Ouvindo...

Times

Rachados, cindidos e nus...

Alguém precisa dizer que, se a internet tem a prerrogativa de fornecer e processar dados, cabe a nós, como seres humanos, interpretá-los antes que compartilhá-los

O ódio é o novo normal. Sim, seja bem-vindo a mais uma afirmação irônica. Sem bom-humor não há distanciamento crítico. Esse tão necessário para não “se levar tão à sério”, sobretudo quando o assunto é religião, futebol, política. É preciso descontração na vida, já que padres, pastores, confederações e políticos também mentem. E por que? Porque você mente, todo mundo mente. Ainda mais se o assunto envolver dinheiro, sexo, ou inveja da vizinha.

A frase: “o ódio é o novo normal”, brinca com as expectativas que tínhamos sobre o pós-pandemia. Se dizia por aí que esse “Apocalipse” nos tornaria seres humanos melhores. Ledo engano. Nunca se deve duvidar da nossa capacidade de produzir idiotices. Profetas e poetas veem o óbvio. Elis Regina tinha razão: "(...) pra variar, estamos em guerra. Você não imagina a loucura. O ser humano tá na maior fissura(...)”.

Estamos cada vez mais hiperconectados. Atravessados estamos, o tempo todo, por informações. A promessa de uma fraternidade universal parece cada vez mais distante. A raiva está destilada em telas ao alcance das mãos. E pior: com algoritmos nos dando a impressão de que todo mundo pensa como a gente.

Alguém precisa dizer que, se a internet tem a prerrogativa de fornecer e processar dados, cabe a nós, como seres humanos, interpretá-los antes que compartilhá-los. Isso, dado que a repetição acrítica de informações e padrões que faz de um smartphone (da Apple se você não sabe cuidar bem de si! hahaaha) um grande achado, faz de nós idiotas.

Desde o ponto de vista psicanalítico, o "ódio” é um afeto natural. O “eu” que nos habita só se constrói em face ao que é diferente. Quem somos se constitui em cotejo com o “outro”. A criança que imita os pais é a mesma que só se estrutura psiquicamente a partir da pirraça, do confronto que trava com eles. É nos berros diante do “não” que ela aprende que, para além do “eu”, com suas pulsões e desmandos, existe o “outro”.

O ódio funda. À semelhança de um coração que, em sístole e diástole, identifica e separa, identifica e separa, identifica e separa... A pergunta libertadora, portanto, diante de alguém que nos provoca e inquieta é: quanto de ti ou do seu avesso reside em mim? Eu tenho medo de ser você?

Para Nietzsche, a expressão “amor ao próximo” é uma idealização que dá salvo conduto para uma série de “mentiras sociais”. Isso porque, ao fim e ao cabo, decidimos sempre em favor de nós, com algum interesse obscuro, com nosso ressentimento oculto. Tenho a impressão de que se vazasse um Telegram de Nietzsche com Freud, esse completaria que o pior na “idealização do amor” é que a sociedade, em seu cinismo, propaga o amor, desde que ao igual, ou ao que é levemente diferente.

As Redes Socias escancaram o desafio da “diferença” e a falência de nossas instituições. Aquela, porque o que incomoda mesmo não é o “totalmente diverso”, mas a pequena diferença, aquilo que de você reside em mim e eu “não posso aceitar”! Essa, porque todas as instituições tradicionais estavam deitadas eternamente em berço esplêndido. Dizendo amém, bênça, pela ordem ou data vênia. De túnica, terno ou togado, o Rei e o seu gabinete estão “rachados”, cindidos e nus! E que bom! Usemos nossas Mídias para nos convencer de que: nas coisas do poder, todo pudor começa com a nudez...

Talvez seja essa a amálgama da humanidade. O que nos fará encontrar na divisão, na diversidade na rejeição primária algo de comum, bem como a consciência de que somos vaidosos, mentirosos, hipócritas, pó e cinza... Nossa unidade, talvez venha da radical constatação de nossas divisões internas e externas.

Asseverou o Apóstolo que divisão se sana com entrega. Cada um deve cuidar não só do que é seu, mas do que é do outro e, no cuidado com esse outro, se encontrar. O modelo disso é Cristo que, em sendo Mestre da Paz, a retirou de uma guerra, travada antes de tudo em sua própria carne, dentro de si. A Cruz Jesus e seus braços abertos nos sirvam de inspiração. Nela Deus se rebaixa, se esvazia, se deixa rasgar (Fl 2,1-8).

Nesse rasgo, nessa cisão interna há um belo exemplo de revisão: a fé supera o enquadro de Jerusalém e a circunscrição aos judeus e passa a ser uma experiência de luz e de misericórdia estendida aos confins do mundo. Sintamo-nos vocacionados, mesmo que tão diversos e rangendo os dentes, à unidade e à paz (Ef 2,13-22).

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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