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Times

Ai, que delícia o calor...

O Mestre já dizia: “a boca fala do que está cheio o coração”

A gente vive do desgosto! A essa conclusão chegamos bem rapidinho. Basta só analisar quais os principais assuntos do nosso dia a dia. Boa parte do tempo a gente está envolto na reclamação, na rusga, na falta... “nossa, tá muito calor aqui”, “que trabalho insuportável”, “eu quero sumir...”.

O Mestre já dizia: “a boca fala do que está cheio o coração”. Traduzindo em linguagem atual: a gente pode ter uma boa noção de quem é uma pessoa pelo “ranqueamento” das suas principais palavras.

E só fazer uma autoanalise, olhar ao lado. Quais são as expressões que você mais usa? As pessoas das quais você se cerca costuma falar de que? (ou de quem? hahaha) Quanto tempo você investe repetindo palavras que amaldiçoam seu destino?

Já dizia o Frank Outlaw: “Cuidado com seus pensamentos, pois eles se tornam palavras.

Cuidado com suas palavras, pois elas se tornam ações. Cuidado com suas ações, pois elas se tornam hábitos. Cuidado com seus hábitos, pois eles se tornam o seu caráter. E cuidado com seu caráter, pois ele se torna o seu destino”.

Sim, é lógico que somos seres de falta. É a incompletude que nos institui como sujeitos. Por detrás da reclamação do calor há algo: “humano, demasiado humano”. Por si só, existir pressupõe insatisfação, trabalho, trauma... E isso a psicanálise chama de: desamparo.

Somos “seres aí", para citar Heidegger, o filósofo. Lançados no mundo. Em travessia de angústias...

Parece que felicidade, na vida adulta, vai se tornando, senão impossível, distante, um ideal improvável. Qualquer um que já tenha levado uma “gaia”, tende a se tornar suspeito, esperto de mais para cair no “felizes para sempre”.

Por isso conhecer-se bem é tão necessário. Ter tempo para escutar o silêncio, a solidão que mora no “existir”, em tempos de calor, murmuração, urgência e rotina, é fundamental!

Há sempre uma saída diante do “mal-estar”. A vida só é bela, porque ela acontece em ambiente hostil. “Ela só é bela aos ressuscitados!” Leonide Andreiev. Flores artificiais não são tão especiais porque elas não murcham. Cada instante vivido é também morrido. A existência é o que acontece quando a gente está distraído, reclamando do trânsito para ir ao “emprego dos sonhos”, “casado com o “príncipe” que sempre foi sapo...

Escutemos o Apóstolo: a alegria é sempre fruto (Gl 5,22). Fruto de uma vida conduzida pelo Espírito. Esse que é a “ruah”, dimensão feminina em Deus, se analisamos o “gênero” no hebraico. (O que faz muito sentido, já que é preciso ser “mulher” para ser multitarefa, como é o Espírito hahahaha). Com esse Espírito, que ora em nós e por nós, tudo se ajeita.

Dele (ou Dela) está cheia a terra. O Espírito vem do alto, faz subir ao alto. Falou nos profetas, nas sibilas pagãs...Pulsa onde quer que se encontre a vibração de energia. Nas flores, nos ateus, nos desajustados, na criação, nos seres de boa vontade...

A alegria é fruto do Espírito e de escolhas pelo “que vale a pena”. Ele é resultado da não “terceirização da vida”. Ela não é algo que chega lá no fim, mas como lembra o Mestre, no Sermão da Montanha (Mt 5): está no processo. Só se é feliz tendo falta, já que a saciedade só existe em dependência da fome.

E, sem querer romantizar o sofrimento: se o ônibus estiver cheio, se tá muito quente, se o momento atual não for dos melhores, se a vizinha estiver insuportável, se a vida afetiva estiver uma merd*, escute Lispector: afinal, ser feliz para conseguir o que depois?

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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