Netflix e Warner: junção de streamings ameaça série famosa da HBO Max

Netflix anunciou a compra da Warner Bros., que inclui estúdios de cinema e televisão, canais e a HBO Max; entenda os impactos no streaming e no cinema

Euphoria e The Last of Us, séries de sucesso da HBO Max

A Netflix anunciou, nesta sexta-feira (5), que adquiriu a Warner Bros. Discovery por US$ 72 bilhões (R$ 382 bilhões). A compra inclui os estúdios de cinema e televisão, além de canais e o streaming HBO Max. A novidade dividiu opiniões, visto que o público teme que séries famosas, como Euphoria, The Last of Us e Casa do Dragão, sejam prejudicadas.

Vitor Miranda, gerente e programador do Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, explica que esta é, talvez, “a maior aquisição da história do entretenimento”. Isso porque a Netflix, uma gigante do streaming, está adquirindo uma concorrente direta, além de toda a estrutura de estúdios pensada para lançamento nos cinemas. “A gente está falando de muito repertório cultural, de uma biblioteca gigante”, destacou.

Com a compra, a Netflix tomará decisões sobre investimentos e continuidade de séries de sucesso, sendo que uma delas pode estar ameaçada. “Eu acredito que The Last of Us e Casa do Dragão não são tão ameaçadas. Talvez Euphoria. Eu acho que vai depender muito de como a Netflix vai avaliar as suas prioridades”, destacou.

“Eu acho que o mais importante é que a gente perdeu uma major [empresa grande] do mercado. Então, fica em cima de uma empresa muitas decisões criativas sobre produtos culturais que a gente gosta muito”, ressaltou.

Leia também

Em comunicado, a Netflix afirmou que a junção trará “mais opções e maior valor para os consumidores”, mas sem detalhar preços. “Com a adição dos vastos catálogos de filmes e séries, além da programação da HBO e HBO Max, os assinantes da Netflix terão ainda mais títulos de alta qualidade para escolher”, enfatizou a empresa.

Para Vitor, a possibilidade de valor mais acessível, apontada pelo público, deve ser reavaliada. “Não sei se vejo muitos pontos positivos, porque a gente está falando sobre uma diminuição imensa da concorrência. E quando a gente diminui a concorrência, a gente diminui também a competição, a gente diminui a qualidade. Então, quando você tem só uma grande empresa produzindo alguma coisa, ela vai estabelecer as coisas a partir dos parâmetros dela e não vai se sentir ameaçada por outros”, afirmou.

A Netflix disse, ainda, que a novidade permitirá a expansão de produção de conteúdos originais e na geração de empregos. No entanto, Vitor pontuou que é “difícil mensurar” isso.

“Claro que eles vão defender isso, porque na verdade, essa compra ainda está sendo muito questionada. Existe uma tensão muito grande em relação a esse processo de venda. Porque a Netflix proporcionou algumas negociações desleais. Eles ofereceram US$ 5 bilhões para a Warner para ter exclusividade de negociação, sendo que havia outras companhias interessadas na compra, por exemplo, a Paramount”, acrescentou.

Conforme ele, os órgãos reguladores ainda podem impedir a venda, visto que o processo de venda e transição é mais lento. “A gente tem coisas ainda para aguardar e acompanhar. Eu acho que é, especialmente, preocupante, em relação à cadeia de exibição. Porque a Netflix, claramente, tem a sua prioridade no próprio streaming, né?”.

Impactos no cinema

O especialista acredita que o cinema pode ser o maior impactado pela venda. “A Netflix faz lançamentos no cinema muito limitados, muitas vezes, só para cumprir a cota do Oscar.”

“Então, qual que vai ser a janela de exibição? Eles vão respeitar essa cadeia produtiva do cinema? Porque eles não se importam com bilheteria. Então, qual que vai ser o espaço do cinema nisso? Do espaço físico do cinema? Eu acho que essa que é a grande discussão”, completou.

Vitor citou como exemplo a cinebiografia de Ney Matogrosso, dirigida por Esmir Filho, que foi adquirida pela Netflix causando grandes impactos no cinema. “Homem com H”, que é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, estava fazendo um público gigante nas salas de exibição, um público super significativo para o cinema brasileiro. Se não me engano, foram 600 mil espectadores de público. E, a partir do momento em que ele entra para a plataforma, a bilheteria despenca.”

“A Netflix não fornece dados públicos sobre a visualização dos filmes, sobre o impacto dos filmes, nem mesmo para os próprios produtores. Então, a situação fica sendo essa: um filme que foi produzido pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que é esse imposto que financia o cinema nacional. Esse valor estava sendo devolvido, porque também a arrecadação vem em forma de bilheteria. E isso foi interrompido, sabe? Esse é um exemplo muito ilustrativo de como as coisas podem ser prejudiciais para o mercado do cinema”, encerrou.

Patrícia Marques é jornalista e especialista em publicidade e marketing. Já atuou com cobertura de reality shows no ‘NaTelinha’ e na agência de notícias da Associação Mineira de Rádio e Televisão (Amirt). Atualmente, cobre a editoria de entretenimento na Itatiaia.

Ouvindo...