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Mata teu pai

Até “anteontem” nós não tínhamos muita noção do que era o pai

A paternidade é uma descoberta contemporânea. Sim, pode parecer estranho, mas até “anteontem” nós não tínhamos muita noção do que era o pai. Seu lugar sempre foi mais ou menos o de companheiro, chefe, provedor. A gente nunca deu muita atenção para o protagonismo dessa figura, por exemplo, no processo de formação de uma criança. “Isso aí é coisa para a mãe”, dizíamos... Acontece que, de Hamlet, passando por Dostoievsky, indo a Freud, podemos chegar a uma conclusão: se a maternidade tende a ter mais “prestígio”, o grande enigma da vida humana, certamente, tem muito a ver com a presença ou a ausência de um pai.

Para nós cristãos, Deus é Pai. Essa é a Revelação íntima que Jesus veio nos trazer. “Quando orardes, dizei assim: 'Ábba’ (paizinho)”. Ter fé, na perspectiva cristã, significa saber-se num colo. Deus é, desde toda eternidade, o “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação” 2 Cor 1, 3. Aliás, já no Antigo Testamento, esse é o Seu nome “o Deus dos pais”, isto é, o Deus que Se fez amigo dos patriarcas (Dn 3,35), que Se envolveu com suas histórias, e faz da descendência de Abraão os Seus próprios filhos (Ex 4, 22).

Para a literatura, o que institui o sujeito é o luto do pai. A começar de Hamlet, que é uma espécie de “certidão de batismo” do indivíduo contemporâneo, percebemos que todos temos que nos haver com o “fantasma do pai”. Qualquer pessoa sincera, olhando para si, estará diante de memórias marcantes acerca do próprio pai ou do luto por sua ausência, ou do impacto que sempre lhe causou o seu olhar, que permanece, uma vida inteira, sendo definidor de nossos medos e escolhas, de nossas luzes e sombras.

Fazendo Hamlet dialogar com Freud, na perspectiva do “complexo de Édipo”, diríamos que o imperativo de uma consciência madura é: “mata teu pai”. Banca seu teu existir. Sê sujeito! Uma vida será tanto mais madura na medida em que se fizer a travessia do luto dessa figura, hora romântica, dramática, trágica... Só o luto do pai, poderíamos dizer, envelhece, amadurece. Sem sua morte simbólica, sem a liberdade de sair da posição de “dependente”, de quem recebe, é aprovado, sustentado, não há sujeito. Diríamos que a grande missão de um bom pai é tornar-se, enquanto definidor da existência dos filhos, “dispensável”.

Sim, isso mesmo. Espero - ou nem tanto - que meu ânimo travesso não te leve a se escandalizar diante do óbvio. “Só os loucos veem o óbvio” (Erasmo de Roterdã). Com sinceridade, você verá que “há um que de razão na loucura e há um que de loucura no amor” (Nietzsche).

Seja na perspectiva bíblica, na literatura ou na psicanálise, o pai provoca, traz os contornos, a mudança, o luto, o limite. O batismo é morrer para uma vida antiga e nascer a partir de um pai. Em Hamlet a travessia do ser, “do ser ou não ser” sem se desfazer vem da dor diante do luto de um pai. Em Freud, o “parto” de quem realmente somos não se dá no útero da mãe, mas nas entranhas do confronto causado pelo encontro (ou seria desencontro?) com a figura de um pai.

Um paradoxo, na verdade, é o pai: se se ausenta, se é presente; se aquece ou se esfria. O pai é da ordem do absurdo. Palavra pequena, difícil de decifrar... Deus é Pai. Pai é quem cria. Sofre-se por ausência de Pai. Pai é dádiva. Pai castiga e pune. Pai não é Superego. Pai que é pai não é vigia. Mas se não vigia, solta. Se soltar demais, se desfaz. Mas se apertar muito, quebra... Pai é “herói, pai é bandido...”.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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