Risco Brasil eleva juros e derruba bolsa após eleição, avalia economista
Especialista do BTG Pactual atribui movimento às preocupações dos investidores com o risco estrutural do país e à incerteza sobre os planos do governo

Os juros futuros registraram fortes altas no mercado financeiro brasileiro desde segunda-feira (26), no primeiro pregão após a eleição presidencial, com avanços superiores a 250 pontos-base em alguns contratos. O movimento, que também levou à queda do mercado de ações e à desvalorização do real, foi atribuído por Jerson Zanlorenzi, head da mesa de derivativos do BTG Pactual, às preocupações dos investidores com o risco estrutural do país e à incerteza sobre os planos do novo governo, em entrevista à CNN Money.
O pregão foi marcado por volume e intensidade acima do comum. Segundo Zanlorenzi, foram negociados R$ 140 bilhões na Bolsa, valor aproximadamente três vezes maior que a média diária de R$ 30 bilhões a R$ 40 bilhões dos dias anteriores.
O "circuit breaker" chegou a ser acionado após uma queda de 15% na Bolsa, fazendo com que o dia se encaminhasse para ser o pior desde março de 2020, início da pandemia. No mercado de câmbio, o real brasileiro registrou sua pior performance desde 1999.
Nas duas ou três semanas que antecederam a eleição, investidores haviam aumentado a exposição a risco em seus portfólios, adicionando ações de setores como construção civil, varejo, shopping centers e o setor financeiro — todos potencialmente beneficiados por uma possível redução dos juros.
Com a virada do resultado eleitoral, esses investidores precisaram desfazer suas posições rapidamente para readequar o perfil de risco. "O mercado fica vazio na compra, como a gente fala, cai em queda livre", explicou Zanlorenzi. Papéis considerados líquidos chegaram a registrar quedas de 30%, 40%, 50% e até 60% em um único dia.
Zanlorenzi destacou que a magnitude da queda reflete uma preocupação mais profunda com o risco estrutural e o longo prazo do Brasil.
A parte curta da curva de juros permanece pressionada por fatores como inflação elevada, petróleo a 113 dólares o barril e desvalorização cambial — fatores que dificultam a perspectiva de cortes na taxa Selic.
Já a parte longa da curva também registrou alta significativa, com alguns vértices subindo entre 2% e 2,5%, refletindo preocupações com a trajetória da dívida pública brasileira.
"O Brasil realmente precisa de algumas medidas estruturais, reformas que realmente reduzam o risco Brasil", afirmou o especialista, acrescentando que, com a taxa livre de risco próxima a 14%, fica difícil justificar grandes investimentos de longo prazo.
Questionado sobre até onde poderia ir o movimento, Zanlorenzi avaliou que o mercado deve continuar adicionando prêmio de risco enquanto não houver clareza sobre os planos do governo e medidas concretas que possam ser executadas.
"O mercado não deve dar o benefício da dúvida enquanto não acontecer nada muito concreto", disse, projetando que investidores devem continuar pressionando o dólar, a curva de juros e o mercado de ações.
Ele também ponderou que, com a volatilidade elevada, fica difícil montar novas estruturas de derivativos, pois a relação entre custo e potencial de ganho se torna desfavorável.
A retomada do apetite ao risco, segundo ele, deve ocorrer apenas quando o índice se estabilizar em um determinado patamar de preço e a volatilidade começar a recuar.
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