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Síndrome da impostora e a coragem para enfrentar os próprios medos

No livro 'Para todas as mulheres que não têm coragem', a jornalista Daniela Arrais conta histórias próprias, entrevista mulheres e traz exercícios para incitar as leitoras a se lançarem no mundo

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Montagem com a capa do livro "Para todas as mulheres que não têm coragem" e sua autora, a escritora Daniela Arrais • Reprodução / Editora Bestseller / Itatiaia

"Quem vê close não vê corre", diz o meme da internet. Quem vê o perfil da jornalista e escritora Daniela Arrais nas redes sociais pode até se enganar e imaginar uma vida de "closes". Ali ela compartilha momentos atuando em sua empresa, a @contente.vc, palestrando, saindo com as amigas e a família, publicando textos com reflexões sobre a vida, a internet, o trabalho. À primeira vista pode parecer uma vida de plena autoconfiança e repleta de conquistas.

Síndrome da impostora ou Fenômeno da impostora?

O termo "síndrome da impostora" surgiu no fim dos anos 70, criado por duas pesquisadoras norte-americanas que conduziram uma pesquisa com 150 mulheres buscando entender de que forma essas mulheres, que estavam em posição de destaque e liderança, entendiam e internalizavam o próprio sucesso.

O resultado é que muitas delas o atribuíam a fatores externos, como "sorte" ou "estar no lugar certo na hora certa", a despeito do quanto se prepararam, estudaram ou se esforçaram para que esses resultados acontecessem. E adotavam comportamentos repetitivos, como a comparação excessiva, perfeccionismo e procrastinação.

"Síndrome da impostora é essa sensação de a gente achar o tempo inteiro que precisa estudar mais, que precisa fazer mais, que a gente não tá preparada ainda para galgar alguns espaços, principalmente aqueles que nos requerem coragem", explica Daniela Arrais em entrevista ou Observatório Feminino da Itatiaia.

"Recentemente começou a ser discutida uma mudança nessa terminologia. Em vez de falar de síndrome, que é algo que remete a uma doença ou problema crônico, passou-se a chamar de fenômeno da impostora", explica a autora. "A impostora não é um diagnóstico, é um fenômeno que pode te acometer. Por isso se faz essa distinção, para a gente olhar para o nosso comportamento e entender que ele não diz respeito a uma questão individual, é uma questão estrutural, da sociedade, e por isso é importante estar atentos à forma com que o chamamos", conclui.

Os homens têm síndrome do impostor?

Os homens passam, sim, pelo "fenômeno do impostor", mas muito menos do que as mulheres. "Em várias conversas e palestras que fiz sempre tem um homem que fala 'eu também me sinto assim'", relata Daniela, "mas no desenho de sociedade que a gente vive os homens ocupam muito mais os espaços, eles têm essa hegemonia, eles têm mais poder. Então é um fenômeno que acomete muito mais mulheres", conclui.

Mundo digital, redes sociais e a impostora

Apesar de ser um fenômeno descrito nos anos 70, ele segue atual e afetado pela vida digital e as redes sociais. Passar tempo correndo pelo feed do Instagram ou do Tik Tok leva a algum grau de comparação, o que pode causar impactos negativos na saúde mental e nos níveis de ansiedade, como explicam os especialistas.

Perguntada sobre a relação entre vida digital, redes sociais e a "impostora", Daniela Arrais avalia:

"As redes sociais podem ser benéficas em muitos aspectos. Nos ajudam a ampliar a visão de mundo, a ter uma quantidade gigante de informação sobre o que quer que seja. Fazem com que a gente se conecte com amigos, com quem nos interessa.

Por outro lado, também podem ser uma fonte incessante de gatilhos. A gente abre as redes sociais e não sabe com o que vai se deparar. Pode ser uma notícia feliz de um amigo, como também pode ser um post de alguém que você já nem se lembra mais porque segue, mas que aparece na sua timeline e acaba te "engatilhando".

A gente nunca teve tanto acesso a tantas vidas e narrativas de outras pessoas como temos agora. Quando passo muito tempo navegando, me vejo ansiosa. Só lembro do "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".

Troque amigos por pessoas que vemos pelas redes sociais e bingo, né? Parece que não tem espaço pra falar dos perrengues, das dificuldades, das inúmeras tretas do trabalho contemporâneo. Eu sei que é um recorte, a gente edita nossas versões nas redes sociais. Mas fico achando que quando todo mundo só divide sua "melhor versão" acaba deixando o ambiente um pouco "tóxico". E um ambiente perfeito para que, do outro lado, várias mulheres se sintam impostoras. "Só eu que não consigo ser tão bem sucedida assim?", "só eu que não consigo dar conta de carreira, maternidade e casamento?".

Como diminuir o impacto negativo?

Daniela defende que é preciso prestar atenção ao que a gente consome e fazer uma triagem acompanhada de uma boa curadoria.

"O que a gente consome nas redes sociais pode moldar não só nossa visão de mundo, como também nossa autopercepção. Então, que a gente consiga rechear nossos feeds com exemplos reais, de gente que erra e acerta, que é confiante e vulnerável ao mesmo tempo. De gente que é gente", explica.

A impostora é geracional?

De que forma o "fenômeno da impostora" afeta as diferentes gerações - boomers, millenials, gen Z? Para Daniela, embora o fenômeno afete qualquer pessoa, há variações a partir de fatores culturais, econômicos e tecnológicos - que muitas vezes são geracionais.

Bommers

Os Boomers são os nascidos entre os anos de 1946 e 1964, após a Segunda Guerra Mundial. O nome vem do "baby boom", que em inglês define a grande onda de nascimentos que se sucedeu à Guerra. Eles cresceram em um contexto de maior atividade econômica e de certo otimismo. Para Daniela, eles tendem a vivenciar esse fenômeno com menos frequência.

"São, geralmente, nossos pais, que cresceram num contexto de mais estabilidade no trabalho, que conseguiram comprar casa "cedo", prosperar na carreira, ter estabilidade. O que acaba pegando pra essa geração é a tecnologia. Eles podem ter dificuldades de acompanhar o ritmo acelerado de hoje em dia. Mas ainda costumam ter muito mais confiança", resume.

Millennials

Os Millennials são os nascidos entre 1981 e mais ou menos 1996 - a data varia de acordo com o pesquisador - e são os que viveram a transição do mundo analógico para o mundo digital e os primeiros a usar de forma significativa as novas ferramentas em suas vidas e carreiras. Foi fortemente impactada pela crise econômica de 2008, quando muitos entravam no mercado de trabalho, e foram impactados por dívidas estudantis e falta de vagas.

Por isso, é uma das gerações mais afetadas pela impostora - é, inclusive, a geração à qual Daniela pertence. "Somos a geração que vive múltiplas crises e que é confrontada o tempo todo com altas expectativas de sucesso. E, ainda, acabamos usando muito as redes sociais e nos comparando. As versões idealizadas das vidas dos outros contribuem para essa sensação de que estamos atrás no jogo, de que somos inadequados", diz Daniela.

Gen Z

Os nativos da Geração Z / Gen Z vieram logo depois dos Millenials, de 1997 até por volta de 2012, e são totalmente nativos digitais. Já conheceram um mundo de smartphones, internet e se criaram dessa forma. Por outro lado, são uma geração mais preopada com meio ambiente, saúde, qualidade de vida e sociedade. De certa forma, é uma geração mais 'desiludida', principalmente em relação ao mundo do trabalho.

Daniela diz que, para eles, a impostora também é significativa. "Eles nasceram com o digital bombando, estão constantemente expostos a imagens de sucesso. Ao mesmo tempo, é uma geração mais atenta a questões de saúde mental, então podem ser mais propensos a discutir suas dificuldades".

Livro

O livro

Lançado em novembro de 2024, o livro "Para todas as mulheres que não têm coragem" é fruto de anos de trabalho e de um desejo nutrido em silêncio por muito tempo, como Daniela conta. Escrito em linguagem simples e fluida, a leitura parece uma conversa entre amigos.

"Apesar de ter algumas partes muito pessoais, eu acabo tocando em temas que são universais. Eu falo da impostora, mas eu falo de maternidade, eu falo de luto, eu falo de redes sociais. Então me interessava muito saber o que essa pessoa aí do outro lado, essa pessoa que vai ficar com o livro nas mãos, pensa sobre todos os assuntos", diz Daniela.

Perguntas e escrita

Foi dessa vontade que surgiu uma das novidades do livro - vários capítulos do livro se encerram com perguntas e algumas linhas para que o leitor escreva suas próprias conclusões.

"Faz muitos anos que eu escrevo na Internet e eu acho que cada texto vai crescendo quando as pessoas se colocam ali, falando 'eu também sinto isso' ou 'eu tava pensando aquilo'. Quando eu estava escrevendo livro eu pensava 'caramba, eu sei que tudo isso que eu tô sentindo, essa impostora que me habita, eu sei que eu não tô sozinha, pois nessa internet gigantesca, toda vez que eu falo desse tema um monte de gente se identifica'", relata Daniela.

Para quem quiser seguir a proposta, ela sugere:

  • Ao ler um livro, estar com papel e caneta do lado, ou mesmo um caderninho pra acompanhar a leitura.
  • Fazer os exercícios com um timer de 5 a 7 minutos.
  • Nesse tempo, você vai refletir sobre a proposta - o que vem na sua cabeça?
  • Depois, terminado o tempo, você relaciona essas frases com momentos e situações que já viveu.
  • Em seguida, refaça o exercício e anote as conclusões.

"Quando a gente escreve, a gente começa a entender mais do mundo. Quando a gente se coloca no papel, a gente também começa um processo de cura", conclui Daniela, convidando mais gente a participar.

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Coordenadora de jornalismo digital na Itatiaia. Jornalista formada pela UFMG, com mestrado profissional em comunicação digital e estratégias de comunicação na Sorbonne, em Paris. Anteriormente foi Chefe de Reportagem na Globo em Minas e produtora dos jornais exibidos em rede nacional.