Habib’s em recuperação judicial: o que explica a crise financeira da rede
Empresa atribui a crise a fatores como a pandemia de Covid-19, a mudança nos hábitos de consumo no setor de fast-food e o cenário macroeconômico, incluindo a alta da Selic; dívida bancária ultrapassa R$ 300 milhões

O Grupo Gennius, responsável por marcas como Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, entrou com pedido de recuperação judicial devido a uma série de "adversidades econômicas e financeiras" que impactaram significativamente sua estrutura de capital e liquidez. O pedido, formalizado na Justiça, detalha três principais motivos para a necessidade de reestruturação.
A pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022, é apontada como o principal fator desencadeador da crise. O documento explica que, neste período, houve um "descompasso entre os investimentos feitos – lojas e mais lojas do Grupo Gennius para atender à demanda aos grandes centros de aglomeração, como shoppings centers e centros urbanos das principais cidades brasileiras – e a receita obtida".
Mesmo com a flexibilização das restrições sanitárias, os efeitos da pandemia se mostraram permanentes em diversos aspectos. Um exemplo que o Grupo Gennius busca apontar é a adoção do trabalho híbrido e remoto, que reduziu a circulação diária de trabalhadores nos centros urbanos, "quebrando o fluxo de consumidores que iam às lojas durante seus deslocamentos cotidianos".
Além disso, a pandemia gerou uma "mudança dos hábitos de consumo que impactou diretamente o setor de fast-food". As plataformas de marketplace de restaurantes, embora aliadas na venda, "levaram à compressão das margens dos restaurantes físicos". Ou seja, as pessoas passaram a pedir mais comida em casa em vez de frequentar os estabelecimentos. "Em suma, o setor passou a observar, em diferentes mercados e regiões, alterações relevantes no comportamento de seus consumidores, caracterizadas pela redução da frequência de visitas nas lojas físicas, circunstâncias que impactaram negativamente seus resultados operacionais", conclui o documento. Essa mudança, aliada à crescente popularidade das plataformas de entrega, fez com que redes de fast-food encarassem desafios significativos.
Outro fator determinante foi "o cenário macroeconômico extremamente adverso", com a elevação "abrupta" da taxa básica de juros, a Selic, que chegou a 15% ao ano. O documento destaca que "o ciclo de elevação das taxas de juros observado nos últimos anos aumentou substancialmente o custo de captação de recursos necessários à manutenção de suas atividades, à administração de seu capital de giro e ao cumprimento regular de suas obrigações financeiras".
Consequentemente, o custo das dívidas contraídas pelo grupo, majoritariamente durante a pandemia, teve um "aumento expressivo e inesperado nas taxas de juros", impactando fortemente o capital de giro, gerando inadimplências com fornecedores e problemas na operação. O grupo informa no pedido de recuperação que possui uma dívida bancária superior a R$ 300 milhões com diversas instituições financeiras.
"Diante do endividamento bancário elevado, parcela cada vez maior do fluxo de caixa gerado pelas atividades da companhia passou a ser absorvida pelo serviço da dívida, limitando sua capacidade de investimento, restringindo sua flexibilidade financeira e agravando o quadro de desequilíbrio econômico-financeiro que culminou no presente pedido recuperacional", afirma o texto.
Antes do pedido oficial de recuperação, a empresa já havia solicitado tutelas cautelares de urgência para negociar a dívida e proteger temporariamente a operação, suspendendo cobranças e execuções. Os advogados do Grupo Gennius afirmaram que o prazo prévio de 60 dias de proteção patrimonial ajudou a "construir um ambiente de negociações entre as Requerentes e seus credores". Com isso, "suspenderam-se as execuções judiciais e medidas administrativas coercitivas/constritivas decorrentes e/ou relativas aos créditos que eventualmente se sujeitariam a uma recuperação judicial".
No entanto, apesar de ter promovido "algum fôlego financeiro" e criado um "ambiente propício para uma negociação coletiva", o período de tutela cautelar não foi suficiente. O Grupo Gennius notou a "necessidade de se promover uma restruturação global" de seu endividamento, vendo a recuperação judicial como o "meio mais eficiente".
Apesar do cenário desafiador, o grupo enfatiza que a medida faz "parte de seu processo de reestruturação financeira, com o objetivo de preservar a sustentabilidade e a evolução do negócio no longo prazo", e demonstra confiança na superação da situação. "Por sua vez, a expertise das Requerentes no setor alimentício, somado à reestruturação do Grupo Gennius e os sinais de retomada do mercado após um cenário de aumento expressivo dos juros, evidenciam a viabilidade econômico-financeira do Grupo", conclui o documento. O caso do Grupo Gennius se soma a outras empresas que recorreram ao mecanismo, como a gigante do varejo Americanas.
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