Silêncio
O silêncio nos angustia, nos atordoa. E aí nos perguntamos, como no poema de Carlos Drummond: “E agora, José?“

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José?” Não sei se o leitor já se deu conta, mas vivemos uma época em que abdicamos do silêncio e da fruição do tempo – a cidade e a vida urbana gritam nas 24 horas do dia. Acordamos com o despertador, ouvimos as mensagens no celular, fazemos ginástica ouvindo música, almoçamos assistindo à televisão, quando não em restaurantes repletos de barulho e passamos o dia em meio a um turbilhão de sons. Quando chegamos em casa, se não há ninguém, nenhum ruído, não sabemos o que fazer. Muitos já nem se lembram de um instante em que tudo, absolutamente tudo, está desligado. O silêncio nos angustia, nos atordoa. E aí nos perguntamos, como no poema de Carlos Drummond: “E agora, José?”
Em que pese essa ser uma realidade da vida contemporânea, fiquei entusiasmado, ao visitar a bienal mineira do livro e me deparar com uma infinidade de adolescentes leitores, num sábado à tarde, os quais deixaram os celulares de lado (e consequentemente o barulho deles advindo) e optaram pelo prazer da leitura, atividade que só é possível na solidão do silêncio. Não que o ambiente lá fosse silencioso, ao contrário, havia gritos de entusiasmos com a presença de escritores e palestrantes, mas é indubitável que os que lá estavam tinham ao menos a curiosidade pelos livros, hábito que tem se tornado incomum, não só pela dificuldade de concentração, mas também por exigir momentos de “estar consigo mesmo”. Curiosamente, o tema escolhido esse ano foi “Viver é Plural. Ler é Plural”, inspirado pela obra do escritor mineiro Guimarães Rosa, autor que abordou muito a solidão e o silêncio como momentos de contemplação, de sentir o não-dito, de fazer a travessia pelo nosso interior. Na obra “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo se pergunta: “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais”. Em “Buriti”, o Chefe Zequiel diz que “no silêncio nunca há silêncio”. E por aí vai...
Portanto, na loucura deste mundo, há de se encontrar momentos para a pausa, para a contemplação, libertando-nos de tudo e todos, o que não se confunde com ausência, mas traz-nos a necessidade de isolamento do ruído externo para que possamos ouvir nossa alma, nosso corpo, meio que num encontro conosco mesmos. Trata-se do momento de auscultar-nos, de ouvir-nos, de ver-nos com os olhos fechados. O ruído nos impede de acessar um mundo que estamos perdendo e o qual as palavras não alcançam, ainda que sejam territórios que tentamos evitar. E por que os evitamos? É que eles nos devolvem a nós mesmos – e, convenhamos, nem sempre a companhia é boa.
Na música, Gilberto Gil nos fala da necessidade destes momentos a sós, até para falar com Deus:
Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós/ Tenho que apagar a luz/ Tenho que calar a voz/ Tenho que encontrar a paz/ Tenho que folgar os nós/ Dos sapatos, da gravata/ Dos desejos, dos receios/ Tenho que esquecer a data/ Tenho que perder a conta/ Tenho que ter mãos vazias/ Ter a alma e o corpo nus
Fico por aqui, caro leitor, o que mais prontamente veio ao bico da pena para compartilhar foi este regalo do qual temos nos esquecido: fruir do tempo estando a sós. Eis um dos grandes privilégios que a vida nos brindou e do qual inexplicavelmente nos furtamos.
Ops. Essa semana comemorou-se o aniversário de Lima Barreto, dia 13 de maio, data da assinatura da lei áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. À ocasião, 1888, aos 7 anos de idade, ele estava no Largo do Paço quando ouviu a notícia. Anos depois escreveu um artigo, “Maio”, ocasião em que rememorou o mês sagrado pela poesia. Disse que “a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas...” Confessou que em sua vida jamais vira tanta alegria, com dias de “folgança e satisfação”, julgava que dali em diante “não haveria mais limitações aos propósitos de nossa fantasia”. Porém, o inflexível tempo ceifou suas aspirações, seus sonhos de posição, trazendo-lhe à realidade:
-“Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preconceitos, das regras e das leis.”.
Hoje, mais de 130 anos depois, os resquícios deste tempo estão aí, a nos rodear, no meio jurídico, nas esferas de poder, nas escolas particulares, nos condomínios fechados, nos clubes recreativos das classes mais abastadas e até nos elevadores. Todo o legado e preconceito à mostra, às escancaras. Basta ter olhos para ver (e querer). “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco”, disse um tal Machado de Assis, em Esaú e Jacó. Em breve, falaremos mais disso.
Ops. Nessa semana também faleceu Pepe Mujica. Independente de qualquer preferência política ou ideológica, é inegável que ele nos trouxe importantes reflexões sobre o que de fato é a liberdade, ao nos ensinar que é possível ser feliz com pouco. Mesmo quando Presidente da República do Uruguai, dirigia um velho fusca azul, doava a maior parte de seu salário a organizações beneficentes, morava em um sítio onde plantava para a própria subsistência. Ao final da vida, pediu para ser enterrado ao lado Manuela, sua querida cadela de três patas, nas sombras de uma árvore que ele mesmo plantou:
- “Me chamam de o presidente mais pobre do mundo, mas eu não sou um presidente pobre. Pessoas pobres são aquelas que sempre precisam de mais, aqueles que nunca têm o suficiente, porque estão num ciclo infinito. Escolhi esse estilo de vida austero, escolhi não ter muitas coisas, para que eu tenha tempo de viver como quero viver."
- “A vida é uma linda aventura e um milagre. Estamos concentrados demais na riqueza e não na felicidade. Estamos focados somente em fazer coisas e, quando você percebe, a vida passou em vão."
Eis aí alguém que certamente soube viver o silêncio e, quiçá, a verdadeira liberdade. Tá aí, outro tema palpitante.
Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.



