De pai para filho: Flávio repete estratégia de Bolsonaro e usa palavras escritas na mão em debate da Band
De 'Deus, família e Brasil' a 'CorruPTo', anotações feitas nas mãos reforçam tradição da Família Bolsonaro

A estratégia de escrever palavras na palma da mão durante entrevistas e debates presidenciais atravessou duas gerações da família Bolsonaro e voltou a se repetir no debate da Band, neste domingo (28). O recurso, utilizado por Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, foi incorporado por Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo Palácio do Planalto em 2026. Mais do que uma simples anotação para lembrar assuntos, as palavras ajudam a compreender as prioridades eleitorais de cada campanha e os públicos que pai e filho procuram alcançar.
Na entrevista ao Jornal Nacional, na sexta-feira (16), Flávio apareceu com a palavra “Motoboy” escrita na mão. No debate da Band, neste domingo (18), o senador usou a palavra “corruPTo” com as letras P e T, sigla do Partidos dos Trabalhadores em letras maiúsculas, uma clara provocação ao adversário.
Jair Bolsonaro
Em 2018, durante entrevista ao Jornal Nacional, Jair Bolsonaro (PL) escreveu na palma da mão as palavras “Deus”, “Família” e “Brasil”. Os três termos sintetizavam parte importante da identidade política que ajudou a construir sua candidatura: conservadorismo nos costumes, valorização da religião e nacionalismo.
Naquele mesmo ano, durante um debate na RedeTV!, o então candidato também havia recorrido às palavras “pesquisas”, “armas” e “Lula”. A escolha refletia temas centrais de sua campanha, marcada pela defesa do armamento e pelo confronto com o PT.
Quatro anos depois, em 2022, Bolsonaro voltou ao Jornal Nacional com outras quatro anotações: “Nicarágua”, “Argentina”, “Colômbia” e “Dario Messer”. Desta vez, o objetivo político era diferente. As referências aos países latino-americanos permitiam estabelecer associações entre governos de esquerda e regimes criticados por Bolsonaro. Já a menção ao doleiro Dario Messer estava relacionada a controvérsias exploradas politicamente pelo então presidente.
Flávio adapta a estratégia
Flávio já havia utilizado o mesmo recurso em agosto deste ano, durante outra sabatina do Jornal Nacional. Na ocasião, escreveu “Mudança”, “Futuro” e “7/set”, em referência ao discurso de renovação política e às mobilizações do Dia da Independência.
Entrevista JN
A palavra “Motoboy”, exibida agora no segundo turno, na entrevista da Rede Globo na sexta (16), indicou uma mudança de foco. Enquanto o pai recorria a referências ideológicas e ataques aos adversários, Flávio procurou associar sua candidatura a segmentos específicos do eleitorado, especialmente trabalhadores autônomos e empreendedores.
A estratégia também dialoga com a disputa pela classe média e pela chamada classe C, grupos que ganharam centralidade nas campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro. De um lado, o governo aposta na ampliação de benefícios e em medidas para aliviar o orçamento das famílias. Do outro, Flávio tenta conquistar eleitores com um discurso de incentivo ao empreendedorismo, redução de custos e maior liberdade econômica.
Debate da Band
No debate da Band, como a coluna havia adiantado, a estratégia se repetiu. A palavra escolhida foi “corruPTo”, com as letras P e T em maiúsculas, numa referência à sigla do Partido dos Trabalhadores, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A inscrição foi uma provocação direta ao adversário e reforçou uma das principais linhas de ataque da campanha bolsonarista: a associação do PT a casos de corrupção.
Na reta final da campanha, as palavras escritas nas mãos podem até parecer um detalhe. Mas, na comunicação política, gestos aparentemente simples ajudam a produzir imagens, alimentar discussões nas redes sociais e reforçar mensagens. Ao repetir o pai, Flávio procura preservar uma marca do bolsonarismo, adaptando o conteúdo ao eleitorado que precisa conquistar para chegar ao Palácio do Planalto.
Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.



