De Contagem para o Oscar e a Netflix: produtora mineira premiada ganha o mundo
Produtora 'Filmes de Plástico', nascida na periferia de Contagem (Grande BH), ganha projeção com filmes, séries nas telas de cinema e nos streamings

De Contagem para o mundo: uma produtora que nasceu na periferia da Região Metropolitana de Belo Horizonte vem ganhando espaço no cinema internacional. A Filmes de Plástico construiu uma trajetória fora do padrão e hoje tem produções nos cinemas do Brasil e no exterior, além de trabalhos feitos para plataformas de streaming.
Para contar essa história, a Itatiaia conversou com Maurílio Martins. Ele falou sobre como começou no cinema, a parceria com Gabriel Martins, André Novais Oliveira e Thiago Macêdo Correia e a criação da Filmes de Plástico. Segundo ele, a trajetória foi marcada por acaso e insistência - um caminho que define como “torto”.
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Casa religiosa e sem televisão
Nascido em 1978, Maurílio cresceu no bairro Laguna, em Contagem, em uma casa sem televisão por motivos religiosos. Nos anos 1980 e 1990, quando a TV era a principal forma de acesso à informação, ele se aproximou do mundo por meio da leitura, do rádio e dos jornais.
“Sou muito filho do rádio e dos jornais dentro de casa”, conta. O Almanaque Abril era sua principal fonte de informação — uma espécie de “internet” da época — onde conheceu temas como o Oscar e o Festival de Cannes.
Naquela época, ser cineasta nem passava pela minha cabeça. “Eu achava que seria escritor”, disse, lembrando de quando ganhava prêmios na escola pelas melhores redações. A professora de português do primário sempre dizia: “Ah, você escreve muito bem, você cria histórias”. Mas ele não tinha ideia de como organizar essas histórias.
Ele contou que, um dia, estava com amigos na rua quando alguém comentou sobre um filme que tinha assistido, exibido de madrugada na Band. Na época, aquilo parecia inacessível para ele. Com medo de ser 'zoado' pela turma por não ter TV em casa, ele disse que havia visto na casa de um primo.

“E aí comecei a inventar sobre o filme. Fiquei ali por, sei lá, 15 ou 20 minutos com uma pequena plateia maravilhada com o que eu estava contando”, contou.
Foi nesse dia que ele se deu conta do seu "dom" e passou a criar mais e mais histórias. "Passei a fazer aquilo com mais constância. Comecei a inventar filmes e desenvolvi uma predileção por falar de cinema oriental, porque era algo pouco acessível. Como as pessoas não tinham visto esses filmes, eu podia criar versões cada vez mais complexas", disse.
Um dia, ao contar uma história para a irmã durante o longo caminho do Centro de Belo Horizonte de volta ao bairro Laguna — já que, na época, não havia linha direta —, algo mudou.
“Fui contando para minha irmã, que é três anos mais velha do que eu, a história de um filme qualquer, tudo improvisado, sem preparar antes. Quando chegamos, ela disse: ‘Nossa, eu amei essa história. Eu sei que esse filme não existe’. Fiquei com vergonha, constrangido, e parei de contar. Mas esse episódio ficou marcado”, explicou.

Aqui vale um pequeno pulo para 2025: para quem assistiu a ''O Último Episódio'', lançado no ano passado, a história soa familiar — e é. Com elementos autobiográficos, o filme é ambientado nos anos 1990 e inspirado em memórias da infância do próprio diretor que, naquela época, ainda não imaginava que estaria hoje nos principais tapetes vermelhos de festivais mais importantes do mundo.
O curta e a possibilidade
Quando ele tinha 13 anos, um professor levou um videocassete, novidade nas escolas públicas da periferia, e exibiu o curta “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado. O impacto foi imediato. Logo na primeira cartela, com a frase “Deus não existe”, ele lembra que “deu uma bagunçada” na sua cabeça, por causa da criação religiosa. Ao fim do filme, veio a certeza: “Eu quero ser cineasta”.
Segundo ele, a motivação não foi poética, mas simples. Era a primeira vez que via um curta-metragem (filme com até 15 minutos de duração) falado em português e com linguagem documental, o que mostrou que o cinema era algo possível. “Acesso é tudo. Você abre portas, escancara mundos. Às vezes, não precisa de poesia, basta mostrar”, afirmou.
Ele lembra que, até então, o cinema que chegava até ele era majoritariamente o americano, visto como algo distante e inalcançável.
"Eu já tinha visto cinema americano e, claro, também cinema brasileiro — assistia a ''Os Trapalhões'' e produções do tipo. Para mim, Renato Aragão estava no mesmo nível de qualquer grande ator da época. Ainda assim, o cinema brasileiro que chegava até mim parecia algo grandioso, feito nos mesmos moldes do cinema americano, o que dava a sensação de que aquilo era distante e praticamente impossível de alcançar", contou.
O caminho até a universidade
Daí até chegar à universidade de cinema, o caminho foi longo. Maurílio trabalhou em fábrica e em açougue, atuou com fotografia de casamento e batizado e teve a carteira de trabalho assinada diversas vezes. Também passou pela construção civil em Portugal, onde viveu como imigrante ilegal e enfrentou a depressão. Nos estudos, abandonou a escola e retomou mais tarde, concluindo o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). A primeira tentativa no ensino superior foi o curso de Pedagogia, no qual cursou cinco semestres.
"Aos 25 é que eu crio coragem pela primeira vez de externar esse sonho, de virar e conversar com as pessoas mais para falar: 'Olha, eu sei que eu sou quase um caso perdido, que eu não paro em emprego, que minha vida é toda torta'". Mas ele ia tentar o que parecida impossivel, uma vaga para estudar cinema.
Aos 28, conquistou uma bolsa integral do ProUni, tirando total na redação, e entrou na faculdade levando uma bagagem muito diferente da dos colegas mais jovens.
Mas, para ele, a caminhada foi fundamental para sua formação. Ele próprio cita uma lição do cineasta Werner Herzog - diretor de 'Aguirre, a Cólera dos Deuses' (1972) e Nosferatu – O Vampiro da Noite' (1979) — que defende que a experiência de vida é matéria-prima do cinema: “Se você quer fazer filmes, viva. Vá ser porteiro, vá ser verdureiro, vá… Beba, caia na rua, viva”.

O grande encontro
Com 28 anos, Maurílio começou as aulas no Cinema e Audiovisual no Centro Universitário (UNA), na capital mineira. Mesmo vindo de uma rotina noturna, ele escolheu estudar de manhã sem saber exatamente o motivo. Ao se apresentar, a grande suspresa - que só o destino pode explicar:
“Quando cheguei ao curso, logo no primeiro dia, tivemos que nos apresentar. Quando chegou a minha vez, eu disse: ‘Olha, eu me chamo Maurílio, estudei Pedagogia por cinco semestres, larguei, sempre quis fazer cinema e agora estou aqui. Sou bolsista do Prouni e moro no Laguna, na periferia de Contagem’. Ao meu lado estava o Gabriel, que eu nunca tinha visto na vida, um moleque que tinha acabado de completar 18 anos. Ele virou para mim, com um brilho muito puro no olhar, e falou: ‘Cara, eu moro no Milanez’. Aquilo foi muito doido, porque, aos 28 anos, eu nunca tinha imaginado que pudesse existir alguém interessado em cinema naquela região inteira”, contou, emocionado.
Eles firmaram um vínculo imediato, que viria a marcar o cinema brasileiro de hoje em dia. “Isso me dá muita emoção de falar, porque não foi um encontro completamente ao acaso. Foi um momento em que duas pessoas se uniram e, a partir dali, se conectaram a outras. Hoje, a gente está aí fazendo um trabalho que, independentemente do que aconteça daqui para frente, eu acho que vai perdurar e ficar para a história”, conta.

Maurílio diz que a universidade em BH nunca foi um plano para Gabriel, que inicialmente mirava cursos de audiovisual em São Paulo ou no Rio e chegou a tentar a Universidade de São Paulo (USP). Sem passar, fez cursinho e, quase por acaso, prestou o vestibular apenas para se testar - acabou passando em primeiro lugar e conquistando bolsa integral.
Ele conta que Gabriel já tinha uma vivência maior no cinema: havia realizado dois curtas, um deles exibido no Festival de Tiradentes e pela Escola Livre de Cinema, onde conheceu André e Thiago. Foi a partir dessa aproximação que Maurílio teve o primeiro contato com um set de filmagem e com a câmera, aprendendo conceitos técnicos enquanto realizava seu primeiro curta. Cerca de um ano depois, veio a apresentação a André e Thiago - encontro que daria origem à Filmes de Plástico tempos depois.
O primeiro núcleo da produtora foi formado por Maurílio, Gabriel e André, unidos por afinidades que iam além do cinema: os três moravam na periferia, torciam para o Cruzeiro e gostavam do Real Madrid. "Os riscos eram muito altos para que esse encontro não acontecesse, sabe? E ele aconteceu na única probabilidade possível. Talvez existisse uma chance, e a gente foi nela sem saber", disse.
Filmes de plástico
Em 2008, o trabalho coletivo começou a ganhar forma a partir de um curta-metragem que nasceu de uma ideia de Gabriel. “Eu atuei e ajudei na produção, e o Tiago fez a direção de produção. Ali começava a se formar o núcleo da Filmes de Plástico. O curta 'Filme de Sábado' (2009) foi gravado na porta e dentro da casa dos pais de Gabriel, onde eles moram até hoje”, lembrou.
“E a partir desse filme, montando tudo, a gente falou: ‘Agora aquele sonho de montar a produtora se consolidou. A produtora existe, a gente tem um filme’. Estávamos finalizando o DVD para mandar para festivais e percebemos que precisávamos dar um nome a isso tudo. Um dia, na fila do banco, depois de uma conversa longa com o Gabriel sobre a dificuldade de encontrar um nome, eu virei para ele e falei: ‘Cara, e se chamar Filmes de Plástico?’. Ele me olhou e respondeu na hora: ‘Caralho, que fod*! Adorei o nome’”, contou.

Foi na casa de Gabriel que veio o insight. "Em certo momento, ele [personagem] pega uma baleia - uma orca de plástico - e leva para o pátio da casa. Foi aí que Gabriel teve a ideia de usar a baleia como símbolo da produtora", disse. Assim, a Filmes de Plástico nasceu, oficialmente, em 2009.
Na corrida para o Oscar
O curta “Contagem” (2010), filme feito como trabalho de conclusão de curso, retrato do cotidiano de Contagem e de personagens comuns, marcou a chegada do grupo aos festivais, com destaque para o Festival de Brasília, onde venceu Melhor Direção, e para Cannes, em 2013, que projetaram o cinema da Cidade Industrial, Contagem, para o Brasil e o mundo.
Já “Marte Um” foi o grande divisor de águas: ampliou o público fã de cinema, superou 100 mil espectadores, circulou no Brasil e no exterior, estreou em Sundance (de forma online, por causa da covid-19), passou por Gramado e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar, chegando a lista dos 15 pré-selecionados na categoria Melhor Longa Internacional na cerimônia de 2023. Apesar de não ter entrado na corrida oficial, o filme lotou salas de cinema da capital mineira, que torceu e se emocionou com a história da família negra dos Martins, que vive à margem de uma grande cidade.
Apesar do reconhecimento, Maurílio aponta que o principal desafio ainda é a exibição dos filmes. Produções como ''O Último Episódio'' (2025), que teve excelente recepção de crítica e público, não alcançam números compatíveis com esse impacto.
Para o cineasta, a distribuição é fundamental também como ferramenta de formação. “Uma criança ou um jovem pode assistir a um filme e pensar: ‘Eu consigo fazer isso. Eu também quero contar histórias, registrar minha vida, meu lugar, minha aldeia, meu povo’”, disse.
Segundo ele, o fortalecimento do cinema brasileiro depende de toda essa cadeia. “A gente só vai conseguir fazer cinema de verdade quando o investimento alcançar todas as etapas do processo”, afirmou.

Para a a Netflix
Em 2025, segundo ele, a Filmes de Plástico segue ampliando seus caminhos sem perder a diversidade de formatos e escalas. Enquanto alguns projetos crescem em escopo, o coletivo também realiza filmes mais enxutos, como ''O Dia Que Te Conheci'' (2023), produzido com orçamento reduzido e equipe pequena, mas que teve ampla circulação em festivais no Brasil e no exterior.
Ao mesmo tempo, a produtora aposta em obras de maior alcance, como “Vicentina Pede Desculpas”, protagonizado por Rejane Faria. O longa contará a história de Vicentina, uma mulher de 75 anos que precisa enfrentar a morte do filho, um motorista de ônibus envolvido em uma tragédia após o veículo cair de um viaduto. A produção tem investimento da Netflix, o que deve garantir projeção global pela plataforma. “Mesmo que ‘Marte Um’ não tenha conseguido atingir esse alcance, já que as campanhas promocionais dependem da própria plataforma”, afirmou. Ainda não há data oficial de lançamento.

Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.



