Primo de campeão mundial pela Argentina revela sucesso como diretor esportivo no Uruguai
Nicolás Mac Allister, primo do meio-campista Alexis, da Seleção Argentina e do Liverpool-ING, explica as habilidades essenciais para ser diretor esportivO

Aos 34 anos, Nicolás Mac Allister carregava nos ombros mais que a responsabilidade de reverter um descenso de categoria no Deportivo Maldonado, do Uruguai. Carregava também o peso de um sobrenome que, nas últimas décadas, tornou-se sinônimo de futebol argentino.
Filho de Carlos Patricio e primo de Alexis, campeão mundial pela Argentina, Nicolás descobriu seu caminho longe dos gramados: na secretaria técnica, onde desenvolveu métodos que transformaram o clube uruguaio no segundo melhor colocado da tabela acumulada. Sua trajetória ilustra uma verdade que ele próprio consolidou em livro: para dirigir futebol profissional, conhecimento tático e técnico é apenas o começo.
Por que conhecer futebol não basta para ser diretor esportivo
Nicolás Mac Allister passou por diferentes funções antes de assumir a direção esportiva: foi treinador, auxiliar técnico, coordenador de categorias de base e secretário técnico. Cada experiência o levou à mesma conclusão.
"Fui entendendo que para ser diretor esportivo de fútbol, não sirve solamente saber de fútbol", afirmou em entrevista. A partir dessa percepção, ele identificou capacidades que vão além do conhecimento tático: gestão organizacional, liderança de equipes multidisciplinares, compreensão de alto rendimento e habilidade para executar planos de longo prazo.
Essa versatilidade tornou-se o eixo central do livro que ele escreveu ao longo de 12 meses, enquanto comandava a reconstrução do Maldonado. A obra aborda gestão, liderazgo, cultura organizacional e planejamento estratégico no futebol.
A função de diretor esportivo atravessa todas as áreas do clube
No Deportivo Maldonado, Nicolás impacta desde a contratação de jogadores até a forma como o clube se comunica nas redes sociais. Segundo ele, a direção esportiva não se limita ao departamento de futebol.
"Quando eu llamo a um futbolista, lo primero que hace luego de cortar el teléfono conmigo es entrar al Instagram del club", explicou. Se a imagem transmitida pelo marketing institucional não for adequada, o atleta talvez nem aceite a proposta. Por isso, ele considera fundamental que todas as áreas busquem crescimento alinhado ao projeto esportivo.
Sua atuação abrange o futebol profissional (técnicos, atletas, renovações contratuais), as categorias de base (metodologia, captação, estilo de jogo), o marketing (comunicação do plano esportivo), a logística e até a cultura de alto rendimento — incluindo nutricionistas e fisioterapeutas comprometidos com essa mentalidade.
Como ele reverteu o descenso e transformou o Maldonado
Nicolás chegou ao Deportivo Maldonado inicialmente como secretário técnico, com a missão de influenciar nas categorias de base e nas contratações. Os resultados não vieram de imediato. No entanto, em vez de ser desligado ao final de 2024, ele recebeu promoção: assumiu como diretor esportivo.
A mudança de cargo foi decisiva. "Desde este rol, lo que yo logré es tener un impacto verdadero en la organización", disse. Com autoridade hierárquica para implementar mudanças estruturais, ele começou a profissionalizar cada área.
Trocou todo o staff de marketing, reformou a equipe das categorias de base, mudou a comissão técnica da primeira divisão, alterou a estratégia de contratações, melhorou a indumentária e investiu em infraestrutura. Não foram grandes revoluções pontuais, mas diversos pequenos ajustes coordenados — que, somados, produziram resultados expressivos.
A relação entre diretor esportivo e treinador no projeto
Para Nicolás, o técnico é a pessoa que executa diariamente o plano desenhado pela direção esportiva. Por isso, escolher o treinador certo é a decisão mais importante de qualquer diretor.
Ele busca profissionais alinhados ao estilo de jogo proposto, à cultura que deseja desenvolver no clube e à identidade de equipe que pretende construir. "A decisão mais importante de qualquer diretor esportivo é a escolha de um bom treinador", afirmou.
No Maldonado, encontrou um treinador trabalhador, com estilo de jogo atrativo, coragem para enfrentar qualquer adversário e capacidade de desenvolver atletas. Esse perfil não apenas torna o time mais competitivo: valoriza os jogadores no mercado e potencializa seu desenvolvimento técnico.
O que ele aprendeu escrevendo o livro em meio ao trabalho intenso
Nicolás iniciou a redação de El equipo detrás del equipo quando assumiu a direção esportiva do Maldonado. Sentiu necessidade de se aprofundar no próprio papel e de organizar ideias que vinham se formando ao longo da carreira.
O processo levou cerca de 13 meses, com uma pausa de três meses e meio durante os playoffs de acesso à primeira divisão, o mercado de contratações e o início da pré-temporada.
O livro tornou-se uma ferramenta de aprendizado pessoal antes de virar publicação. Nele, Nicolás cita mais profissionais de outras áreas que do futebol: treinadores de basquete como John Wooden e Phil Jackson, filósofos, coaches e escritores. A escolha reflete sua convicção de que as capacidades essenciais para liderar — comunicação, gestão emocional, construção de cultura — não são exclusivas do universo esportivo.
O peso e a responsabilidade de carregar o sobrenome Mac Allister
A família Mac Allister marcou o futebol argentino por gerações. Carlos Patricio e Carlos Javier brilharam nos anos 1980 em clubes como Argentinos Juniors, Boca Juniors e Racing. Décadas depois, Alexis, Kevin e Francis renovaram o prestígio do sobrenome.
Nicolás enxerga essa herança com orgulho, mas também com senso de dever. "Para mim, é um orgulho enorme e uma felicidade pertencer a uma família tão identificada e enraizada no futebol", disse. Ao mesmo tempo, reconhece a pressão: qualquer ação sua impacta a reputação construída ao longo de anos.
"Es una responsabilidad enorme. Intento defenderlo y hacerlo valer todos los días", afirmou. Cada decisão profissional é tomada com consciência de que o prestígio familiar está em jogo.
Por que processos de direção esportiva exigem tempo
Nicolás acredita que os primeiros impactos concretos de uma direção esportiva surgem apenas após dois anos. Processos completos — envolvendo futebol de base, profissional, scouting, marketing e demais áreas — precisam de quatro a cinco anos para mostrar todo seu potencial.
O primeiro sinal visível costuma ser o mercado de transferências logo após a chegada do diretor. Mas isso é apenas o início. "El trabajo de un director deportivo va mucho más allá de las contrataciones del primer equipo", destacou.
Ele compara o mercado de pases a uma fotografia pequena dentro de um quadro maior. A transformação real envolve metodologia de treinamento, modelo de jogo institucional, captação e formação de talentos, relacionamento com outros clubes e fortalecimento da infraestrutura — mudanças que só amadurecem com o tempo.
O que uma direção esportiva deve deixar como legado
Uma das funções do diretor esportivo, segundo Nicolás, é deixar o clube melhor do que encontrou. No Deportivo Mac Allister, onde atuou por dois anos e meio, ele acredita ter conseguido.
Organizou a instituição, estabeleceu metodologia própria de formação, definiu estilo de jogo e formas de competir, profissionalizou o relacionamento com clubes da AFA para inserção de atletas. "Hemos logrado con muchas personas que tienen un sentido de pertenencia con el club", disse.
No Maldonado, pretende elevar ainda mais o patamar. Quer que o próximo profissional a assumir seu cargo encontre papéis e funções bem definidos, scouting trabalhando de forma profissional e alinhada, comissão técnica conectada com a proposta da direção e categorias de base competitivas. "Lo que le dejamos es la enseñanza al club de por qué es importante que todas las áreas busquen el crecimiento", explicou.
Portal de esportes da Itatiaia



