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Da Band à Globo: os ajustes de Flávio e Lula para o segundo debate

Presidenciáveis revisam erros e acertos do primeiro confronto e preparam estratégias para tentar alcançar eleitores que ainda podem mudar de voto

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Flávio Bolsonaro e Lula vão disputar o segundo turno
Flávio Bolsonaro e Lula vão disputar o segundo turno • Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegam ao segundo e último debate presidencial, nesta sexta-feira (23), na TV Globo, com estratégias ajustadas a partir do confronto realizado na Band, no último domingo (18). As equipes dos dois candidatos analisaram os momentos de maior repercussão, as oportunidades desperdiçadas e os ataques que podem ser explorados na reta final da campanha. Em uma disputa apertada, o desempenho diante das câmeras ganha ainda mais importância.

Segurança e economia

Flávio deve insistir em dois temas considerados vulnerabilidades do governo Lula e contrapor com propostas: segurança pública e economia. O senador pretende explorar a preocupação dos brasileiros com a violência, defender o endurecimento da legislação penal e questionar os resultados das políticas federais de combate ao crime organizado.

Na economia, a aposta é explorar a distância entre os indicadores apresentados pelo governo e a percepção dos consumidores sobre o custo de vida. A campanha considera que o endividamento das famílias, o poder de compra e as dificuldades enfrentadas por pequenos empreendedores podem ajudar Flávio a ampliar o diálogo com eleitores insatisfeitos com a atual gestão.

Mulheres e pautas sociais

Lula deve explorar o histórico de votações de Flávio Bolsonaro, especialmente em matérias relacionadas aos direitos das mulheres. A estratégia é confrontar o posicionamento do adversário no Legislativo com as propostas apresentadas durante a campanha, além de comparar as posições do senador com medidas adotadas pelos governos petistas.

Entre os episódios que podem ser explorados estão votações de Flávio quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. Lula deve citar uma votação de 2009, em que o presidenciável foi o único a votar contra a ampliação da licença-maternidade de para servidoras públicas estaduais. Também está na lista do petista a posição contrária de Flávio ao projeto que permitia restringir o porte de armas de agentes de segurança pública envolvidos em casos de violência doméstica. Os petistas listam ainda o voto contrário, em projeto de combate ao turismo sexual que estabelecia punição financeira para estabelecimentos que comercializassem cartões-postais com imagens de mulheres seminuas associadas a pontos turísticos do Rio. O fio de desgaste da campanha adversária termina em 2023, quando Flávio anunciou voto contrário ao projeto de igualdade salarial entre mulheres e homens, durante a análise da matéria na Comissão de Assuntos Econômicos.

A expectativa é que Lula utilize esses registros para questionar a coerência entre o histórico parlamentar do adversário e os compromissos apresentados durante a campanha.

Calcanhar de Aquiles

Flávio poderá voltar ao caso da lobista Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal no escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS e que mantém ligação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Em entrevista à CNN Brasil, na véspera do debate da Band, Roberta afirmou que o filho do presidente participou de reuniões com ministros do governo e que Lula tinha conhecimento desses encontros. A empresária também declarou que prestou consultoria a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e que o apresentou a Lulinha. Ela manifestou intenção de fazer uma delação premiada e afirmou que não pouparia o presidente nem seu filho. As declarações são acusações da investigada, ainda não comprovadas judicialmente. Lula nega envolvimento nas supostas irregularidades e afirma que cabe à Polícia Federal apurar o caso. Lulinha também nega ter cometido irregularidades.

Lula, por outro lado, poderá retomar o desafio de abertura dos sigilos e cobrar explicações sobre a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro em operações envolvendo empresas de apostas. O advogado e o senador negam a existência de conta conjunta em paraíso fiscal e qualquer irregularidade.

Outro assunto que poderá ser explorado por Lula é a disputa pela posse de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, envolvendo o jogador Richarlison e uma empresa de Willer Tomaz. O atacante afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel e acusa o advogado e Flávio de terem se articulado para retirar dele os direitos sobre a propriedade depois que recusou uma proposta de compra atribuída ao senador.

De Marçal a Tarcísio

Flávio também fez mudanças na preparação. Se no primeiro debate ouviu conselhos de Pablo Marçal, agora a referência é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O estilo de Tarcísio é diferente do adotado por Marçal. Enquanto o empresário se destacou em debates marcados por provocações e confrontos diretos, o governador costuma privilegiar uma postura mais contida, com argumentos técnicos, apresentação de dados e referências à experiência administrativa.

A participação de Tarcísio na preparação pode ajudar Flávio a equilibrar os ataques com a exposição de propostas, especialmente quando for questionado sobre como pretende colocar em prática as medidas defendidas na campanha.

A disputa para pautar as últimas 36 horas

O primeiro confronto deixou uma lição para as duas campanhas. Durante o debate da Band, Flávio conseguiu direcionar boa parte das discussões. O senador apresentou questionamentos que obrigaram Lula a responder a acusações, reduzindo o espaço para a apresentação das realizações do governo e de propostas para um eventual novo mandato.

Mas o cenário mudou depois do programa. Lula conseguiu prolongar a repercussão de um desafio lançado por ele próprio durante o confronto: a abertura de sigilos. A discussão ultrapassou o debate, provocou manifestações públicas e passou a ocupar espaço no noticiário político durante a semana.

O episódio mostrou que controlar os assuntos discutidos durante um debate não significa necessariamente dominar sua repercussão. E essa diferença ganha ainda mais importância no confronto da Globo, realizado a aproximadamente 36 horas da abertura das urnas.

Com tão pouco tempo até a votação, a capacidade de lançar um assunto que continue repercutindo depois do programa pode ter peso tão relevante quanto o desempenho dos candidatos diante das câmeras. Um questionamento, uma resposta ou uma proposta podem alimentar entrevistas, publicações nas redes sociais, conversas entre eleitores e a cobertura jornalística do sábado, último dia de campanha.

A diferença em relação ao debate da Band é que, desta vez, haverá pouco espaço para mudar a narrativa que se consolidar após o confronto. Flávio e Lula disputarão, portanto, não apenas a condução do debate, mas também a definição do assunto que poderá dominar as últimas horas da campanha presidencial.

A disputa pelos votos que faltam

As campanhas também acompanham os números do Datafolha da última quinta-feira (22). Segundo os percentuais considerados pelas equipes, 6% dos eleitores admitem mudar de voto e 2% permanecem indecisos. Além desse grupo, Flávio e Lula tentam mobilizar os brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno, quando a abstenção ultrapassou 20%.

O objetivo não é apenas convencer quem está em dúvida, mas oferecer motivos para que eleitores desmotivados compareçam às urnas no domingo (25). Nesse cenário, os candidatos precisam combinar ataques, propostas e capacidade de transmitir segurança ao eleitorado.

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Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.

 

 

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