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Quem te rouba de si?

A resposta para saber quem você é para além do que você faz é uma das mais fundamentais da sua existência

Em todo tempo e lugar um dos maiores desafios é saber quem se é. Nós temos uma pálida noção de quem somos. Numa sociedade de tantas “urgências”, esse “saber-se” é ainda mais difícil, já que o “eu” tende a se dissolver no desempenho e na meta. Até casamento hoje é questão de meta. É muito menos sobre um vínculo até a vida eterna e mais sobre performance na cama, post no insta, interesses particulares... Quero, então, lhe fazer uma proposta: diga-me quem você é, sem falar o que você faz?

Nunca na História da Humanidade tivemos tanta crença no empreendedorismo. Está todo mundo convencido de que o desempenho profissional e o status que daí decorre trará a realização. O que não nos contaram, sobretudo, os que alcançam “milhões por segundo” é que a tragédia de quem tem muito é nunca ter o suficiente.

Não é que ter metas seja um problema! Como diziam os clássicos: “nenhum vento é favorável para um barco que não sabe para onde vai”. A questão é não se tornar uma vítima de si e das próprias ambições.

Pare alguns segundos durante o dia, ore, aprecie o detalhe e o instante. Nos momentos de loucura desmedida pelo “futuro mais rico” seja cúmplice da sabedoria. Sua companhia ensina que: quem deseja o que tem, tem tudo o que deseja.

Na sociedade do cansaço, a teologia é o excesso de positividade, o grande “deus” é o desempenho. Vive-se em contínuo estado de disputa, cada um consigo mesmo e com os outros. Todos iludidos de que a felicidade é um direito... Mas como dizia Lispector, afinal ser feliz para conseguir o que depois?

Um dos piores xingamentos que Cristo dirige a alguém nos evangelhos é quando chama os fariseus de “amigos do dinheiro” Lc 16,14. Isso quer dizer que Jesus era contra os bens? (bom, o evangelista Lucas um pouco mais...kkkk) Mas é claro que não? Até mesmo porque, embora Jesus tenha pedido a alguns que o seguiram para vender seus bens (Mt 19,21), ele também tinha um networking “foda”, possuía “contatos”. Era patrocinado por mulheres ricas (Lc 8,3) e, como todo bom conhecido, de vez em quando, ia dar prejuízo na casa de Maria, Marta e Lázaro (Lc 10, Jo 11).

O dinheiro é uma bênção, mas ele tem que nos aproximar das coisas que vêm de graça. Uma casa só é bela se for um lar. Um carro só faz sentido se for algo mais que um artigo de luxo, ou uma Unidade Móvel do CTI da rotina. Às vezes um Android, mesmo, serve...eu sei, você sabe, nós sabemos que ele esquenta e pifa, mas Iphone é mais para quem não sabe se cuidar (kkkkk).

A resposta para saber quem você é para além do que você faz é uma das mais fundamentais da sua existência. Sem ela, estará iludido de que existe alguma necessidade que seja suficiente. Se estivermos competindo o tempo todo, nunca dará tempo de compartilhar. A vida sem apreciação e compartilhamento se torna acúmulo, um peso insuportável; a gente se sente roubado de si.

E uma regra de ouro: sem ti, tudo continuará sem ti. Trago verdades: sua chefe não te ama não, você é só um FGTS e um número no RH! Daqui a cem anos não terá importância qual foi seu tipo de cargo, casa ou carro, mas o mundo poderá ser diferente porque você foi importante na vida de uma criança...

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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