Estudo aponta risco de lesão cerebral por impacto em atletas da NFL, e fisiterapeuta explica como prevenir impactos
Pesquisa publicada no British Medical Journal (BMJ) trouxe à tona novamente o debate sobre os efeitos de impactos repetitivos na cabeça ao longo da carreira esportiva

Estudo publicado por pesquisadores do Mass General Brigham, da Universidade de Boston e da Concussion & CTE Foundation, publicado no British Medical Journal (BMJ), trouxe à tona novamente o debate sobre os efeitos de impactos repetitivos na cabeça ao longo da carreira esportiva.
O estudo analisou ex-jogadores da NFL mortos entre 2016 e 2021 e encontrou sinais de encefalopatia traumática crônica (ETC) em pelo menos 24,5% deles, o que reforça a preocupação dos efeitos a longo prazo de traumatismos cranianos. A pesquisa corrobora a importância de discutir o tratamento após concussões, mas também estratégias para reduzir a exposição de atletas aos impactos e identificar, de maneira precoce, possíveis alterações.
Especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil), Daniel Araújo explica que a atuação da fisioterapia deve ser iniciada antes mesmo da lesão.
Em relação aos traumas repetitivos, muda um pouco a nossa visão sobre como atuar. Não devemos atuar somente após uma concussão acontecer, mas também podemos atuar na prevenção desses impactos. É importante reduzir a quantidade de impactos desnecessários durante treinamentos e jogos, melhorar a técnica esportiva do atleta, o controle motor e a capacidade de absorver e controlar essas forças, seja por meio de exercícios físicos ou neuromusculares.
O fisioterapeuta ressalta também que a exposição a concussões não significa que um atleta desenvolverá ETC. A relação entre os traumas repetitivos e o desenvolvimento da doença é complexa e não permite estabelecer uma relação direta para todos os casos.
Além disso, há a dificuldade de identificação da ETC durante a vida do atleta. Até o momento, não há nenhum exame ou conjunto de sintomas que possa confirmar, com segurança, a doença em uma pessoa viva. Por este motivo, sinais persistentes ou progressivos devem ser avaliados clinicamente, mas não podem ser interpretados isoladamente como um diagnóstico de encefalopatia traumática crônica.
Dentre as alterações que devem ser tratadas com atenção, estão problemas de memória e concentração, dificuldades para realizar atividades cotidianas, mudanças importantes de comportamento e humor, irritabilidade, alterações no sono e declínio funcional.
“Não podemos dizer que determinado sintoma significa que o atleta tem ETC, mas temos alguns sinais que merecem atenção, principalmente quando são persistentes ou progressivos”, afirmou Daniel Araújo.
O especialista explica ainda que o acompanhamento deve envolver distintas áreas da saúde. Para Araújo, médicos, neurologistas, neuropsicólogos, profissionais de saúde mental, fisioterapeutas e integrantes da própria equipe esportiva podem contribuir para uma avaliação mais abrangente.
“Cada profissional pode identificar pequenos sinais dentro da sua área e, somados aos outros sinais, eles podem formar um diagnóstico mais precoce”, declarou.
Perigo do ETC no futebol americano
No futebol americano e em demais esportes de contato, a prevenção não depende de uma única estratégia. Dentre as medidas estão a redução da exposição desnecessária aos impactos, especialmente durante os treinamentos, protocolos de segurança mais rigorosos e aperfeiçoamento das técnicas de contato. Além disso, é essencial reconhecer rapidamente uma possível concussão e retirar o atleta da atividade, para evitar retorno precoce que possa causar mais danos.
Isso pode envolver diminuir a quantidade de treinos com contato, melhorar as regras e protocolos de segurança para os atletas, ensinar e aperfeiçoar as técnicas de contato e tackle no futebol americano ou no rugby e utilizar os equipamentos adequados para absorção de impacto e melhora da segurança do atleta.
A preparação física também cumpre papel importante, ainda que não isolada. O fortalecimento cervical, por exemplo, pode contribuir para a melhora do controle dos movimentos da cabeça, mas não há evidências da capacidade de reduzir impactos ou prevenir concussões.
“Não existe músculo ou exercício capaz de tornar o cérebro imune aos impactos. Mesmo um paciente com um fortalecimento muito bem feito não vai conseguir impedir completamente o impacto na cabeça ou uma concussão. Ele pode, porém, controlar melhor a cabeça após o impacto”, explicou Araújo.
O consenso de Amsterdã estabelece uma progressão por etapas para retorno ao esporte, com pelo menos 24 horas em cada etapa. O atleta inicia com atividades de menos demanda e, caso permaneça sem sintomas, progride para estímulos visuais, exercícios resistidos, atividades aeróbicas e, eventualmente, demandas específicas do esporte.
Nas etapas finais, o atleta tem permissão para voltar ao campo e, após tolerar demandas físicas cognitivas específicas, pode evoluir para exposições com maior risco de impacto.
“Não basta testar sem sintomas em repouso. Ele precisa demonstrar que tolera progressivamente as demandas físicas e cognitivas específicas do seu esporte antes de voltar a competir ou treinar”, concluiu Daniel Araújo.
Vale lembrar que já existe uma capa para capacetes feita especialmente para o futebol americano, que diminui os riscos de concussão no esporte. O design é uma camada extra de acolchoamento sobre o equipamento, que reduz o impacto de choque de cabeças na NFL.
Em 2024, o vice-presidente executivo da NFL, Jeff Miller, garantiu que o uso dos chamados Guardian Caps contribuiu para redução de 50% de incidência de concussões em jogadores de futebol americano. Apesar da medida de proteção adicional, os capacetes ainda não são amplamente utilizados, por escolha dos clubes ou dos atletas.
Jornalista em formação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Apaixonada por esportes (principalmente futebol e vôlei) e cultura. Passagem pela equipe de comunicação da UFMG.



