Um desastre ambiental ronda o Rio Grande do Sul. Uma importante área de preservação pode ser inundada e coloca em risco populações e o ecossistema gaúcho, em meio a um conflito familiar antigo. A coincidência com a realidade chocante é a ideia que atravessa o romance "Água Turva”, da escritora gaúcha Morgana Kretzmann, lançado pela Companhia das Letras semanas antes de enchentes arrasarem cidades inteiras do RS e deixarem Porto Alegre alagada por semanas (leia entrevista completa abaixo).
Nesta terça (21), Kretzmann, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, vem a Belo Horizonte lançar o livro no
‘Agua Turva’
Na ficção, Kretzmann entrelaça interesses de políticos dedicados (com propina) a aprovar a construção de uma hidrelétrica com a promessa de “progresso” para a região. O alagamento de parque do Parque Estadual do Turvo e a destruição de comunidades ribeirinhas parecem apenas detalhes em planilhas de ‘atingidos’.
A narrativa de "Água Turva” acompanha a jornalista Olga, a guarda florestal Chaya e sua prima Preta, líder de uma comunidade ribeirinha no lado argentino. A história retrocede aos anos 1950, quando conhecemos seus antepassados, como Sarampião, homem forte do mato que vai dar nome à reserva ambiental onde desapareceu. Com saltos entre os anos 1990 e os dias de hoje, "Água Turva” concentra, na ficção, conflitos prestes a explodir. Como na vida real, uma sequência de interesses e omissões aprofunda a catástrofe ambiental, e ninguém sabe ao certo o que esconde a água turva que cobre as cidades com a água que transborda no Sul do Brasil.
Confira a entrevista completa com a autora:
1) Água turva, um livro de ficção, atravessa um conflito sócio-ambiental, trata de uma comunidade em risco de ser alagada. Diante de tudo que acontece agora no RS, as questões do livro se tornam ainda mais urgentes?
É uma pergunta muito interessante porque as questões que o livro trata já eram muito urgentes antes de acontecer essa tragédia, que acontece justamente no estado onde se passa o livro, no meu estado. Antes de isso tudo acontecer, qualquer obra de arte que tratassem de crimes ambientais já eram urgentes. Agora, com essa catástrofe que ainda acontece, se tornam ainda mais. Eu penso que esse livro colabora, na ficção, com uma realidade que nós hoje estamos presenciando. É um aviso, é uma sirene tocando e nós não podemos mais fingir que não estamos escutando.
2) Como foi seu processo de pesquisa no Parque Estadual do Turvo, suas visitas à unidade de conservação? Quanto tempo levou para pesquisar e escrever o livro? Como surgiu a história?
Levei quatro anos entre pesquisa e escrita. Fui inúmeras vezes ao Parque Estadual do Turvo para entrevistar guardas e outros funcionários, moradores e ribeirinhos, e entender um pouco da realidade e de questões como acampamentos ilegais de caçadores. Também viajei para o lado argentino, tirei fotos e fiz entrevistas. Queria muito contar uma história sobre crimes ambientais que acontecem em fronteiras esquecidas e pouco vigiadas pelo poder publico. Nessa linguagem, queria fazer um livro policial e também de denúncia desses crimes. Tem também uma questão afetiva, pois meus antepassados são todos dessa região, meus pais moram lá até hoje. Eu nasci lá, minhas irmãs, minha sobrinha. A gente tem uma questão afetiva, são muitas histórias que se passam na fronteira oeste do estado, no alto Uruguai, entre Brasil e Argentina.
O Parque Estadual do Turvo foi a primeira unidade de conservação criada no sul do Brasil e é uma das menos conhecidas. Nele há o Salto de Yocumã, que é o maior salto longitudinal de queda d´água do mundo, um lugar incrível e mágico e mesmo assim pouco conhecido. No livro, criei uma hidrelétrica, mas esse projeto existe na verdade. É o Garabi-Panambi, que colocaria parte do parque estadual e dos lugares ao redor debaixo dágua.
3) O livro se concentra em crises familiares. Diante da ameaça de desastre ambiental, você destaca sempre que há um ser humano atingido ali. Como isso é construído?
Nós temos três protagonistas: a Chaya, que é a guarda florestal, a Olga, que é a jornalista, e a Preta, que é prima da Chaya e líder do grupo de caçadores e contrabandistas que vivem lá do lado argentino, que são os temidos pies rubros. Eles vivem seguindo suas próprias leis, é um grupo que tenta ir contra o sistema. São questões de sobrevivência, que vão além das questões ambientais e familiares. São marginalizados, e eles fazem o que é preciso para sobreviver. Eu queria muito pensar nessas comunidades esquecidas pelo poder público que precisam inventar maneiras para sobreviver. Quando Preta diz que vai continuar caçando porque cada animal que caçam é uma maneira daquelas pessoas não precisarem vender armas, drogas nem assasinar pessoas em troca de dinheiro, ela está questionando o que é certo e errado. Como autora, não ergo bandeira e não tomo lado. Quero que o leitor tente se ver nas personagens e tente pensar como seria estar no lugar de uma ou de outra.
4) Olga, Chaya e Preta têm iniciativa, cada uma a seu modo. Elas têm um jeito de tomar a frente em situações críticas para enfrentar aquilo que está consolidado. Como você pensou esse protagonismo feminino?
São três personagens muito diferentes e, ao mesmo tempo, são três personagens que qualquer mulher que ler o livro vai conseguir se identificar em algum momento. O que eu faria no lugar delas? A Chaya, que é a guarda florestal, tem como objetivo defender a terra do Parque do Turvo, que para ela vai além das questões ambientais. É um lugar sagrado, pois o o bisavô dela desapareceu naquele lugar décadas atrás e ela não tem mais ninguém na família. Defender aquele lugar é defender uma memória também. Tanto que no primeiro capítulo do livro temos cenas fortes, é porque ela tem um ódio e não mede as consequências para defender aquele lugar.
A Olga é uma assessora parlamentar de um deputado corrupto que está por trás da hidrelétrica superfaturada. A Olga quer se vingar de homens poderosos que fizeram mal a no passado e também no presente, porque ela é assediada. E a Preta, que é prima da Chaya, se desliga da família e vai morar do lado argentino comandar aquele grupo. Tudo que a Preta quer é defender sua comunidade, para ela isso é família. Preciso deixar claro aqui que é uma das personagens que eu mais gosto. É muito humana, com suas contradições.
5) Suas editoras usam o termo thriller ambiental para apresentar o livro. Em que medida esse termo explica as inundações no RS e os problemas associados para o futuro?
Este termo nasceu com minha agente literária em Frankfurt, na Alemanha. Eles nos mandaram pareceres e falavam em thriller ecológico. Eu repassei para a Stéphanie Roque, minha editora na Companhia das Letras, e outras pessoas da equipe acharam interessante e passaram a usar. Claro, a gente vê o livro muito além disso, porque trata também de assuntos sociais, políticos e de amizade. Esse termo não se encaixa com o que está acotecendo no RS hoje. O que ocorre no Rio Grande do Sul é um grande pesadelo climático, causado pelo aquecimento global e pelo negacionismo, que continua forte no Brasil e no mundo. Esse pesadelo continua sendo um problema para o futuro, enquanto a gente continuar vivendo o pesadelo do negacionismo.
6) Se alguém escrevesse que metade das cidades do RS ficaria inundada por semanas poderia ser acusado de pensar uma história inverossímil. Na sua escrita, Como você elabora esses choques entre ficção e o real? (O seu primeiro livro falava de violência contra a mulher)
A realidade sempre vai superar a ficção. Quando estava escrevendo meu primeiro livro, o “Ao pó", sobre abuso infantil e violência contra a mulher, fiz pesquisas e entrevistas, e o que encontrei foi uma realidade muito mais dura do que aquilo que estava escrevendo. Os pesadelos na vida real eram ainda piores do que os da personagem. Então escrevo 'Água Turva’, em que denuncio políticos e empresários que querem colocar parte do Rio Grande do Sul debaixo d'água e acabar com comunidades para enriquecer. Poucos ricos ficando mais ricos em cima de muitos pobres. E , com as tragédias climáticas, os mais atingidos continuarão sendo os mais pobres. Com o choque entre ficção e real, espero que a gente consiga trazer alguma esperança para as pessoas, e que esses lugares sejam habitáveis para as próximas gerações. Não se pensa no futuro, que pode ser sua própria cidade alagada e devastada. É o que Ailton Krenak disse no ‘Ideias para adiar o fim do mundo': que mundo estamos deixando para as próximas gerações?
7) No Sempre um Papo, nesta terça (21), você lança o livro e também recolhe doações para os atingidos do Rio Grande do Sul.
Eu gostaria de continuar pedindo doações para o RS. Ainda não acabou. A reconstrução de um estado inteiro, 2 milhões de atingidos direta ou indiretamente, vai ser uma reconstrução longa. Quem puder ajudar, doe. No dia 21, estaremos no Sempre Um Papo em BH e vamos receber doações para os refugiados climáticos, para as pessoas que foram atingidas. O pessoal da Cufa em Minas Gerais vai estar lá presente para recolher as doações e mandar para a triagem, para depois enviar caminhões para o RS. Eu agradeço a todos que continuam com esse sentimento de solidariedade a todo o povo gaúcho.