Sedes e logística da Olimpíada de Inverno 2026: Milão-Cortina

A primeira edição olímpica oficialmente nomeada por duas cidades enfrentará o desafio de integrar zonas de competição espalhadas por 22 mil quilômetros quadrados no norte da Itália.

Cortina D’Ampezo, sediará o esqui alpino feminino

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 começam oficialmente nesta sexta-feira (6) e seguem até 22 de fevereiro. O evento introduz um modelo inédito na história do evento: a descentralização das sedes.

A lógica é diferente das edições anteriores, onde uma cidade-sede concentrava as operações com sub-sedes próximas. A candidatura italiana vencedora une Milão, metrópole financeira e da moda, e Cortina d’Ampezzo, estância de esqui histórica nas Dolomitas.

A distância física entre as duas cidades principais é de aproximadamente 400 quilômetros por estrada, exigindo cerca de cinco horas de viagem de carro. O cenário impõe uma logística complexa que desafia o Comitê Olímpico Internacional (COI) e os organizadores locais.

A solução, abandonando o conceito tradicional de uma única Vila Olímpica, foia adotar um modelo de “clusters” ou zonas de competição.

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História e contexto da candidatura

A escolha de Milão-Cortina foi em 24 de junho de 2019, durante a 134ª Sessão do COI em Lausanne, Suíça. A candidatura italiana superou a proposta conjunta de Estocolmo e Åre, da Suécia, por 47 votos a 34. A vitória marcou o retorno dos Jogos de Inverno à Itália vinte anos após Turim 2006 e setenta anos após a primeira edição em Cortina d’Ampezzo (1956).

Originalmente, o projeto incluía também a cidade de Turim, mas desentendimentos políticos e logísticos levaram à saída, consolidando o eixo Lombardia-Vêneto-Trentino.

A proposta vencedora alinhou-se perfeitamente com a Agenda 2020 do COI, que visa reduzir custos e evitar a construção de “elefantes brancos”. A estratégia italiana baseou-se no uso de 93% de instalações já existentes ou temporárias, espalhadas por uma vasta região do norte da Itália.

Funcionamento logístico e zonas de competição

Para viabilizar a realização do evento em uma área geográfica tão extensa, a organização dividiu os Jogos em quatro zonas principais (clusters). A lógica operacional dita que atletas e delegações permaneçam baseados na zona onde serão as competições e reduzem a necessidade de deslocamentos diários longos.

A movimentação entre as sedes será predominantemente voltada para espectadores, mídia e oficiais.

A infraestrutura de transporte italiana foi modernizada para o evento, com foco na conectividade ferroviária e rodoviária. O plano logístico depende fortemente da rede de trens de alta velocidade para conectar Milão a Verona e Veneza, complementada por melhorias nas estradas de montanha que levam a Cortina, Bormio e Livigno.

As principais zonas e suas funções logísticas são:

Cluster de Milão: A única zona urbana plana, abrigará os esportes de gelo indoor (hóquei no gelo, patinação artística e patinação de velocidade em pista curta) e a patinação de velocidade em pista longa. A cerimônia de abertura será no Estádio Giuseppe Meazza (San Siro).

Cluster de Cortina d’Ampezzo: Localizado nas montanhas, focará no esqui alpino feminino, curling e nos esportes de deslizamento (bobsleigh, luge e skeleton).

Cluster de Val di Fiemme: Situado na província autônoma de Trento, será o centro das disciplinas nórdicas, como esqui cross-country, salto de esqui e combinado nórdico.

Cluster de Valtellina (Bormio e Livigno): Focado no esqui alpino masculino (na famosa pista Stelvio em Bormio) e nas competições de snowboard e esqui estilo livre (em Livigno).

Para acomodar os atletas, não haverá uma única Vila Olímpica massiva, mas sim vilas descentralizadas em Milão, Cortina e Livigno, além de hotéis específicos para atletas nas outras áreas.

Instalações e sedes principais

  • Estádio San Siro (Milão): Cerimônia de Abertura.
  • Arena de Verona (Verona): Um anfiteatro romano histórico que sediará a Cerimônia de Encerramento, simbolizando a união final das sedes.
  • Pista Olympia delle Tofane (Cortina): Palco tradicional da Copa do Mundo, receberá o esqui alpino feminino.
  • Eugenio Monti Sliding Centre (Cortina): Uma pista histórica sendo reformada para bobsleigh, luge e skeleton, embora tenha sido alvo de intensos debates sobre custos e viabilidade ambiental.
  • Arena de Hóquei (Milão): O PalaItalia Santa Giulia (nova construção) e o PalaTrussardi (existente) dividirão os jogos de hóquei masculino e feminino.
  • South Tyrol Arena (Anterselva/Antholz): Instalação de classe mundial já existente para o Biatlo.

Curiosidades e desafios

A dispersão geográfica de Milão-Cortina 2026 gera fatos únicos e desafios operacionais sem precedentes na história olímpica recente.

Com as sedes espalhadas pelas regiões da Lombardia e Vêneto, e as províncias autônomas de Trento e Bolzano, estes serão os Jogos mais extensos geograficamente da história.

A pista de bobsleigh em Cortina tornou-se um ponto de controvérsia devido ao alto custo de reconstrução. O COI chegou a sugerir o uso de uma pista em outro país (como na Suíça ou Áustria) para conter gastos, o que seria inédito, mas o governo italiano insistiu em manter a prova em território nacional.

Espera-se que os jogadores da National Hockey League (NHL) retornem às Olimpíadas em 2026, o que aumentará drasticamente a demanda logística e de segurança no cluster de Milão. Pela primeira vez, duas cidades são titulares na nomenclatura oficial, refletindo uma parceria regional em vez de municipal.

Graduando em jornalismo pela UFJF, Michel Santos é estagiário da Itatiaia em Juiz de Fora. Apaixonado por esportes, videogames e fã aficcionado de automobilismo.
Leonardo Parrela é chefe de reportagem do portal Itatiaia Esporte. É formado em Jornalismo pela PUC Minas. Antes da Itatiaia, colaborou com ge.globo, UOL Esporte e Hoje Em Dia. Tem experiência em diversas coberturas como Copa do Mundo, Olimpíada e grandes eventos.

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