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Como a vivência rural moldou a dramaturgia de Benedito Ruy Barbosa

Descubra o método criativo do autor que transformou memórias de fazenda e rotina no campo em novelas memoráveis sobre o mundo rural brasileiro

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Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos
Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos • Divulgação | Globo

Benedito Ruy Barbosa nasceu em uma fazenda no interior paulista e trabalhou com café e feijão antes de descobrir sua vocação para a escrita. Essa origem marcou profundamente sua trajetória como um dos autores mais importantes da teledramaturgia brasileira.

Durante mais de três décadas, ele manteve um sítio em Sorocaba onde reunia família e amigos enquanto escrevia suas novelas. Era ali, cercado pela natureza e pelas memórias do campo, que transformava vivências rurais em narrativas que alcançaram milhões de brasileiros. Segundo seu neto Bruno Luperi, ele era um contador de histórias nato que trabalhava ininterruptamente, da mesa do almoço até o jantar.

Da fazenda em Gália à capital paulista

O autor nasceu em uma propriedade rural na cidade de Gália, localizada no interior de São Paulo. Durante a infância e adolescência, trabalhou diretamente com lavouras de café e feijão, experiências que posteriormente alimentariam suas criações.

A vida mudou drasticamente aos 12 anos quando perdeu o pai, que faleceu jovem e deixou 5 filhos. Benedito assumiu responsabilidades precoces para ajudar a mãe nos anos seguintes.

Aos 17 anos, tomou a decisão de migrar para a capital paulista em busca de novas oportunidades. A mudança marcou o início de uma trajetória que o levaria da lavoura aos estúdios de televisão.

O método de trabalho no sítio de Sorocaba

Há mais de 30 anos, Benedito e sua esposa Marilene adquiriram um sítio em Sorocaba para criar um ponto de encontro familiar. O local se tornou também seu principal espaço criativo.

O autor escrevia em um escritório dentro da casa principal, com vista privilegiada para a natureza ao redor. Sua rotina de trabalho era intensa e marcada por dedicação absoluta às narrativas.

A dinâmica do processo criativo era peculiar. Bruno Luperi relata que o avô sentava à mesa do almoço e permanecia escrevendo até o jantar, sem interrupções. Quando visitantes se levantavam da mesa, ele pausava como se fosse um intervalo comercial, esperava o retorno e retomava exatamente de onde havia parado.

A neta Edmara definiu o espaço com palavras carregadas de significado: era o pedacinho de chão dele, a terra que havia sonhado a vida inteira em voltar a ter. O sítio representava a reconexão com suas raízes rurais, agora transformadas em matéria-prima para suas histórias.

Carreira jornalística e início na escrita

Os primeiros passos profissionais em São Paulo combinavam múltiplas atividades. Benedito dividia seu tempo entre os estudos noturnos e o emprego de auxiliar de guarda-livros. Para reforçar seu orçamento, também trabalhava como faxineiro em agência bancária e vendia verduras em feira.

Progressivamente, conseguiu uma posição mais estável no setor bancário. Mas o universo da escrita já exercia forte atração.

A década de 1950 marcou sua entrada no jornalismo. Em 1954, atuou como revisor no jornal Estado de S. Paulo. Posteriormente, migrou para a função de repórter na editoria esportiva do Última Hora.

Durante o período em que residiu no Paraná, escreveu seu primeiro romance. Fogo Frio foi publicado em 1959, consolidando sua vocação literária. Em seguida, trabalhou como roteirista na agência J. W. Thompson antes de descobrir a televisão.

Trajetória na teledramaturgia brasileira

A estreia como autor de telenovelas aconteceu em 1966 com Somos Todos Irmãos, produzida pela TV Tupi. Essa primeira experiência abriu caminho para trabalhos em diversas emissoras.

Antes de estabelecer vínculo fixo com a Globo em 1976, Benedito passou pelas emissoras Excelsior, Record e TV Cultura. *Durante essa fase, escreveu Meu Pedacinho de Chão***, obra que já sinalizava sua preferência temática pelo universo rural.

Na Globo, construiu um legado consistente. Assinou produções como O Feijão e o Sonho, À Sombra dos Laranjais, Cabocla, Paraíso, De Quina Pra Lua, Sinhá Moça, Vida Nova e Renascer.

Teve passagens pela Band e TV Manchete, onde realizou Pantanal, trabalho que se tornou referência na dramaturgia nacional. Posteriormente, retornou à Globo para criar O Rei do Gado, Terra Nostra, Esperança e Mad Maria, entre outras produções que consolidaram sua importância na televisão brasileira.

O campo como universo narrativo permanente

Apesar de ter deixado o trabalho rural na juventude, Benedito carregou as histórias e memórias do campo durante toda a vida. Essa bagagem se transformou no principal material de suas criações.

Tornou-se reconhecido como um dos autores que mais retratou o mundo rural em novelas. Obras como Pantanal, Renascer, Meu Pedacinho de Chão e O Rei do Gado compartilham o denominador comum da vida no campo, suas dinâmicas sociais e conexão com a terra.

A autenticidade dessas narrativas decorria da experiência vivida. O menino que trabalhou em lavouras de café e feijão nunca abandonou completamente aquele universo. Ele o preservou e reelaborou continuamente, transformando memórias pessoais em dramas que ressoaram na experiência coletiva brasileira.

O sítio em Sorocaba funcionava como ponte entre passado e presente, permitindo que mantivesse contato físico com o ambiente rural enquanto o recriava ficcionalmente. Era ali que a vivência se convertia em dramaturgia.

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