Agora são 7 e pouca da manhã. Muita gente já acordou, tomou café, saiu pro trabalho, foi pra escola... outros ainda vão acordar, tomar café, seguir sua rotina. Rotina permeada pela alimentação: tem café da manhã, almoço, jantar. Refeições que são fundamentais, mas não estão presentes para todo mundo. Aliás, elas faltam para cada vez mais pessoas. Essa poderia ser uma história do passado, um acordar no passado... mas é nossa realidade aqui e agora. Um duro acordar no presente.
“Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. É duro a gente vir ao mundo e não poder nem comer. Como é horrível ver um filho comer e perguntar: ‘Tem mais?’ Esta pergunta ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panelas e não tem mais”. Essas palavras, assim como a frase que você ouviu na chamada dessa matéria, são da escritora Carolina Maria de Jesus, mãe de três filhos, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, na década de 1950.
“A fome é a que mais me dói. Outro dia, meu filho, que não tinha nem um aninho, pediu leite. O outro, de quatro anos, me pediu leite com Toddy. Eu falei: ‘não tem’. Dói, a gente sofre por dentro. E não posso nem chorar na frente deles. Tenho que esperar eles dormirem para pedir a Deus, chorando, com o coração partido”. Essas palavras são de Sueli Dias, mãe de quatro filhos, moradora do Ribeiro de Abreu, periferia de Belo Horizonte. Pode até não parecer, mas mais de 70 anos separam as histórias dessas duas mães. Mas, elas são ligadas por números que gritam uma mesma palavra: fome.
Os dados mais recentes mostram que o país tem, atualmente, mais de 33 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente. Isso significa que, mais de 15% de toda a população brasileira passa fome. Em apenas um ano, foram 14 milhões de pessoas a mais sem ter o que comer.
Entre essas milhões de pessoas está a Sueli, que tinha casa, emprego, pagava aluguel, alimentava os filhos, até que tudo mudou.
“Eu saía de manhã, chegava de tarde, colocava uma pessoa para tomar conta das minhas crianças... Era uma vida normal. Não imaginava estar onde eu estou. Por conta da pandemia, eu perdi o serviço, meu marido também. Logo, (ele) ficou doente e não foi trabalhar. Assim, foi só ficando pior.” Pior a ponto da Sueli ter que sair de casa, ir morar em uma ocupação, o marido ficou doente e ela vende balas e doces no sinal para tentar sustentar os filhos, mas não dá.
“Tem dia que chega a faltar as coisas. É difícil falar, só a gente que passa sabe, né? Às vezes, um menino pede alguma coisa simples… Um biscoito, uma banana, uma fruta. E, hoje, eu não posso”, lamentou.
As lágrimas da Sueli são reflexos do sofrimento dos filhos. Eles têm 1, 4, 8 e 15 anos. O de 4 anos é doente e precisa de medicação constante, mas se mal consegue comer, remédio então virou supérfluo. Uma dor que pouca gente entende e pouca gente vê. Acham que está longe, em cidades menores, distante dos grandes centros. Mas não é assim.
“Você já pensou na criança abrindo sua geladeira sem ter nada? Às vezes, a pessoa joga uma comida fora, mas tem outra que está precisando de um pouquinho de comida. Ainda estamos no século em que muita gente passa fome”, disse.
Tanta gente que você em casa ouvindo essa reportagem não tem nem dimensão. É a primeira vez em mais de quinze anos que a fome no Brasil ultrapassou a média mundial. Antes e durante o período de pandemia alimentar do país ficou quatro vírgula quarenta e oito pontos percentuais acima da média de todos os cento e vinte países pesquisados. Só quem está nessa situação sabe como é. Sueli sabe como é. Por isso, reza por ajuda. Mas não só pra ela.
“Penso em Deus por mim e por outras pessoas. Outras pessoas estão passando por isso. Peço muito que Deus toque no coração de alguém para abençoar. É difícil.”
Difícil, no caso da Sueli, significa dormir e acordar sem saber se vai ter comida pra dar pros filhos. Uma dificuldade que Carolina Maria de Jesus relatou assim: “Estava furiosa com a vida. Com vontade de chorar, porque eu não tenho dinheiro para comprar pão”.
Mais de 70 anos depois e a Andréa da Silveira vive o mesmo. E a história será contada amanhã, na segunda reportagem da série.