Maratona abaixo de duas horas: fisioterapeuta reage a 'feito' e faz reflexão
'Feito muda a percepção sobre o que o corpo humano é capaz de suportar, e talvez diga mais sobre a evolução da ciência esportiva do que sobre a corrida em si', diz fisioterapeuta

Fisioterapeuta especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil), Felipe Campos reagiu ao "feito" de Sabastian Sawe neste ano. O corredor queniano completou a Maratona de Londres em menos de duas horas, algo que nunca havia ocorrido.
"Quando Eliud Kipchoge correu a famosa maratona abaixo de duas horas em Viena, em 2019, o mundo já havia entendido que a barreira cairia cedo ou tarde. Mesmo sem homologação oficial pela World Athletics, aquela prova teve um valor simbólico gigantesco. Kipchoge não apenas correu rápido: ele desmontou uma crença coletiva", iniciou.
"E talvez esse seja o maior impacto de feitos assim: mostrar que limites humanos muitas vezes são mais culturais do que físicos. A partir dali, o esporte acelerou", completou.
Na sequência, o especialista fez uma série de reflexões a respeito do feito do queniano. "Hoje, os atletas deixaram de ser preparados de maneira generalista. A individualização virou regra. O treinamento moderno vai além de melhorar o desempenho: ele busca entender profundamente como cada organismo responde ao esforço", começou.
"O corredor de elite atual é praticamente um laboratório em movimento. Sono, hidratação, frequência cardíaca, recuperação muscular, desgaste metabólico, resposta hormonal, ingestão de carboidratos, perda de sódio, fadiga neuromuscular. Tudo é monitorado. Tudo é ajustado", seguiu.
O especialista também falou sobre o processo de preparação de Sawe. "A suplementação também conta muito. Sawe repunha em média 150g de carboidratos por hora (para os amadores, a conta gira em torno de 45 a 80g). A reposição de líquidos não é somente água, mas também eletrólitos, como sódio, potássio e magnésio, por exemplo, na quantidade certa para a perda já detectada desse atleta".
Por fim, o fisioterapeuta finalizou dizendo que a quebra de recorde é uma "mudança de era".
"A quebra da barreira das duas horas representa apenas um novo recorde e também uma mudança de era. E como toda mudança de era no esporte, ela traz uma sensação curiosa: aquilo que parecia impossível ontem rapidamente começa a parecer inevitável amanhã. A pergunta agora é: quanto tempo mais durará esse recorde?".
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