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Deus ama prostitutas

Jesus tinha ojeriza de quem assentia a Deus com as certezas de sua boca, maquiados de bem, transformando a fé num teatro

Não é segredo para ninguém: Jesus era um cara embaraçoso. Daquele tipo de gente que não é fácil de pegar na curva. Sua fala é toda em parábolas. “Para”, do grego, junto, ao lado. “Bállein”, jogar, lançar. Para compreender o Mestre, é preciso se lançar, andar reto, numa estrada tortuosa. Ir na direção de uma verdade, que, ao revelar, esconde...

Jesus não pertence ao círculo dos “idiotas da objetividade”, a respeito dos quais se ria Nelson Rodrigues. Gente de viseira, que só vê a partir de seu ponto de vista. Contorce os fatos. Ignora as nuances. Se autoafirma. Não reflete, mas apenas adjetiva: “feio, bobo, reacionário, comunista!!”.

Lá onde, na Bíblia, há pessoas de pensamentos parabólicos e curvos, Deus aí está. Lá onde é tudo retilíneo, claro e distinto, preto no branco, Deus se esconde... Jesus provoca dúvidas, pergunta o tempo todo a quem tem pretensão de verdade: “como lês?” (Lc 10,26), “que vos parece?” (Mt 18,12), “eu vos pergunto:" (Lc 6,9). Em sendo a Verdade, sempre se fez Mestre da Suspeita... Arrisco-me a dizer: Deus mora na dúvida, a certeza mata Deus...

Jesus tinha ojeriza de quem assentia a Deus com as certezas de sua boca, maquiados de bem, transformando a fé num teatro. Sempre se sentiu melhor com pescadores, publicanos, crianças, viúvas...Gente abandonada pela mentira social.

O Filho do Homem chega a dizer, com a delicadeza de um soco na boca do estômago, que, no Reino dos Céus, as prostitutas entram primeiro (Mt 21,31).

Meu Deus! Será que Cristo enlouqueceu? Está legitimando o pecado? Mas é óbvio que não. Só está “ironizando” (a la Freud, já que toda brincadeira tem um fundo de verdade); só está antecipando o que dirá, depois, Nelson Rodrigues: é preciso pedir à adúltera que ore por nós! Afinal, há adúlteras e prostitutas com corações mais castos do que muita gente de religião. Afinal, o que é a ilusão tediosa e insaciável da carne, de quem mendiga amor, padece de egoísmo escoltado, ou só faz do sexo moeda de troca de sua indigência, perto de quem defrauda a casa da viúva e do órfão e usa das coisas de Deus para ocultar a própria perversidade?

Deus ama, mais que os fariseus, as prostitutas. E se querem uma pregação diferente, deem-nos um outro Evangelho... Penso que já tá na hora de despertarmos desse delírio de que é fazendo “tudo muito certinho” que se alcança o favor de Deus. Não! Diante de Deus, como musica Mozart, “nem o justo está seguro”. Afinal, se o Criador achou imperfeição até entre os anjos, quem seremos nós?

Todo “certinho” demais, cedo ou tarde, surta e adoece. Quando o assunto é dinheiro, desejo e sexo, somos todos neuróticos (inclusive pastores e padres...hahaha). E tá tudo bem! Talvez o mundo precise de menos coachings, menos veganos praticantes, menos puros, menos “santos”.

Vai, por mim, pensa que a Terra é uma empresa. Jesus, o CEO desse negócio, sempre recrutou os desajustados. Aqueles que desconfiam de si, costumam ser mais disponíveis para Graça. Os que desejam se encher do que mais importa, precisam se esvaziar. Quem se vê envolto pela consciência dos próprios pecados, não tem tempo para acusar os outros, se preocupa primeiro em amar.

“O amor, cobre uma multidão de pecados"(1 Pe 4,8)."Os muitos pecados que ela cometeu, estão perdoados. Pois ela (a pecadora!) demonstrou muito amor...” Lc 9,47.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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