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Mais de 200 milhões de professores no país?

Muita gente tem opinião sobre como deve ser a escola, mas o que pensam os professores que estão lá todos os dias?

Dizem que o Brasil tem mais de 200 milhões de técnicos de futebol! Esse exagero é para mostrar que, no nosso país, quando somos grandes entendedores do assunto, adoramos dar palpites. Sabemos o que precisa ser melhorado para que nosso clube do coração ou a seleção brasileira vençam o próximo campeonato.

Eu diria que temos no país, também, mais de 200 milhões de professores. Claro que é outro exagero, afinal, a verdade é que temos cerca de 2,2 milhões de profissionais trabalhando nas escolas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio no Brasil. Mas, por aqui, todo mundo gosta de participar dos grandes assuntos, polêmicos ou não, que acontecem em nossas escolas. É comum ver pais, mães, avós, tios dizendo o que deve ser feito para resolver os problemas da educação. Seja nas conversas do dia a dia, no ponto de ônibus ou na fila do supermercado, seja nas idas e vindas às escolas.

Esse envolvimento da sociedade com o que acontece na escola, sem dúvida, é importante. Tão importante quanto escutarmos quem está todos os dias com nossas crianças e adolescentes, na sala de aula. O que pensam os professores sobre a escola e sobre a própria profissão? Na coluna de hoje e na da próxima semana, vou apresentar dados de pesquisas sobre o trabalho desses profissionais.

Uma delas foi realizada pelo Núcleo de Pesquisas em Novas Arquiteturas da USP, em parceria com o Instituto iungo, e ouviu milhares de professores de todo o país, para saber o que eles pensam sobre as perguntas acima. O resultado é que, apesar das dificuldades que enfrentam na carreira e em sala de aula, oito em cada 10 professores desejam continuar sendo professores. Um dos professores que participou da pesquisa relatou o seguinte: “meu projeto de vida é ser um professor excelente. Penso que é minha responsabilidade o desenvolvimento dos meus alunos e que essa é uma profissão muito séria”.

Os professores têm seus sonhos sobre como a escola deve ser. A mesma pesquisa mostrou que a escola ideal deveria ser diferente da atual para 97% dos profissionais. Diferentes em que? Um dos aspectos mais mencionados foi em relação às metodologias de ensino e aprendizagem, ou seja, na forma como os professores estruturam suas aulas para que os estudantes construam conhecimentos e desenvolvam habilidades, atitudes e valores. O desejo é que os alunos participem mais das aulas. Outra vontade é que as relações na escola sejam mais democráticas e inclusivas.

Para ilustrar a escola dos sonhos dos professores, trago aqui o que disse um professor que participou da pesquisa. Para ele, “a sala de aula não seria como é hoje em dia. Os alunos seriam ouvidos em suas demandas e compartilharíamos as informações obtidas através da leitura não só dos livros, mas também da leitura do mundo e da sua cultura. Não ficaríamos restritos ao espaço da sala de aula. Poderíamos percorrer os espaços da escola conversando sobre assuntos atinentes ao currículo, articulando-os à prática do cotidiano”.

Sempre é tempo de ouvir, respeitar e valorizar os profissionais da educação!

Paulo Emílio Andrade é presidente do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É, também, professor da PUC Minas e pesquisador do Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da USP

Paulo Emílio Andrade é presidente do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É mestre e doutor em educação, pesquisador do Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da USP e professor da PUC Minas.
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