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Estamos em dívida

Dizem por aí que a culpa é uma invenção cristã. Isso porque, já nas primeiras páginas das Escrituras, fica claro que a humanidade começa com um calote divino.

Dizem por aí que a culpa é uma invenção cristã. Isso porque, já nas primeiras páginas das Escrituras, fica claro que a humanidade começa com um calote divino. Não há, em nenhum paralelo no mundo, noção maior de dívida, dado que o credor é, ninguém mais ninguém menos do que: Deus. E muito já se disse, por aqui e por ali, sobre se percepção de pecado, de dívida, de culpa aniquila ou transforma, desperta ou paralisa.

Na tradição psicanalítica, ou em quem quer pense a religião como mais um dos fenômenos humanos, há suspeitas sobre a “culpa”. Para Freud, o Jardim do Éden foi dentro. A culpa não seria um cena bíblica, mas íntima, primitiva. Ela é fruto do conflito de uma “criança”, antes visível, depois interna, mais ou menos espremida por impulsos, desejos, normas, traumas, pela moral. Nessa perspectiva, o pior opressor não é “Deus”, mas um “Super-Eu”, que tiraniza a partir de dentro. Bom, não quero dar ganho de causa a um judeu, quanto mais sendo ateu! (hahahaha), mas, de fato, quem já amadureceu um pouquinho, sabe que os principais tiranos são sempre os internos...

Nos provoca a poesia de Leandro Gomes:

“Se eu conversasse com Deus

Iria lhe perguntar:

Por que é que sofremos tanto

Quando viemos pra cá?

Que dívida é essa

Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também

Como é que ele é feito

Que não dorme, que não come

E assim vive satisfeito.

Por que foi que ele não fez

A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes

E outros que sofrem tanto?

Nascemos do mesmo jeito,

Moramos no mesmo canto.

Quem foi temperar o choro

E acabou salgando o pranto?”

Nos tempos que são os nossos, as dívidas se multiplicam. Não há consenso nem religiões, na filosofia ou na poesia...Estamos em dúvida, dívida! Dívida com o tempo, com aqueles que amamos, com quem não amamos tanto assim, com nós mesmos... Fica todo mundo na dúvida de quem fez mais mal à humanidade (é claro, às vezes querendo acertar, nem que seja a gente! hahahaha): a política, as religiões ou os bancos.

A disputa é certamente acirrada. E, na dúvida, uma boa atitude é sempre a ironia. Em momentos de insegurança e de déficit, a “certeza” ensurdece. Dívida só se vence com sorriso, com graça....

O mundo não se resolve em direita e esquerda. Isso porque ninguém é realmente tão santo quanto parece e, porque, não adianta nada defender árvores na Amazônia e encher o saco da vizinha. Não, as religiões, de cara, não nos fazem pessoas melhores. Eu diria que, às vezes, até fazem piores. Aliás, eu não (antes que me denunciem para o Santo Ofício!), mas o CEO da minha, empresa: Jesus Cristo! (Mt 23,15). Uma pessoa não se torna boa pelas ideias que defende. Bancos não são fábricas de sonhos mesmo investindo em propagandas e em corridas. Eles ganham muito dinheiro com juros e com letras miúdas.

Estamos em dívida, em dúvida. E não há consenso. Nem sobre Deus, nem sobre relações, nem sobre âmbito político. Quanto a este: choques de realidade, são mais urgentes que os de gestão. Estratégias políticas baseadas em amizades e forjadas no mesmo campo ideológico costumam dar errado. Unanimidades são ingênuas, aumentam ressentimento e déficit... Quanto a essas: amar é estar em dívida. Damos, como lembra Lacan, o que não temos ao outro que não nos pediu. E, diria, depois de dar tudo, ainda teremos falhado terrivelmente. Somos eternos devedores uns dos outros (Rm 13,8). Quanto Àquele: Deus anulou a promissória que pesava sobre nós. Morreu para a pagar a dívida (Cl 2,13). O fez, não por nossos méritos. Nos ama, não por consequência de nossas prescrições. Deus cria, salva e cuida, por sua Graça.

Dívida só se vence com consenso, com sorriso e com Graça...

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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