Relembre 10 músicas brasileiras que ganharam regravações emblemáticas
Uma versão marcante é capaz de encobrir o passado, e uma canção de Rita Lee passa a estar associada a Zélia Duncan

A música brasileira possui um repertório amplo e diversificado, o que permite ilimitados pontos de vista e interpretações. Muitas vezes, uma música gravada recebe uma nova versão, com outro viés, e consegue se destacar, inclusive, mais do que a original, fato que apenas reforça a pluralidade cultural do país e as diversas maneiras de encarar um mesmo tema.
Ao mesmo tempo, esse movimento por vezes leva ao desconhecimento das origens. Uma versão marcante é capaz de encobrir o passado, e uma canção de Rita Lee passa a estar associada a Zélia Duncan, por exemplo, assim como a balada descoberta por Tetê Espíndola cai na boca do povo com o grupo Raça Negra. São regravações emblemáticas, que não eliminam o brilho das gravações originais.
Ouça a playlist completa:
“Chega de Saudade” (bossa nova, 1958) - Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Os sentimentos universais de abandono e desilusão encontrariam uma intérprete de voz calorosa, capaz de conciliar os arroubos de suas antecessoras Angela Maria (1929-2018) e Dalva de Oliveira (1917-1972) às interpretações mais delineadas que ditaram a canção nacional a partir do aparecimento de João Gilberto (1931-2019) e sua bossa nova. Meio de gaita, Elizeth Cardoso acabaria tida como espécie de precursora “torta” do estilo, ao cantar Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980) no álbum “Canção do Amor Demais” (1958), com direito à emblemática “Chega de Saudade” abrindo os trabalhos. A música ganhou uma regravação de João Gilberto.
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“Carcará” (canção, 1964) - João do Vale e José Cândido
Meses depois do início da ditadura militar no Brasil, em 1964, os movimentos artísticos já se organizavam para protestar contra tal violência. Escrito por Paulo Pontes, Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, com direção de Augusto Boal, o espetáculo “Opinião” foi um marco da resistência do período. Um dos participantes, João do Vale, era um maranhense de Pedreiras, cuja árida experiência no sertão o credenciou a encarnar o típico nordestino, com todas as suas revoltas e medos. A canção que se destacou no espetáculo foi “Carcará”, parceria de João do Vale e José Cândido. Após ganhar a voz de Nara Leão, se notabilizou pelo canto de Maria Bethânia.
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“Vapor Barato” (MPB, 1971) - Jards Macalé e Wally Salomão
Aquela geração ameaçada e violentada pela ditadura resolveu não se dobrar às truculências dos militares, e encontrou na experimentação de drogas proibidas e alucinógenas e na prática do sexo livre do sentimento de posse, formas de resistir aos tenebrosos tempos de chumbo. É dessa vivência que fala a música de Jards Macalé e Wally Salomão, dois dos artistas mais inventivos do Brasil, em “Vapor Barato”, cujo título é uma alusão ao uso da maconha. A desilusão com o momento também é refletida nos primeiros versos, com referência direta ao “casaco de general cheio de anéis”. Lançada no histórico show “FA-TAL – Gal a Todo Vapor”, em 1971, foi regravada pelo grupo O Rappa em ritmo de reggae e reforçou seu poder de hit.
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“Fio Maravilha” (samba-rock, 1972) - Jorge Ben Jor
Jorge Ben Jor é talvez o compositor brasileiro que mais escreveu sobre futebol. Entre seus inúmeros sucessos no tema, o maior deles é, sem dúvida, “Fio Maravilha”, lançado pela mineira Maria Alcina no Festival da Canção da TV Globo em 1972. A interpretação esfuziante de Alcina e os versos simples e bem harmonizados contribuíram para o êxito. Outro fato importante relacionado à música é a polêmica envolvendo o homenageado. João Batista de Sales, o Fio Maravilha, atacante do Flamengo famoso pela aparência exótica e por marcar gols esquisitos, acionou o compositor na Justiça exigindo o pagamento de direitos autorais pelo uso do apelido, o que levou Ben Jor a cantar “filho” em versões posteriores da canção.
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“Folhas Secas” (samba, 1973) - Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
No ano de 1973, lembrando com nostalgia sua mocidade, Nelson Cavaquinho compôs, ao lado do parceiro Guilherme de Brito, a essencial “Folhas Secas”, que prestava uma homenagem à sua querida escola de samba Mangueira, onde ele conhecera o ritmo que o levaria por toda a vida. A música foi alvo de uma polêmica jamais resolvida entre Elis Regina e Beth Carvalho, que a lançaram no mesmo ano. Inicialmente dada para Beth gravar, foi levada pelo arranjador César Camargo Mariano para Elis. O resultado foram dois registros belíssimos para a música brasileira e uma desavença severa entre as duas intérpretes, jamais resolvida. Nelson Cavaquinho também gravou sua pérola.
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“Lá Vou Eu” (balada, 1975) - Rita Lee e Luiz Carlini
Depois de sair dos Mutantes de maneira um tanto conturbada, Rita Lee fundou a Tutti Frutti, que tampouco garantiu vida fácil entre seus integrantes e dissolveu-se após quatro álbuns. O mais famoso deles foi lançado em 1975. “Fruto Proibido” levou para as rádios sucessos como “Agora Só Falta Você”, “Luz Del Fuego”, “Ovelha Negra” e “Esse Tal de Roque Enrow”, parceria com Paulo Coelho, com quem Rita teve um breve romance na época. No mesmo ano, ela compôs, para a trilha sonora da novela “O Grito”, da Rede Globo, a música “Lá Vou Eu”, feita com Luiz Carlini, guitarrista do Tutti Frutti. Essa música ganharia uma versão renovada décadas depois, por Zélia Duncan.
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“O Que Será” (MPB, 1976) - Chico Buarque
O primeiro LP lançado por Simone, em 1973, já revelava o talento da garota de apenas 23 anos, em canções como “Morena”, “Caminho do Sol” e “Tudo Que Você Podia Ser”, esta última dos irmãos mineiros Márcio e Lô Borges, filiados ao Clube da Esquina de Milton Nascimento. Produzida por Hermínio Bello de Carvalho e Milton, a cantora lançou ainda mais dois discos, antes de estourar nacionalmente em 1976, quando sua voz pôde ser ouvida na trilha sonora do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, interpretando um clássico de Chico Buarque: “O Que Será”, que, posteriormente, receberia uma versão do próprio Chico e de Milton Nascimento. Sucesso atemporal.
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“Fazenda” (clube da esquina, 1976) - Nelson Angelo
Paraense de corpo e alma, Fafá de Belém nunca negou suas raízes, e sempre fez questão de manter essa influência no centro de sua música. A cantora começou a carreira em 1976, com o lançamento do disco “Tamba-Tajá”, em que era forte a presença da cultura amazônica. Isso não a impedia de lançar seu olhar para outros grotões do país e pescar pérolas da tarimba de “Fazenda”, canção do compositor belo-horizontino Nelson Angelo, filiado ao Clube da Esquina. A singeleza da música também encantou Milton Nascimento, que a regravou em “Geraes”, lançado naquele mesmo ano de 1976, porém no mês de dezembro, quando a voz de Fafá já ecoava.
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“Dom de Iludir” (samba-canção, 1977) - Caetano Veloso
Caetano Veloso compôs “Dom de Iludir” como uma espécie de resposta a “Pra Quê Mentir”, clássico de Noel Rosa lançado em 1939, na voz de Silvio Caldas. Dentro de seu projeto de resgatar e dialogar com a música brasileira, transgredindo-a e remodelando-a, “Dom de Iludir” se encaixa perfeitamente. É um samba-canção à moda antiga, com uma harmonia requintada, que toma partido da mulher da história. Acusada por Noel de mentir, na letra de Caetano ela se defende insolentemente, eternizando os versos “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Lançada pela cantora Maria Creuza, em 1977, no disco “Meia-Noite”, ganhou a inesquecível versão de Gal Costa.
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“Vida Cigana” (balada, 1980) - Geraldo Espíndola
Tetê Espíndola nasceu em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Cantora, compositora e multi-instrumentista, dona de uma das vozes mais peculiares da música brasileira, Tetê começou a carreira ainda em sua terra natal, quando venceu um festival de música da cidade aos 14 anos. Conhecida nacionalmente a partir do sucesso de “Escrito nas Estrelas”, que estourou em todo o Brasil em 1985, Tetê lançou outra balada de viés romântico que se notabilizou mais tarde.
“Vida Cigana”, composta por seu irmão Geraldo Espíndola, foi lançada pela cantora em 1980, no disco “Piraretã”, e regravada pelo grupo de pagode Raça Negra, pela dupla sertaneja César Menotti & Fabiano e pelo cantor romântico José Augusto. Versátil, Tetê sempre transitou entre a vanguarda paulista cheia de experimentalismo e a música popular de viés romântico.
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