Fim da farra? Como os ajustes nas ‘Emendas pix’ alteram o poder dos parlamentares na base?

Acordo entre STF, Congresso e Planalto deve moralizar usos de emendas parlamentares e diminuir gestão de parlamentares sobre recursos federais

Acordo entre STF, Congresso e Planalto deve moralizar usos de ‘Emendas Pix’

A reunião entre representantes do judiciário, do parlamento e do governo federal reverteu uma decisão do Supremo Tribunal Federal que havia suspendido as chamadas “Emendas Pix”. No entanto, o acordo estipulou novas regras para a destinaçao dos recursos administrados pelos deputados e senadores dentro do orçamento da União. Antes de explicar o que é a “Emenda Pix” é preciso definir emenda parlamentar.

Emenda parlamentar: é a parte do orçamento do executivo que é administrada pelo poder legislativo, ou seja, que os parlamentares podem definir como será usada. As emendas podem ser individuais (cada parlamentar indica um valor), de bancadas (deputados e senadores de um mesmo estado indicam coletivamente) e de comissões (os grupos temáticos das casas legislativas definem a destinação). As emendas individuais e de bancadas são impositivas, ou seja, de pagamento obrigatório.

Emenda Pix: apelido dado a um tipo de uso de emenda parlamentar individual, estabelecido por uma alteração na constituição em 2019, que é classificado como “transferência especial”, sem burocracia. Nessa modalidade, os deputados e senadores podem transferir recursos direto para estados e prefeituras, sem necessidade de celebrar convênio ou indicar a finalidade da destinação.

No caso das emendas individuais, todos os deputados recebem o mesmo valor anualmente (em 2024, foram cerca de R$ 37 milhões), metade do recurso tem que ser destinado à saúde e a outra metade o parlamentar pode fazer a indicação que quiser, se for para prefeituras, por exemplo, não precisa prestar contas. Se for para entidades, como organizações não governamentais, tem que firmar convênios via ministérios. Justamente por isso, a destinação para prefeituras aumentou e para entidades diminuiu nos últimos anos.

Ação no Supremo
Em agosto deste ano, o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando as chamadas “emendas Pix”. O relator, ministro Flávio Dino, deu parecer pela suspensão das emendas Pix, e foi acompanhando por unanimidade pelos colegas.

Acordo
Para tentar reverter a situação, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP) e o presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco (PSD), se reuniram com o presidente do STF, Luis Roberto Barroso, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa. Houve um acordo e as chamadas “Emendas Pix” foram mantidas, mas sob a condição de serem administradas com transparência.

Mudanças
As decisões em relação às emendas individuais, de bancada e de comissão foram:

- Emendas pix (individuais): precisam de critérios de transparência e reastreabilidade, sendo obrigatória a indicação de destino e finalidade do recurso.

- Emendas de bancada: precisam priorizar projetos estruturantes de interesse nacional e estadual.

- Emendas de comissão: precisam priorizar projetos de interesse nacional e estadual.

Quem ganha?

Ao definir que as emendas coletivas (de bancada e comissão) devem priorizar projetos de interesse estadual, nacional e obras inacabadas, o governo federal vai conseguir direcionar parte dso recursos dos deputados para obras do Programa de Aceleração do Crescimento. Como o PAC é uma iniciativa do governo federal, pode-se dizer que é uma vitória para o Palácio do Planalto. O acordo também diminui a quantidade de recursos que os parlamentares usavam livremente já que nas emendas de bancada e comissão terão que escolher projetos estruturantes, de interesse amplamente coletivo, e não apenas projetos locais de suas bases.

Quem perde?

“Antes menos do que nada” é uma expressão que definiria a situação dos parlamentares nessa guerra. Eles permanecem com uma quantidade significativa de recursos para indicar, mas houve uma moralização da destinação e será necessário cautela ao beneficiar os prefeitos de suas bases. Os municípios continuarão podendo usar 30% do que recebem de emendas pix dos parlamentares em custeio, a maioria investe eventos e shows, mas terão que usar os recursos com mais clareza.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast “Abrindo o Jogo”, que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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