elaborada para funcionar. Precisa, isso sim, garantir que sua ação continue divertida depois que a surpresa inicial passa. Nesse aspecto, entrega uma experiência competente, embora a repetição da fórmula e o excesso de estímulos impeçam que todos os elementos alcancem o mesmo nível.
Minha avaliação é positiva, sobretudo para quem gosta de boomer shooters e de jogos independentes que apostam em uma identidade cultural muito específica. Não é uma experiência para todos os públicos, mas também não tenta ser. Seu maior mérito está em combinar uma base de FPS clássica com um repertório de referências que dificilmente seria confundido com o de outro jogo.
Nota: 4,0/5
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH. Já atuou em diversas áreas do jornalismo, como assessoria de imprensa, redação e comunicação interna. Apaixonado por esportes em geral e grande entusiasta de games.



