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Pela 4ª vez presidente, Lula prioriza Alckmin e faz aceno à direita, religiosos e jovens

Petista afirmou que, depois da eleição, não há mais adversários e que vai governar para todos

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Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) • AFP

Em uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou seu quarto mandato com 64.256.232 votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Em seu primeiro pronunciamento depois da vitória, o petista fez acenos ao eleitorado de centro e de direita, às mulheres, aos empresários, aos jovens e aos religiosos. A estratégia sinaliza uma tentativa de ampliar a base política e social do governo depois de uma das disputas mais acirradas da história do país.

Já quase sem voz, Lula fez questão de passar a palavra primeiro ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), em um gesto de reconhecimento político e de aproximação com setores mais conservadores. Vice de Lula pela segunda vez, Alckmin construiu sua trajetória no PSDB, partido pelo qual disputou a Presidência contra o próprio petista em 2006. Ao apresentá-lo, Lula afirmou que o vice teve participação importante na vitória e, depois, elogiou sua lealdade, seu comportamento e sua lisura.

Ao tomar a palavra, Alckmin destacou a participação dos jovens, lembrando que a eleição ocorreu em 25 de outubro, Dia Nacional da Juventude. "O futuro começa hoje com a juventude", afirmou. O vice também agradeceu às mulheres e aos idosos que compareceram às urnas. A referência aos jovens tem significado eleitoral: na última pesquisa Datafolha antes do primeiro turno, Lula registrava 49% dos votos válidos entre eleitores de 16 a 24 anos, contra 39% de Flávio Bolsonaro.

Paz e amor

Lula também tentou acionar o modo paz e amor e procurou encerrar o confronto eleitoral com uma mensagem de conciliação. "Na medida em que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário", declarou. O presidente afirmou que terá a responsabilidade de governar para 215 milhões de brasileiros e para todas as cidades do país. A declaração ocorre em um cenário de forte polarização e diante de um Congresso Nacional com expressiva presença de parlamentares de direita, o que exigirá negociações políticas para a aprovação de projetos do governo.

Mulheres e religiosos

O eleitorado feminino foi um segmento decisivo para sustentar a competitividade de Lula durante a campanha. Segundo a pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro, o petista tinha 53% das intenções de votos válidos entre as eleitoras, contra 47% de Flávio Bolsonaro. Entre os homens, o cenário era inverso: o candidato do PL liderava por 54% a 46%. Os números mostram que Lula chegou à reta final com desempenho mais favorável entre as mulheres, enquanto Flávio concentrava maior apoio masculino.

O presidente também fez um aceno às diferentes religiões, defendendo igualdade de tratamento e liberdade religiosa em um Estado laico. O gesto alcança especialmente os evangélicos, segmento no qual Flávio Bolsonaro manteve ampla vantagem durante a campanha. No último Datafolha, o candidato do PL registrava 73% dos votos válidos entre evangélicos, contra 27% de Lula. Entre católicos, a preferência se invertia: 59% para o petista e 41% para o adversário. A diferença ajuda a explicar a importância política da promessa de respeito a todas as crenças.

Empresários e economia

Ao apresentar as prioridades do próximo mandato, Lula também dirigiu sinais ao setor produtivo, que sempre cobra redução da máquina pública e controle de gastos. O presidente afirmo que vai se reunir com empresários. O presidente defendeu investimentos em economia digital, economia verde, economia criativa, energias renováveis e infraestrutura tecnológica, incluindo a instalação de centros de processamento de dados no Brasil. A agenda representa uma tentativa de aproximar o governo de investidores e empresários, em um ambiente no qual o petista enfrentou resistência de parcelas do eleitorado de renda mais elevada.

O último Datafolha mostrou Flávio Bolsonaro à frente entre eleitores com renda familiar superior a cinco salários mínimos, com 58% dos votos válidos, contra 42% de Lula. A mesma vantagem foi registrada na faixa de mais de dois a cinco salários mínimos. Já entre os eleitores com renda de até dois salários mínimos, Lula liderava por 58% a 42%. Embora renda não seja sinônimo de atividade empresarial, a distribuição das preferências eleitorais ajuda a dimensionar o desafio do presidente de ampliar o diálogo com setores econômicos que se mostraram mais próximos da oposição.

O desafio da conciliação

A prioridade dada a Alckmin, a valorização de segmentos que ajudaram a garantir a vitória e os acenos a grupos nos quais Flávio Bolsonaro teve melhor desempenho compõem uma mensagem política para além da comemoração eleitoral. Lula inicia a preparação de seu quarto mandato diante do desafio de transformar a vitória nas urnas em capacidade de articulação com o Congresso -majoritariamente de direita - e de diálogo com uma sociedade dividida. Ao afirmar que não terá mais adversários depois da eleição, o presidente sinaliza que pretende substituir o discurso de campanha por uma agenda de conciliação. O tamanho dessa disposição será medido pelas escolhas políticas e pela composição do próximo governo.

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Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.

 

 

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