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Desmonte da Funai fortaleceu narcotráfico e possibilitou morte de Dom e Bruno, diz ex-servidor

Antenor Vaz ocupou o mesmo cargo de Bruno Pereira e atuou no Vale do Javari entre 2006 e 2009

Dom Phillips e Bruno Pereira foram assassinados em meio a investigação no Vale do Javari

Nos últimos 20 anos, a região da Vale do Javari viu uma ação coordenada entre a Fundação Nacional do Índio e o Exército brasileiro acabarem com a presença de posseiros, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais e o ressurgimento dos criminosos aliados ao narcotráfico.

À Itatiaia, o ex-servidor da Funai, Antenor Vaz, que hoje trabalha como consultor internacional sobre questões indígenas, conta como se deu o processo de tomada da criminalidade em uma região isolada na Amazônia que se viu nos holofotes do mundo todo com o assassinato do indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico, Dom Phillips. Confira:

Quando o senhor atuou no Vale do Javari pela Funai, entre 2006 e 2009, o contexto era o mesmo de agora? Digo, em relação à questão do narcotráfico, da pesca ilegal, do garimpo, da da madeira ilegal e todos esses conflitos. Isso já existia?

A demarcação da Terra Indígena ela foi homologada em 2001, naquela época a terra indígena Vale do Javari estava muito invadida por posseiros, madeireiros, caçadores e pescadores. No entanto, uma ação conjunta da Funai com o Exército foi possível retirar toda essa questão. De 2001 em diante havia um certo controle da Funai, porque tinha uma equipe com a infraestrutura bem suficiente de recursos humanos que fazia frente a todas essas questões. Quando eu cheguei em 2006 a situação estava sob controle. Nós conseguimos ter ações preventivas. Aqui e acolá acontecia a entrada de um caçador, de um pescador, mas a gente conseguia ter uma ação bastante efetiva. De 2006 a 2009 permaneceu dessa forma. 

E quando foi que a situação começou a ficar mais complicada? 

A partir de 2016, 2017 é que, com o sucateamento da Funai, as equipes não conseguiam mais fazer expedições de fiscalização. Então, paulatinamente, começou o retorno de caçadores e de pescadores e em 2017 e 2018, principalmente com afrouxamento das leis ambientais e o sucateamento total da Funai na região e dos órgãos de segurança, voltaram à tona todas as questões. 

Foi aí que o narcotráfico começou a atuar nessa região? 

O agravante é que, a partir de 2019, o crime organizado, o narcotráfico aliou-se a todos esses ilícitos, ou seja, madeireiros, caçadores, pescadores e garimpeiros, que hoje também estão dentro da terra indígena. Então, de 2019 em diante houve um acréscimo considerável dos ilícitos. O crime organizado introduziu o armamento bélico, que trouxe risco de vida para todos ali na região.

Como se deu o sucateamento dos órgãos públicos e qual é a presença do Estado brasileiro no Vale do Javari? 

Então, na época em que eu trabalhei lá já existia o Ministério Público, a Polícia Federal, os Comandos do Exército, da Marinha, da Aeronáutica. Todos eles tinham. O Exército, especificamente, tem dois pelotões: um que fica no rio Javari, muito distante dessa região onde aconteceu o crime, que chama Palmeiras de Javari, e um outro pelotão no rio Solimões, que se chama Estirão do Equador. Esse é especificamente para a questão do controle do tráfico, né? Então, todos esses já existiam lá e hoje continuam com essa mesma estrutura. Não é correto dizer que o Estado está ausente. Ele está presente na região, mas não consegue fazer ações para combater o narcotráfico e os ilícitos. É um número muito inferior de pessoas que seriam necessárias ali para fazer essa fiscalização. Não posso falar dessas instituições que eu disse, porque não sei o efetivo deles, mas sobre a Funai, quando eu estive lá havia um efetivo, que não era o ideal, mas era um efetivo suficiente para fazer frente às invasões na terra indígena Vale do Javari. Ocorre que, com a periculosidade que passou a existir na região, muitos servidores foram transferidos, muitos aposentados e o que resta hoje em dia lá é absolutamente insuficiente.

De 2019 em diante houve um acréscimo considerável dos ilícitos. O crime organizado introduziu o armamento bélico, que trouxe risco de vida para todos ali na região

Em 2019 houve o assassinato do indigenista Maxciel Pereira dos Santos em Tabatinga. Agora, do Bruno e do Dom. Esse desmonte da Funai e da fiscalização como um todo na região está ligado a esses crimes? 

Sim, estão ligados né? Para além do assassinado do Maxciel dos Santos, agora, com o assassinato dos dois, do Bruno e do Dom Phillips, também aconteceram entre 2018 e 2021oito ataques à base de proteção da Funai, que fica na entrada da terra indígena, exatamente na confluência do rio Ituí com Itaquaí. Grupos organizados se postavam com vários barcos de frente à base e alvejavam, atiravam com armas de grosso calibre. Nesses casos, do Maxciel e das bases, eles têm inquérito aberto pela Polícia Federal e até hoje não se tem solução para os casos. O que a gente espera é que esses dois casos, junto com o do Bruno e do Dom Phillips, tenham uma elucidação clara de quem cometeu esses crimes e quem são os mandantes, né? 

Não é correto dizer que o Estado está ausente. Ele está presente na região, mas não consegue fazer ações para combater o narcotráfico e os ilícitos

Antenor, o senhor teve contato com o próprio Bruno durante o período que você estava trabalhando na Funai?

Eu entrei em 1989 e saí em 2013 e o Bruno entrou lá em 2010. Então, ele faz parte de uma nova geração da Funai. Mas eu tive muitos contatos com o Bruno. 

E como era esse trabalho, de vocês dois, na região? 

O Bruno tinha um papel muito importante porque ele era aquele tipo de pessoa que, a meu ver, confundia o próprio projeto de vida com um projeto de trabalho. Neste sentido, ele conseguia ter uma relação extremamente forte com os grupos indígenas com os quais ele tinha contato e tinha uma facilidade muito grande de comunicação com a sociedade civil e com as instituições do Estado. E, em uma linguagem comum, ele “comprou a luta”, né? Ele vivenciava a luta cotidianamente. O Bruno era aquela pessoa que tanto tem um perfil de ser um administrador, ou seja, gestor de pessoas como também era uma pessoa que tinha uma qualidade de ação no campo. 

O Bruno Pereira coordenou uma expedição importante de contato com povos isolados em 2019, pouco antes de ser exonerado. Ele chegou a comentar com o senhor ou com amigos sobre ameaças ou sobre a saída dele do cargo na Funai e as dificuldades enfrentadas lá? 

Meu maior contato com o Bruno foi exatamente no período em que ele estava pedindo licença da Funai, né? Ele tinha sido exonerado do caso e não encontrava mais espaço dentro da instituição para exercer as suas atribuições, né? E, nesse sentido, ele estava bastante angustiado. Ele estava residindo em Brasília e, como eu resido em Brasília, ele me procurava com bastante frequência para conversar um pouco sobre essa questão. Então, o que eu posso dizer é que o Bruno, a partir do momento que ele foi exonerado até o período de licença, ele teve um período muito grande de angústia devido à impossibilidade de fazer valer o que está escrito na Constituição e nas políticas indigenistas.

O Bruno tinha um papel muito importante porque ele era aquele tipo de pessoa que, a meu ver, confundia o próprio projeto de vida com um projeto de trabalho

Sem ele à frente do cargo dentro da Funai, como ficaram as ações de fiscalização? 

Do ponto de vista da Funai, eu posso te dizer com certeza que, a partir de 2019 foram realizadas poucas expedições ou ações de fiscalização, justamente nessa questão de proteção de isolados só foram realizadas expedições quando o grupo o Bruno estava na coordenação. Com a saída dele, entrou no seu lugar um um pastor evangélico fundamentalista [Ricardo Dias Lopes] que tinha outros interesses. Então, esse pastor não desencadeou nenhuma operação. 

Quais as conclusões que o senhor tira sobre o assassinato do Bruno e do Dom? 

O assassinato do Bruno e do Dom Philips é o exemplo concreto de como o Estado brasileiro, a partir de um discurso permissivo que favorece o garimpo em terra indígena possibilita e fortalece a ação ilícita, né? Então, nesse sentido, eu acho que a morte do Bruno pode não ter um culpado direto mas, indiretamente, o discurso do Poder Executivo hoje favorece que ações como essas venham se repetir. 

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