O Oscar é o ápice do prestígio cinematográfico e, historicamente, um motor para as bilheterias. No entanto, Hollywood guarda um lado irônico: obras-primas com orçamentos astronômicos que, apesar de acumularem estatuetas, deixaram buracos milionários nos cofres dos estúdios.
Entre produções de época impecáveis e ficções científicas cerebrais, o risco de investir centenas de milhões em dramas adultos é um jogo de alta voltagem onde o “sucesso crítico” nem sempre encontra o “sucesso comercial”.
Casos emblemáticos: quando a conta não fecha
Assassinos da Lua das Flores (2023)
Dirigido por Martin Scorsese, este épico criminal custou US$ 200 milhões. O valor foi investido em uma reconstrução histórica minuciosa da década de 1920 e nos cachês de astros como Leonardo DiCaprio.
- Bilheteria: US$ 157 milhões.
- Desempenho no Oscar: 10 indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz (Lily Gladstone).
Para a Apple Studios, o prejuízo matemático nos cinemas é secundário ao prestígio de marca e à atração de novos assinantes para o streaming.
A Invenção de Hugo Cabret (2011)
Outra obra de Scorsese, o longa utilizou tecnologia 3D de ponta, elevando o custo para US$ 170 milhões.
- Bilheteria: US$ 185 milhões (estimativa de prejuízo de US$ 100 milhões após marketing e taxas dos cinemas).
- Desempenho no Oscar: líder do ano com 11 indicações, vencendo 5 estatuetas técnicas.
Amor, Sublime Amor (2021)
A releitura de Steven Spielberg para o musical clássico custou US$ 100 milhões. Lançado durante a variante Ômicron da pandemia, o filme sofreu com a relutância do público mais velho em voltar às salas.
- Bilheteria: apenas US$ 76 milhões mundialmente.
- Desempenho no Oscar: 7 indicações e vitória de Ariana DeBose como Melhor Atriz Coadjuvante.
Blade Runner 2049 (2017)
A sequência dirigida por Denis Villeneuve é visualmente inigualável, custando até US$ 185 milhões. O ritmo lento e a trama complexa afastaram o público de blockbusters de ação tradicionais.
- Bilheteria: US$ 267 milhões (precisava de US$ 400 milhões para se pagar).
- Desempenho no Oscar: 5 indicações; venceu Melhor Fotografia e Efeitos Visuais.
Por que filmes premiados fracassam?
A discrepância entre o prestígio crítico e o sucesso comercial é frequentemente alimentada por orçamentos inflados e escolhas estratégicas de distribuição. Produções de época ou obras de ficção científica complexas exigem cenários e efeitos visuais de alto custo que, sem o apelo de massa das grandes franquias de super-heróis, dificilmente atingem o ponto de equilíbrio financeiro.
Além disso, o erro no timing de lançamento pode ser fatal; estrear simultaneamente a fenômenos globais de bilheteria, como ocorreu com O Beco do Pesadelo diante de Homem-Aranha, acaba sentenciando filmes autorais à invisibilidade comercial.
Somado a isso, existe uma mudança comportamental profunda no público adulto, que tradicionalmente sustentava os dramas de médio orçamento. Os chamados “filmes de pai” enfrentam uma resistência crescente nas salas de cinema, já que essa audiência hoje prioriza o conforto e a conveniência do streaming para consumir histórias mais densas.
Esse cenário cria um abismo onde, muitas vezes, a excelência técnica reconhecida pelos críticos não consegue romper a barreira do consumo doméstico para se transformar em lucro real nas bilheterias.
Onde assistir
Embora tenham falhado nos cinemas, esses filmes ganharam uma “segunda vida” digital. Confira onde assistir:
- Apple TV+: Assassinos da Lua das Flores
- Disney+ / Star+: Amor, Sublime Amor e O Beco do Pesadelo
- Netflix / Max: Blade Runner 2049 e Babilônia
- Aluguel Digital: A Invenção de Hugo Cabret (Apple TV / Amazon)
A bilheteria é apenas uma fotografia do momento financeiro. A qualidade artística e as estatuetas garantem que essas produções permaneçam na história muito após saírem de cartaz.