Transição energética: novas oportunidades econômicas para o Brasil
Brasil vê na transição energética e na descarbonização grandes oportunidades econômicas, com representantes do governo e da indústria destacando o mercado de carbono, investimentos em mineração de baixo carbono e soluções adaptadas para energia e transporte

Representantes do governo e do setor produtivo debateram nesta quinta-feira (5) o potencial econômico da descarbonização para o Brasil, destacando as novas oportunidades de negócios geradas pela transição energética em setores como mineração, energia e transporte. O debate ocorreu durante o primeiro painel do CNN Talks – A Economia da Transição.
A secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, anunciou que a primeira fase de implementação do sistema de mercado regulado de carbono será concluída até dezembro. Esta etapa envolve a publicação das normas essenciais para o funcionamento do mercado, que permitirá a negociação de cotas de emissão de gases de efeito estufa (GEE) entre empresas. "Estamos implementando a lei. Essa implementação se dá em fases. A primeira, que termina agora em dezembro, é referente à publicação das principais normas, que são a base desse mercado", afirmou Reis.
O modelo estabelece limites de emissão para empresas de setores regulados, com base em um Plano Nacional de Alocação. Operadores que emitirem mais de 25 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) por ano estarão sujeitos a obrigações de conciliação de emissões. Empresas que reduzirem suas emissões além do necessário poderão comercializar cotas excedentes, enquanto as que ultrapassarem os limites deverão adquirir ativos para compensar. A previsão é que o primeiro plano entre em vigor a partir de 2030.
Cristina Reis também ressaltou que o mecanismo pode incentivar novos projetos de redução de emissões em áreas como agricultura, energia renovável, gestão de resíduos e saneamento, gerando mais oportunidades econômicas ligadas à descarbonização.
A importância dos instrumentos de financiamento para viabilizar esses investimentos também foi frisada pela secretária. Entre as iniciativas, foram mencionados o Fundo Clima e o programa federal Eco Invest Brasil, que busca mobilizar capital privado para projetos sustentáveis. Segundo o governo, o Eco Invest Brasil já mobilizou mais de R$ 190 bilhões em investimentos por meio de cinco leilões, utilizando recursos públicos para atrair financiamento privado e apoiar a transformação ecológica.
No setor mineral, a crescente demanda por minério de ferro de alto teor e a produção de aço de baixo carbono abrem uma janela de oportunidades para o Brasil. Rodrigo Uchoa, diretor de Comunicação Corporativa da Cedro Mineração, destacou projetos siderúrgicos internacionais que visam a redução drástica das emissões de carbono.
Uchoa citou como exemplo uma instalação em desenvolvimento em Boden, na Suécia, que promete diminuir em até 95% as emissões em comparação com métodos tradicionais. "Essa indústria promete diminuir 95% sua emissão de carbono. Para que ela faça isso, precisa do minério verde. Isso é uma realidade. Quando falamos em minério verde, não é um futuro distante, estamos falando logo ali na esquina. O Brasil está se colocando nessa cadeia como um elo essencial", afirmou.
A Cedro Mineração já investe na produção de pellet feed de alto teor, um minério fino usado na fabricação de pelotas para a siderurgia, atendendo à demanda por processos mais eficientes e com menores emissões. A rastreabilidade dos produtos minerais também foi apontada por Uchoa como crucial para atender exigências de mercados como o europeu, agregando valor aos produtos brasileiros.
Para Fabiana Molina, diretora Jurídica e de Relações Institucionais da Ultragaz, a transição energética exige uma combinação de soluções tecnológicas, adaptadas às necessidades de cada atividade econômica. "Quando falamos de transição energética, não falamos apenas sobre uma solução. O produto que vai ser utilizado é aquele que vai mais se adaptar àquela necessidade", explicou.
A Ultragaz tem expandido sua atuação, investindo em biometano e energia elétrica, além do gás liquefeito de petróleo (GLP). Fabiana avalia que o biometano possui condições favoráveis para se consolidar no mercado brasileiro, impulsionado por avanços regulatórios, incentivos governamentais e o interesse dos consumidores.
A necessidade de conciliar descarbonização e viabilidade econômica foi sublinhada por Vinicius Ladeira, representante da CNT (Confederação Nacional do Transporte). Ele enfatizou que não há uma solução única para reduzir as emissões no transporte, dadas as diferentes demandas operacionais.
Entre as alternativas, Ladeira mencionou caminhões movidos a biometano e o uso de financiamentos como o Fundo Clima. "Existe um mito de dizer que a descarbonização precisa ir numa direção contrária à competitividade da economia. Transportes é um setor que está mobilizado em encontrar soluções na diminuição de poluentes, e isso precisa ser economicamente viável", declarou.
As discussões reforçaram que a transição energética envolve tanto o desenvolvimento tecnológico quanto a criação de um ambiente econômico favorável. Os participantes concluíram que o progresso dessa agenda dependerá da combinação de investimentos, segurança regulatória e soluções que atendam às especificidades de cada setor produtivo.
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