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Frei Gilson: o fenômeno

'Experiência da fé cristã está profundamente reconfigurada no mundo digital'

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Frei Gilson o fenômeno
Frei Gilson o fenômeno • Frei Gilson o fenômeno

No último domingo, o Mineirão quebrou mais um de seus recordes. E, desta vez, não teve nada a ver com futebol. Tratou-se do Cristo é o Show, capitaneado, em grande medida, pelo fenômeno Frei Gilson. O que vimos, diante dos olhos, de maneira “óbvia e ululante”, foi a demonstração de que a experiência da fé cristã está profundamente reconfigurada no mundo digital. 

Para quem imagina um futuro composto apenas de algoritmos e inteligências artificiais, um evento como esse deixa entrever outra possibilidade: talvez o porvir seja não apenas mais tecnológico, mas também mais tribal e ancestral. Aludindo a Lacan, se no futuro haverá iPhones ou psicólogos, não sabemos; mas é certo que haverá freis e padres.  

Para além das paixões simpáticas ou antipáticas, ninguém pode negar a singularidade de Frei Gilson. Dono de uma fala simples e direta, hábil na comunicação digital e na mobilização das multidões, ao mesmo tempo em que cultiva uma vida discreta e despojada, ele se tornou uma das figuras mais influentes do Brasil. Milhões rezam com ele nos rosários da madrugada. Suas músicas estão na boca do povo. 

O frade rompe bolhas católicas, políticas e geracionais. Seu discurso toca algo mais profundo e permanente: o drama humano. Não se pode pensar um fenômeno como Frei Gilson desvinculado do contexto vital brasileiro. Em termos religiosos e sociopolíticos, estamos diante de movimentos que compartilham um mesmo solo simbólico. Frei Gilson, no campo religioso, e, mutatis mutandis, figuras como Nikolas Ferreira no campo político, participam de um mesmo influxo de aderência afetiva e mobilização coletiva. 

Esse fenômeno, talvez se deva, ao fato de nossas instituições tradicionais, religiosas, políticas e acadêmicas, terem se tornado abstratas em demasia. O Brasil profundo, de quem acorda cedo e luta para sobreviver, não cabe inteiramente em cartilhas, sermões ou pronunciamentos de gabinete. Enquanto as instituições explicam, Frei Gilson nomeia. 

Já não dá para negar que o Brasil é estruturalmente conservador em muitos de seus afetos e códigos morais. Mesmo em meio à circulação de pautas contemporâneas, subsiste uma base cultural marcada por família, culpa, sofrimento, autoridade e sagrado. Soma-se a isso uma profunda desconfiança nas instituições, insegurança econômica e necessidade de pertencimento. Nesse cenário, discursos abstratos mobilizam menos do que discursos que falam de luta, bem contra o mal, queda, cruz, batalha, cura e sentido

Lançando mão da teoria dos arquétipos de Jung, poderíamos dizer que Frei Gilson mobiliza algo reconhecível no imaginário coletivo. O frade é a encarnação perfeita daquela nostalgia "passada e futura" pela inocência do paraíso. Suas canções atraem nossa alma para a paz, que vem das mensagens positivas e esperançosas, tanto quanto das imagens simples e nostálgicas, que elevam a promessa de resgate e redenção em meio ao kaos da vida.  

Atormentados pela ânsia e o tédio do ter e do possuir, num lugar inalcançável ao plano estratégico e às cartilhas do partido, a mensagem de frei Gilson é sobre prazeres simples e valores básicos. Seu "Som do Monte" , suas melodias, seu hábito nostálgico exalam o "não-lugar", a u-topia. 

Quem de nós, em meio ao kaos, às ideias contraditórias da ideologia, ainda que seja lá no fundo, não quer o simples, não se deleita na paz, no sossego, na naturalidade. A pregação e as músicas de Frei Gilson (meio São Francisco, meio Savonarola) dão nome e inteligibilidade ao nosso sofrimento. Ansiedade, vazio, solidão, fracasso afetivo, sensação de desordem moral, insegurança econômica, luto,  exaustão, excesso de estímulos, perda de referências, crise masculina e feminina, dificuldades familiares... Tudo isso cria um sujeito muito vulnerável à procura de linguagem que não apenas explique, mas nomeie simbolicamente sua dor. É aí que figuras como Frei Gilson ganham força: elas não entregam só conteúdo religioso;  entregam uma gramática de inteligibilidade do sofrimento.  Com esse "repertório", passamos a compreender nossas crises não como um kaos mudo, mas como provação, combate, travessia, purificação, heroísmo.  

Para além do juízo de valor, a questão que permanece, é de primeira ordem: passado o arrebatamento do show, o que fica? Diante da complexidade psicológica, social e política da existência humana, será que repertórios demasiadamente binários conseguem realmente dar conta das raízes profundas das crises contemporâneas? 

É evidente que parte das experiências religiosas latino-americanas desidratou a fé, transformando cultos e missas em extensões de disputas partidárias. Mas também é evidente que a fé não pode abrir mão de sua consciência profética, ética e política. Ah, e nem fugir das indagações de Freud, diríamos...  

Talvez a crise contemporânea da fé não se resolva nem pela simples volta às fórmulas do passado, nem por sua tradução algorítmica. Talvez estejamos sendo convocados, como os grandes homens e mulheres da história, a oferecer respostas novas, com mística, profecia e profundidade.  

Bom. Não temos respostas definitivas. Por aqui, provocamos consciência e trazemos mais perguntas do que respostas...  

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.