O que é constelação familiar e como funciona na prática?
A constelação familiar é uma prática que se autointitula terapêutica, e que tem despertado cada vez mais atenção das pessoas

Criada pelo alemão Bert Hellinger, que faleceu em 2019, aos 93 anos, a constelação familiar é uma prática que se autointitula terapêutica, e que tem despertado cada vez mais atenção e curiosidade de pessoas interessadas em melhorar as suas relações de vida, proporcionando um dia a dia mais saudável e consciente.
De acordo com o criador da prática, três instâncias regem a vida humana, e elas podem ser combinadas de diferentes maneiras para gerar uma melhor qualidade de vida. No caso, elas são a ordem, equilíbrio e pertencimento.
Terapeuta sistêmica e Mentora de Relacionamentos, Malu Valentim explica mais detalhadamente sobre as origens filosóficas da constelação familiar.
“A constelação familiar vai trabalhar sempre com três princípios sistêmicos que são o princípio do pertencimento, o princípio da ordem e o princípio do equilíbrio, e esses princípios são baseados na vivência do ser humano. Na antropologia, principalmente, e na percepção de que os seres humanos se desenvolveram como uma espécie que funciona bem em grupo. Então, a nossa origem é cooperativa. Nós podemos competir e isso também vai nos levar a algum lugar, mas a nossa essência é cooperativa, a nossa essência é a cooperação, porque essa é a nossa vantagem existencial”, pontua.
“Então, por mais que a gente tente ignorar essa natureza humana coletiva, colaborativa, ela está aqui influenciando não só a nossa cidade, nosso dia a dia, mas, também, a nossa família. Esses princípios foram observados nos primórdios da humanidade”, completa Malu.
Para quem é indicado a constelação familiar?
De acordo com Malu, “a constelação familiar é indicada essencialmente para adultos. Pessoas que buscam realmente uma mudança na vida delas, estão dispostas a encarar a realidade e têm a intenção de cura”.
“A constelação é somente indicada para adultos que já buscam através da psicologia, através da terapia, uma cura. Que querem superar uma trava, um bloqueio que já vem se estendendo há anos e você já tentou várias coisas e nada muda, então se você quer realmente uma visão nova, totalmente nova sobre esse problema você vai encontrar na constelação familiar, e acho que essa questão do amparo psicológico é muito importante”, observa a mentora.
Ela observa que, “se a pessoa tiver um psicológico mais fraco, se essa pessoa não tiver o apoio, se essa pessoa estiver numa condição muito limitada, ela pode, sim, passar por um processo de traumatização, porque ela não está pronta pra lidar com aquilo”, sendo necessário cuidado antes de adentrar a prática.
A constelação familiar é reconhecida pela ciência?
Malu explica que “a constelação familiar não é reconhecida pela ciência porque ela não é uma ciência”. “A consolação não se encaixa no modelo cartesiano dominante. Ela não faz questão de se enquadrar dentro da ciência, porque não segue um modelo teórico, a gente segue um método de trabalho fenomenal, que é um método filosófico e, através desse método, a gente consegue se expor ao essencial, a coisas que geralmente a ciência vai descartar, a ciência não vai considerar. A constelação é um conhecimento livre. Mas também é uma prática extremamente espiritual e meditativa”, declara.
Como funciona a constelação familiar?
Malu também explica que “a pessoa não precisa levar ninguém da família se ela quiser constelar”. “A gente constela quem está levando o tema. E muitas vezes a gente até pede para que a pessoa esteja sozinha mesmo. Para que ela não fique coibida de alguma forma”.
“A constelação familiar é uma orientação, uma forma de ver os acontecimentos, uma forma de ver os pais, e uma forma de ver a vida. Então, essa postura, obviamente, vai afetar o nosso comportamento. Mas a gente não precisa fazer nada depois que constela. O que muda é como a gente faz as coisas. É essa parte de discutir como a gente se comporta com os nossos pais e até com outras pessoas ao longo da vida que também vão refletir essa relação, como, por exemplo, na relação com o chefe, com o marido, com a mulher. A gente transforma isso”, informa Malu.
“A constelação não serve apenas para gerar uma ação efetiva do que a pessoa vai fazer agora. Mas ela sempre gera um movimento. E o movimento pode ser uma mudança de perspectiva, uma mudança de rota, um fim de ciclo, um início de um novo ciclo. O que acontece é que as pessoas conseguem devolver sentimentos muito pesados que não eram delas. Sentimento de culpa, de luto, sentimentos de tristeza, de perdas, de raiva que elas muitas vezes pegam dos seus pais, de seus ancestrais, e conseguem devolver e gerar um alívio gigantesco”, continua a mentora.
Como é feita uma sessão de constelação familiar?
Malu conta que existem várias formas de se proceder com a constelação familiar, incluindo a utilização de bonecos.
“A forma clássica você faz um grupo de pessoas, e vão ter as pessoas que vão ser consteladas. Os clientes vão ter os representantes e o constelador, que vai facilitar as dinâmicas vividas. Então a gente vai trazer essa pessoa que está querendo ver, olhar uma questão, ela vai falar o que que ela precisa. Geralmente a gente parte de um problema, por exemplo, minha vida financeira está travada, minha vida profissional está travada, eu estou tendo esse problema com o meu marido, com a minha saúde. A partir desse problema que a pessoa traz eu peço para ela escolher alguém pra representar ela mesma e alguém para representar o problema dela. Essas duas pessoas que estão nessa roda vem para o centro do e a gente observa como que ficam essas duas pessoas, que movimento elas fazem, o que elas estão sentindo e eu como facilitadora posso perguntar o que você está sentindo? O que você está com vontade de fazer? E, a partir daí, a gente vai começando a entender o que que está por trás disso. Então, é a partir de uma dinâmica de grupo que a gente faz a constelação, mas ela foi adaptada também para vários contextos, como por exemplo, o atendimento individual”.
A constelação familiar pode substituir a terapia?
Malu adverte que a constelação familiar é “fundamentalmente uma filosofia de vida. Best Hellinger, seu criador, era pedagogo e filósofo. Ele era psicoterapeuta. E, antes disso tudo, foi também sacerdote, missionário da Igreja Católica.
O método cartesiano é baseado em hipóteses, em verificação, enquanto o método fenomenal é uma forma de se abrir para o mistério, para o oculto e observar o que acontece a partir daí. Então, na constelação, a gente trabalha muito com a ideia de percepção”.
Quais os benefícios da constelação familiar?
Segundo Malu, “o principal ganho da constelação é te liberar para você viver a sua vida”. Ela relata uma experiência pessoal para aferir a tese, ao ter engravidado, de forma não planejada, ainda muito nova, com 23 anos.
“Um dos principais benefícios é fazer com que a pessoa entenda que certos padrões na vida dela, certas travas, certos bloqueios, surgem de relações e de questões mal resolvidas aqui com o passado, de formas de se conectar ao passado, que são disfuncionais. O principal ganho da constelação é permitir que a pessoa volte a ter um certo controle sobre a própria vida e sobre o próprio destino. Porque muitas vezes o que faz é se prender aos nossos pais, aos nossos familiares, até mesmo sem perceber, numa lealdade oculta e invisível porque existem coisas no passado que precisam ser vistas e, dentro da constelação, a gente entende que o coletivo faz parte do individual, porque o coletivo é a base para o individual se desenvolver”, finaliza.
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