Tarifaço de Trump: Brasil terá 11 setores do agro em audiência nos EUA
Representantes do agro e da indústria brasileira se preparam para audiência do USTR em Washington, onde apresentarão argumentos contra as tarifas comerciais propostas pelos Estados Unidos

Representantes do setor produtivo brasileiro, incluindo nomes do agro e da indústria, afina a argumentação para a audiência do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) em Washington, nesta segunda-feira (6).
O objetivo é debater as tarifas comerciais propostas pelo governo Donald Trump, pela seção 301, e convencer os americanos do impacto econômico, como a inflação, que as sobretaxas em matérias-primas brasileiras podem causar.
Mais de 70 brasileiros, entre representantes de cadeias produtivas, especialistas em diplomacia e economia, e políticos, estarão presentes no encontro marcado pelo USTR. Do setor produtivo, 11 representantes do agro brasileiro terão direito à fala, juntamente com 12 do agro americano.
Uma "queda de braço" é esperada entre o setor agropecuário do Brasil e algumas entidades setoriais dos EUA, especialmente no setor de biocombustíveis. A RFA (Renewable Fuels Association), associação de produtores de etanol dos Estados Unidos, defende a imposição de tarifas recíprocas, alegando prática comercial desleal por parte do Brasil.
Para embasar sua defesa, a RFA encomendou uma pesquisa que indica a crescente força dos combustíveis renováveis entre o eleitorado americano, em meio ao debate sobre segurança energética e alta da gasolina. O levantamento aponta que 74% dos eleitores registrados apoiam o RFS — programa federal que obriga a mistura de biocombustíveis aos combustíveis fósseis —, o maior patamar de apoio em uma década. Apenas 12% se declararam contrários à política.
A pesquisa também revela que 87% dos entrevistados consideram a independência energética dos EUA importante, e 80% veem os combustíveis renováveis, como o etanol, como cruciais para atingir esse objetivo. É com base nesses dados que a defesa das tarifas recíprocas é sustentada.
A RFA avalia que esses números reforçam a percepção de que o etanol produzido domesticamente contribui para reduzir a dependência do país de fontes externas de energia, além de beneficiar a economia rural e ofertar combustíveis mais acessíveis.
A entidade ainda argumenta que a independência energética dos EUA depende do fortalecimento do setor interno. Contudo, analistas de mercado defendem que os Estados Unidos dependem da compra de produtos de fora.
Do lado brasileiro, fontes ligadas ao debate expressam receio de que a indústria americana perca espaço devido ao nível de qualidade e competitividade dos itens exportados pelo Brasil, citando a indústria de café como exemplo.
Aguinaldo Lima, diretor executivo da ABICS (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel), explicou à CNN Agro que os norte-americanos já perceberam mudanças nos blends de café comercializados pela falta do produto brasileiro. Ele alerta que qualquer nova taxa sobre o café brasileiro resultará em aumento de preços para o consumidor americano.
Os EUA, que eram os maiores compradores de café solúvel brasileiro, perderam o posto para a Alemanha no final do ano passado. Lima atribui essa mudança ao fato de "as tarifas sobre o café solúvel continuarem em 10%".
No segmento de carnes, mesmo que o Brasil deixe de vender sem tarifas para os EUA, frigoríficos de origem brasileira com plantas industriais instaladas em países vizinhos latino-americanos continuarão abastecendo o mercado americano. Isso ocorre em um momento de baixa histórica do rebanho americano nos últimos 70 anos. Analistas de mercado brasileiros ressaltam que, indiretamente, os consumidores americanos continuarão consumindo hambúrgueres com relação ao produto brasileiro.
Em seus últimos relatórios, o Itaú BBA destacou que a indefinição comercial, somada à instabilidade geopolítica, torna ainda mais complexo o custeio e o escoamento de safras agrícolas, enquanto o Brasil busca driblar prejuízos com outros mercados.
A audiência abordará diversos temas além do agro, com 14 painéis programados para começar às 10h, pelo horário de Washington (EUA). Os representantes dos setores terão até 5 minutos para apresentar um sumário executivo defendendo a cadeia que representam.
Pode haver questionamentos por parte do USTR e um momento para réplica. No entanto, segundo fontes ouvidas pela CNN Agro, a argumentação deverá ser rápida e focada nas consequências econômicas caso as tarifas sejam implementadas.
Os setores tiveram até 1º de julho para encaminhar a argumentação por escrito, que servirá de base para a leitura e apresentação na próxima segunda-feira (6).
Andressa Silva — Associação Brasileira da Indústria do Arroz
Vinicius Vanzella — Associação dos Fabricantes de Gelatina da América do Sul
Marcelo Schunn Junqueira — Sociedade Rural Brasileira
Fernanda Carneiro — Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
Marcos Matos — Conselho dos Exportadores de Café do Brasil
José Luiz Pimenta Junior — Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel
João Marcelo Messas — Associação Brasileira dos Exportadores de Mel
Andrea Almeida — União Nacional do Etanol de Milho
Welber Barral — União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia e Indústria Brasileira de Árvores
Gian Carlo Almeida Marodin — Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente
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