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As histórias da Maratona de Salvador e do circuito baiano de corrida de rua

Como a capital baiana estruturou seu calendário atlético oficial, desde as primeiras provas da AVAB na década de 1970 até a obtenção da certificação internacional da World Athletics

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Corrida em Salvador • Divulgação/Maratona de Salvador

A corrida de rua oficial na capital baiana é uma modalidade regida pelas normas técnicas da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e certificada pela World Athletics. O esporte, que consiste na progressão contínua em vias públicas pavimentadas, tem suas distâncias oficiais fixadas entre 5 km e 42,195 km para competições de alto rendimento.

No Brasil, a sistematização dessas regras acompanhou a evolução dos grandes centros urbanos. Em Salvador, a topografia litorânea definiu o traçado do esporte, transformando os calçadões da cidade no epicentro técnico das provas de fundo e meio-fundo do Norte e Nordeste, atraindo anualmente milhares de atletas em busca de índices classificatórios.

A fundação da Associação dos Veteranos e a criação do calendário atlético

A regulamentação da corrida de rua em Salvador teve seu primeiro marco institucional com a Associação dos Veteranos de Atletismo da Bahia (AVAB). A entidade começou a promover provas de forma amadora em 1975, oficializando seu estatuto e seu primeiro calendário estruturado de competições em 1º de maio de 1979, sob a presidência de Clóvis Gonçalves Sampaio. Este movimento inicial estabeleceu as categorias por faixa etária de cinco em cinco anos, uma norma que a CBAt mantém nos dias de hoje.

O salto definitivo para o profissionalismo em nível internacional ocorreu apenas em 2017, com a criação da Maratona Cidade de Salvador pela Empresa Salvador Turismo (Saltur). A iniciativa visou inserir o município no mapa do turismo esportivo de alto rendimento, desenhando um percurso que pudesse obter o selo bronze da então Federação Internacional de Atletismo (IAAF), garantindo que os tempos registrados na capital baiana fossem válidos para índices olímpicos e campeonatos mundiais.

Diretrizes da CBAt para percursos, hidratação e aferição técnica

Para que uma corrida de rua seja oficializada e integre o calendário nacional, a organização deve cumprir um rigoroso protocolo de exigências físicas e regulamentares. O regulamento geral estabelece critérios estritos que desclassificam o atleta em caso de infração.

  • Aferição do percurso: A distância deve ser medida por um aferidor oficial (nível A ou B) utilizando o método da bicicleta calibrada pelo Índice de Jones.
  • Pontos de abastecimento: Em Salvador, devido ao clima quente e úmido, o regulamento impõe uma estrutura reforçada de hidratação.
  • O fornecimento de água deve ocorrer no máximo a cada 3 km.
  • É obrigatória a oferta de repositores isotônicos a partir do quilômetro 15.
  • A disponibilização de carboidratos líquidos (como refrigerantes à base de cola) é permitida na reta final (após o km 30) das maratonas baianas.
  • Proibições de prova: O regulamento bane o uso de pacing (ritmo ditado) por pessoas não inscritas, veículos motorizados ou bicicletas acompanhando os corredores fora do esquema oficial da organização.

A infraestrutura dos circuitos litorâneos e a adaptação climática

O esporte de longa distância exige pavimentação contínua, desnível altimétrico mínimo e vias largas o suficiente para acomodar largadas em ondas (wave starts). A orla soteropolitana, especialmente no trecho que liga a Barra até Itapuã, foi reconfigurada arquitetonicamente para atender a essas demandas esportivas.

A requalificação de áreas como o Parque dos Ventos, na Boca do Rio, transformou a região na principal arena de largada e chegada das competições. Fora dos dias de prova oficial, os atletas de elite e amadores utilizam as ciclovias e os calçadões requalificados de bairros como Piatã e Ondina. Esses trechos são considerados os principais lugares seguros de onde correr em Salvador para aproveitar a vista da orla marítima, oferecendo piso plano, iluminação noturna e policiamento preventivo, características essenciais para treinos de rodagem (longões) que ultrapassam as duas horas de duração.

O equipamento exigido na modalidade foca exclusivamente na dissipação de calor e no retorno de energia. Os maratonistas utilizam calçados com placas de carbono (homologados pela World Athletics) e vestuário de poliamida com proteção UV, fundamentais para suportar a alta radiação solar e a umidade que frequentemente atinge níveis críticos na capital baiana, exigindo adaptação fisiológica extrema.

Tempos de corte, recordes e maiores vencedores do circuito baiano

O circuito soteropolitano consolidou-se como um campo de provas técnico e severo devido à sua exigência climática. Historicamente, a competição principal da cidade distribui prêmios financeiros que estão entre os maiores do país, atraindo o pelotão de elite nacional e internacional (majoritariamente fundistas quenianos).

  1. Domínio feminino: A atleta olímpica Marily dos Santos é um dos maiores nomes da prova soteropolitana, tendo vencido a maratona três vezes em quatro participações. Na edição de 2023, ela garantiu o lugar mais alto do pódio com a marca de 2h50min55s.
  2. Desempenho masculino: No mesmo ano, o cearense Cícero Evandro Ferreira venceu os 42 km com o tempo oficial de 2h24min54s. Outro nome recorrente no alto do pódio soteropolitano é Justino Pedro da Silva, campeão da etapa e multicampeão nacional.
  3. Expansão estatística: A 7ª edição da Maratona, realizada em setembro de 2025, estabeleceu o recorde histórico de público, ultrapassando os 12 mil inscritos. O volume atlético obrigou a direção técnica a dividir as distâncias em dois dias (5 km e 10 km no sábado; 21 km e 42 km no domingo) para garantir a integridade das vias públicas e a segurança do percurso.

O que define o tempo de corte em uma maratona oficial?

O tempo de corte (cut-off time) é o limite máximo estipulado pela direção de prova para que o atleta conclua o percurso antes da reabertura das vias ao tráfego de veículos. Em Salvador, a tolerância usual para os 42,195 km é de seis horas a partir do sinal sonoro da largada do último pelotão.

Como funciona a certificação de um calçado para a quebra de recordes?

A World Athletics publica e atualiza constantemente uma lista de tênis permitidos em competições de elite. A espessura máxima da entressola (stack height) não pode ultrapassar 40 milímetros em provas de rua, e o calçado deve estar obrigatoriamente disponível no mercado varejista há pelo menos um mês antes do evento, proibindo o uso de protótipos exclusivos.

O cenário esportivo de Salvador atinge sua plena maturidade no ciclo atual de 2026, posicionando a cidade firmemente entre as sete maiores maratonas do Brasil. A combinação entre a severidade técnica de um circuito à beira-mar, a infraestrutura auditada pela CBAt e o fomento econômico gerado pelo turismo de alta performance converteu o asfalto baiano em um território indispensável para maratonistas que buscam validar suas métricas no exigente circuito global.

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